sábado, 4 de agosto de 2018

O desempenho de Bolsonaro na Globonews


Camilo De Oliveira Aggio

Jair Bolsonaro se saiu infinitamente pior na Globo News se comparado com sua performance no Roda Viva. Isso tem muito a ver, acredito, com o formato do programa. Começou conseguindo jogar bem o seu jogo de tergiversar, subverter o teor das perguntas e ditar o rumo que sempre melhor lhe favorece.

O problema é que, não apenas os jornalistas estavam mais bem preparados, como o primeiro bloco do programa é uma maratona infinita, sem intervalo, sem respiração. E aí os jornalistas e as jornalistas massacraram Bolsonaro no que ele tem, não de pior, mas de mais patético: seu completo analfabetismo em matéria de economia.

Apanhou feito mala velha, perdeu a postura, não foi bem sucedido em gerar as cacofonias que costuma gerar, aparentou nervosismo, balbuciou, desfilou um infinito de asneiras, mas, enfim, sobreviveu e com uma ressalva importante.

Saiu-se bem apenas na discussão sobre a assimetria salarial entre gêneros. Respondendo a Miriam Leitão e Merval Pereira, disse que não interferiria de nenhuma forma nessas desigualdades que desfavorecem a mulher usando, tão e simplesmente, o princípio que Leitão mais usa nas suas críticas econômicas: o livre mercado. Respondeu à jornalista: “Isso é coisa do mercado. Não vou intervir”. Leitão, pega com as calças na mão, não teve o que responder, vítima das contradições de seu princípio.

Saiu-se melhor nos blocos seguintes que tocaram nos temas que costuma polemizar, desmentir, relativizar e sofismar: as pautas morais. Racismo, misoginia, estupro, políticas afirmativas, quilombola, índio. Cacofonizou como gosta. Não tanto quanto no Roda Viva, mas conseguiu.

No que diz respeito às suas posições sobre o regime militar, tirou coelho da cartola e fez seus seguidores soltarem rojões: ao responder às perguntas que já carregavam, embutidas, a defesa da existência de uma ditadura que ele nega ter existido, “recitou” editorial de Roberto Marinho defendendo o golpe de 1964 e perguntou aos jornalistas se o eterno patrão da Globo era um democrata ou ditador.

E isso me leva ao último ponto que já está rendendo polêmicas e indignações em sua rede, a meu ver, com razão. A mediadora fez o Ping Pong final, pediu que o candidato apresentasse sua última fala aos telespectadores e quando tudo parecia terminado, começou a reproduzir uma resposta editorial que ouvia em seu ponto na orelha.

Resposta à menção feita por Bolsonaro ao editorial de Marinho. Resposta que mencionava o mea culpa autoelogioso e autocomplacente de um editorial do Globo de 2013, reconhecendo a existência de uma ditadura e erro por tê-la apoiado, numa clara rivalização com o candidato.

E o programa terminou aí. Sem qualquer direito de réplica concedido ao candidato. Subtraiu dele o direito concedido a todos os outros candidatos: encerrar o programa com falas para eu eleitorado e enaltecendo seus princípios e propósitos.

Foi, no mínimo, de uma descortesia tenebrosa, o que, para a rede bolsonarista, não sem muita razão, clara evidência da parcialidade e indisposição da empresa com o candidato.

Se preparem para os vídeos de denúncia.

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