sábado, 5 de agosto de 2017

Quem é o fascista?

Cadu de Castro


O fascista é um sofredor. E sofre tão completamente por ser quem é: frustrado, recalcado, profundamente ignorante, cruel e hipócrita. Desumaniza o outro – objeto de sua violência – e banaliza o mal. Regojiza-se ao ver o sofrimento que desfere àqueles que não compartilham seus signos. O sofrimento alheio, daquele que vê como o Outro, é o conforto de sua alma pequena, mesquinha e envergonhada de si mesma.

O fascista nega a existência do outro. Deturpa o grito das minorias oprimidas, nomeando-o vitimismo. Evoca de forma corrompida a “democracia” e a “liberdade de expressão” – conceitos que ele verdadeiramente abomina – para garantir seu discurso de ódio e suas atitudes sectárias e vis. Quando criticado ou punido por suas manifestações segregatórias, hostis, opressivas, rapidamente se vitimiza. Confunde a reação do oprimido com a ação do opressor.

Para o fascista, democracia é o direito do outro de comungar com suas ideias e se manifestar a seu favor, caso contrário, deverá ser condenado ao silêncio, ao ostracismo, ao exílio, à morte.

Na última semana, tivemos a manifestação fartamente fascista de um homem que agrediu verbalmente e ameaçou fisicamente um comerciante ambulante, Mohamed Ali, refugiado sírio, na zona sul do Rio. A covardia é arma usual do fascista, que se aproveita da vítima em situação de vulnerabilidade.

Fala-se sobre o crescimento do fascismo no país e no mundo, por manifestações como estas terem se tornado frequentes nos últimos anos. Contudo, enxergo por outra perspectiva: não acredito que fascistas estejam avançando numericamente, mas apenas se revelando. Estes que ostentam discursos de ódio e atitudes sectárias e agressivas já existiam antes, mas estavam embiocados, acaçapados, ocultos na carapaça inviolável de seus privilégios e mergulhados nas próprias frustrações e recalques.
Todavia, as correntes conquistas de minorias – por intermédio de leis, programas sociais ou vitórias pessoais – têm invadido a zona de conforto e colocando em risco privilégios, bem como confrontado as frustrações e recalques de algumas pessoas, que reagem com violência, fúria, ódio. Estes são os fascistas.

São fascistas os que bradam por um golpe ou intervenção militar. Intrínsecos a esta reivindicação estão os desejos de prisões, tortura e morte daqueles que professam ideologias antagônicas ou distintas, ou que têm origem, cor, gênero, religião, etc. diversos do que é considerado hegemônico.

O fascista é um sofredor. E sofre tão completamente por ser quem é: frustrado, recalcado, profundamente ignorante, cruel e hipócrita. No entanto, seu sectarismo, ira e agressividade fazem outras pessoas sofrerem, especialmente os que não têm o hábito de degustar o ódio. Mas o fascista sofre, pois a primeira boca a sentir o amargor do fel é a de quem o destila.

Para saber mais:

Bobbio, Norberto. Do Fascismo À Democracia – Os Regimes , as Ideologias , os Personagens e as Culturas Políticas. Editora: Elsevier – Campus.

Paxton, Robert. Anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra.

Arendt, Hannah; Eichmman em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal. Tradução: José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras.

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