sábado, 11 de agosto de 2018

O que está por vir


Nilson Lage

O ponto de partida para se tomar decisões em política e economia é que a realidade importa menos do que o que vem depois: como no tango, não se pode fazer qualquer movimento sem prever o próximo.

Nos últimos dois séculos, a mais evidente fonte de riqueza tem sido a exploração do trabalho alheio. Patrões sempre se apropriaram de parte do valor do trabalho de seus empregados, mas isso adquiriu visibilidade escandalosa com a revolução industrial. 

Com a automação dos sistemas e da inteligência artificial, não será assim: máquinas não admitem mais valia. Já agora, fábricas automatizadas competindo umas com as outras tendem ao empate dos custos e à formação do lucro mínimo. 

Gente vem, há muito, perdendo importância: dispensa-se a lábia do vendedor se o pedido é feito online; a elegância do garçom, se o cliente apanha o prato no balcão. No setor de serviços, o que a máquina não pode fazer transfere-se ao cliente, que passa a dominar uma porção de protocolos de comando.

Com o fulcro da economia de novo no comércio, retorna-se ao capitalismo mercantil, com sua fixação nas fontes de matéria-prima e em mercados cativos. O velho imperialismo volta à adolescência, com todo o tesão da idade. Oligopólios se apropriam do que restava disponível na natureza, como a água.

As mudanças vão, porém, além disso: o que passa a importar é o lucro, não o produto. Um fabricante de eletrodomésticos ou agricultor que cultiva flores gasta boa parte de seu tempo cuidando dos fatores de venda, como funcionalidade, beleza ou simbolismos agregados. Na nova configuração da economia, a ênfase se desloca para a engenharia do negócio, que é a gestão de uma única mercadoria, o dinheiro. 

A solução indicada para uma empresa de mídia em crise não é buscar melhores roteiristas, editores ou assuntos, mas entregar-se a gestores que provavelmente recuperaram, antes, uma fábrica de bolachas, um time de basquete ou uma igreja pentecostal. 

O conhecimento -- abstração, como o dinheiro -- foi dos sábios, dos intelectuais, dos cientistas; hoje é dos detentores de direitos e patentes, dos financiadores de laboratórios e centros de pesquisa de cuja produção se apropriam. A usura se implantará cada vez mais no reino das ideias: maior compartimentação, mudanças travadas. 

Tudo no mundo é meio e objetiva um fim: caminha-se para o oligopólio dos oligopólios, para onde fluirão riqueza e sabedoria, traduzidas em dígitos convencionais – isto é, que, fora da convenção, não representam nada. Em dígitos se consumará, pois, a noção de “ser”: a essência de tudo que existe, o ente universal da nova escolástica.

Falcatruas menores, que permitem aos espertos prosperar – movem práticas e alimentam sonhos da classe média – ficarão mais difíceis. Imaginem um sistema de trânsito com veículos dirigidos por máquinas em estradas controladas por máquinas: não haverá regras a discutir em cada caso, nem habilitação, multas, gorjetas ou privilégios: acidentes serão analisados por máquinas corregedoras e a responsabilidade, se houver, atribuída a alguma questão de engenharia ou ao acaso. Pendência pouca haverá em cartórios eletrônicos regidos por algoritmos legais não ambíguos, ou nos operadores inteligentes de diagnóstico que processem anamneses clínicas.

Daí que nesse mundo haverá pouco trabalho humano – ou muito sofisticado ou quase sem valor – e pouquíssimos ricos. 

É uma situação tão explosiva que talvez nem aconteça. Ou já esteja acontecendo.

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