sábado, 3 de dezembro de 2016

Esquerda não pode orbitar as forças do atraso

Luis Felipe Miguel 

Não consigo entender quem julga que a esquerda pode (ou mesmo deve) se incorporar às manifestações convocadas para amanhã. Qual é a aposta? Que nós vamos "ressignificar" essas manifestações do mesmo jeito que a direita "ressignificou" os protestos de junho de 2013? E como nós vamos fazer isso? A Rede Globo passou para o nosso lado e ninguém me contou?

Ao mesmo tempo, é profundamente equivocado afirmar que a esquerda que não compactua com as mobilizações de Vem Pra Rua, MBL e equivalentes é, por isso, "contra" o combate à corrupção. Temos que entender, antes, de que combate à corrupção se está falando. Existem bons motivos pelos quais uma posição à esquerda simplesmente não tem como buscar "pontes" com as mobilizações capitaneadas pelos conservadores.

A narrativa que a direita põe nas ruas está estruturada em quatro alicerces que fazem com que qualquer democrata tenha que se opor a ela:

(1) A ideia de que a vigência de determinados direitos é um empecilho à luta contra a corrupção. No limite, o instrumento ideal para a luta contra a corrupção é um Estado policial.

(2) A seletividade da indignação. Por mais que os coxinhas digam em enquetes que não confiam em nenhum político, em nenhum partido, os alvos são sempre o PT, os políticos que eventualmente se aliaram a ele e a esquerda. O horizonte é a criminalização da esquerda.

(3) O apagamento do restante da pauta política, de maneira que os graves ataques que hoje sofremos (PEC 55, abolição das garantias trabalhistas, entrega do pré-sal etc.) passam desapercebidos e quem quer que busque desafiar essa percepção monotemática é automaticamente desqualificado como "petralha", "esquerdopata" e favorável à corrupção.

(4) De maneira compatível com essa limitação de agenda, com essa seletividade e com esse desapreço pelos direitos, o discurso que emoldura a campanha contra a corrupção é nitidamente reacionário, tingido por fundamentalismos (religioso ou de mercado), alinhado à manutenção das hierarquias sociais. Se existem, na base que a direita mobiliza hoje, pessoas que não aderem integralmente a esse discurso, é necessário convencê-las ao rompimento com os outros três pilares. Caso contrário, continuarão orbitando as forças do atraso.

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