segunda-feira, 20 de março de 2017

Outro jornalismo é possível e necessário

Luis Felipe Miguel

Nem chama a atenção que a Folha de S. Paulo dê uma reportagem - indigna da importância do evento - sobre o ato de Lula e Dilma na Paraíba e coloque um box, não no lado mas no meio da página, intitulado "Petista é réu em cinco ações, três na Lava Jato". É a prática corrente, há tempos. 

Não existe hipótese de Lula aparecer no jornal sem estar acompanhado deste tipo de informação. E é só com ele. Mais adiante, tem uma página para o regabofe de Temer com carne argentina, numa churrascaria de Brasília. Procurei em vão um "saiba mais" para situar quem é o protagonista da reportagem (o título poderia ser "Golpista põe em marcha projeto de eliminar direitos").

A perseguição a Lula é apenas um de muitos exemplos do viés da imprensa comercial brasileira. A reforma da previdência é outro. Da forma como as manifestações do dia 15 foram noticiadas à maneira pela qual o problema da previdência social é enquadrado, o propósito da cobertura é impedir um debate efetivo. (Hoje, aliás, também na Folha, há uma reportagem indescritível sobre a pressão popular sofrida pelos deputados favoráveis ao fim da aposentadoria, em que eles são apresentados como se fossem heróis da resistência.)

E tudo aquilo que mal aparece no noticiário? Podemos pensar nos escândalos envolvendo grão-tucanos, no helicóptero de Perrella, na lista de Furnas. Mas tem muito mais do que isso. A violência no campo, o trabalho escravo, as mortes causadas pela ilegalidade do aborto, a devastação ambiental do agronegócio, a dizimação das populações indígenas.... Tudo isso é constante no Brasil, mas não merece atenção da imprensa.

Não há dúvida de que o controle da informação é um dos problemas centrais da política brasileira. Temos uma imprensa muito ruim, muito unilateral e muito manipulativa. E estamos na dependência dela.

Sim, podemos denunciá-la, podemos buscar o outro lado das histórias, podemos criar nossas redes alternativas. Mas continuamos incapazes de disputar a agenda. Estamos sempre apenas denunciando e tentado reinterpretar.

Temos alguns bons sites de jornalismo investigativo, como a Pública e outros, mas eles não disputam a agenda cotidiana. E temos alguns portais de notícias "de esquerda", mas a esmagadora maioria de seu conteúdo é a reativa: refutar o que apareceu na mídia empresarial, denunciar seu viés. Para disputar a atenção nas redes, com frequência recorrem a graus variáveis de sensacionalismo e simplificação, o que os torna pouco confiáveis. Muitas vezes, o alinhamento ao petismo é tão gritante que o material parece mais propaganda do que jornalismo.

Não é disso que precisamos. Precisamos de um veículo de comunicação para disputar a agenda diária, que produza um material capaz de substituir a imprensa comercial. "Substituir" é a palavra-chave: não é complementar ou se contrapor, é ocupar o lugar. Para isso, deve buscar um patamar de excelência profissional, orientado por valores progressistas mas sem a missão de promover um partido político.

Como se viabiliza isso? Não sei. Certamente não será por meio de anúncios da JBS ou BRF. Mas acho que as organizações do campo popular deveriam priorizar esse projeto.

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