sexta-feira, 24 de março de 2017

O casarão em escombros

Luis Felipe Miguel

Nos últimos meses, tive várias vezes um sonho parecido, em que eu entrava num casarão em ruínas. Não sou versado em Freud, mas para mim está claro que esse casarão é o Brasil. Estamos vivendo nos escombros da ordem política que começamos a instituir com a Constituição de 1988.

Fui formado numa tradição marxista que garantia que a história estava ao nosso lado. Que "A história é um carro alegre/Cheio de um povo contente/Que atropela indiferente/Todo aquele que a negue", como na canção de Pablo Milanés e Chico Buarque de Hollanda. Eu achava que tinha superado essa concepção há tempos, mas, pelo tamanho da frustração e do pasmo que sinto diante do retrocesso que vivemos, percebo que ela nunca me abandonou. É difícil evitar o desânimo quando tudo realmente parece desabar, quando os mecanismos de produção da passividade e do conformismo se mostram tão eficientes, quando deixamos de lado o projeto de avançar e mesmo não recuar mais já parece um objetivo sem esperanças.

Sei que esse desânimo também é uma armadilha, uma maneira de nos manter congelados no momento atual, mas é difícil não se render a ele quando é tão gritante o descompasso entre o assalto a nossos direitos, a nossas conquistas, e a resposta que somos capazes de dar. A terceirização é o exemplo mais cabal. A classe trabalhadora vai mesmo assistir inerte à destruição da legislação que dava a ela um mínimo de garantias? Já não estava na hora de uma verdadeira greve geral?

Como me recuso a acreditar que alguém engula a defesa bizarra que é feita da terceirização - aquele burguês cínico, Guilherme Afif Domingos, disse que "agora todo operário será um empresário" -, julgo que impera um tipo de fatalismo. A ideia de que o mundo social é imposto sobre nós e nós não temos como agir sobre ele. Essa compreensão, que gera um círculo vicioso, pois produz uma inação que só reforça a crença fatalista, é sempre posta em marcha nos momentos em que a dominação social está despida de qualquer máscara e exposta em sua crueza. É a ideologia do feudalismo, do escravagismo e, não por acaso, dissemina-se sob o governo Temer.

Por isso, a fúria com que os donos do poder respondem a cada ato de resistência. Por isso, o cuidado da mídia em escondê-los. Para além de sua consequência direta, a resistência tem o efeito subversivo de mostrar que é possível resistir. É isso que, apesar de todo o desânimo, não podemos perder.

Gosto muito de uma tirinha da Mafalda, em que meu xará Felipe lê uma inscrição no pedestal de uma estátua, descrevendo o herói como “lutador incansável” – e pensa que não há mérito nisso, pois difícil mesmo é “estar cansado e continuar lutando”. Esse é o nosso momento, de combater em meio ao cansaço. Não porque a história esteja do nosso lado, mas porque a história está em aberto: somos nós, mulheres e homens, que a fazemos. Se nós abrirmos mão da luta, aí sim, a história estará do lado deles.

PS. Greve geral já!


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