quinta-feira, 27 de julho de 2017

No Brasil, contrato é feito para se quebrar e palavra dada não é palavra empenhada

Fernando Horta

O Brasil tem um dos maiores índices de quebra de contratos do mundo. Não falo aqui das quebras de contratos comerciais ... aquelas que também entram nos índices, mas que são afeitas ao mundo econômico. Falo das pequenas quebras e das grandes.

No Brasil são comuns os "bolos" em amigos, os "furadores" de eventos e os "atrasos" de toda sorte. É cultural que no Brasil a palavra acertada é sempre algo menor frente a quaisquer outras situações. Toleramos professores que não marcam avaliações ou as mudam no meio do período de ensino, toleramos policiais que simplesmente mudam suas funções conforme a cara (e a cor) de quem está sendo abordado, toleramos todo tipo de ruptura com alguma (pífia) desculpa.

Isto vai crescendo culturalmente até juízes que não se importam em condenar negros por causa de pinho-sol e soltar brancos com 150 quilos de drogas e mais armas, por exemplo. Prender mãe com filho porque roubou comida e permitir senador tomar posse por liminar. A situação se torna insustentável quando um presidente da Câmara diz que não precisa ouvir o povo, quando o vice-presidente resolve não aumentar salários (de alguns) servidores. No DF, acordos sindicais são como promessas de criança. O governador não cumpre e pronto. Ninguém fala nada.

É a cultura da "quebra de contrato" que organiza toda a sociedade. Do pedreiro que larga o trabalho na metade à empreiteira que pede "aditivo" no valor para terminar a obra. Do juiz que solta doleiro e faz acordo para pagar a ele por "informação" e prende pessoas inocentes anos à fio ...

Do vice-presidente que usurpa o poder com a desculpa do "rombo" nas contas públicas e promove um muito maior para obter apoio ...

O Brasil é um país construído desta forma frouxa, em que ninguém se compromete com nada. Nem mesmo as autoridades ... de cima a baixo todos podem mudar os termos de um acordo de forma unilateral e o outro que se adapte.

Não importa se o outro é um filho que você não vai a uma apresentação porque tem que assistir um "jogo" ou se é uma eleição em que se jogam fora 54 milhões de votos. É o mesmo princípio, quebra de contrato. Nenhuma sociedade pode sobreviver assim.

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