sábado, 12 de agosto de 2017

O protesto neonazista em Charlottesville é um trailer do Brasil sob Bolsonaro


Por Kiko Nogueira

 As cenas do desfile de neonazistas em Charlottesville, nos EUA, servem de alerta para os inocentes úteis e inúteis que acham que a barbárie ocorrida na Alemanha nunca mais se repetiria ou que essa hipótese era um reductio ad absurdum.

O governador da Virgínia, Terry McAuliffe, declarou neste sábado, dia 12, situação de emergência. O pedido foi feito para “ajudar o Estado a responder à violência”, escreveu nas redes sociais.

O protesto “Unir a Direita” reúne extremistas na cidade de 50 mil habitantes e foi convocado para contestar a decisão de remover a estátua do general Robert E. Lee de um parque.

Lee foi um confederado que lutou e na Guerra Civil americana pelo Sul, tentando impedir a abolição da escravatura. 

Eles são brancos, jovens, usam capacetes, seguram escudos e carregam a bandeira confederada e cartazes com suásticas, além de fazerem o “sig heil”. Houve confronto com antifascistas. No início da tarde, um carro avançou contra eles e feriu dezenas.

A polícia ordenou a evacuação, sob pena de prisão. Na noite anterior, os extremistas passearam com tochas gritando “Vidas Brancas Importam” (“White Lives Matter”) e “Fodam-se Bichas” (“Fuck You Faggots”), além de palavras de ordem contra judeus, negros e imigrantes.

As tochas são uma alusão à Ku Klux Klan, milícia fundada por ex-soldados sulistas que acabou virando especialista em linchamentos por décadas. Seu jornal se chamava, veja só, “Cidadão de Bem”.

Jason Kessler, organizador da manifestação, alegou em comunicado que o movimento quer defender a Primeira Emenda da Constituição, que protege a liberdade de expressão, e salvar os “grandes homens brancos que estão sendo difamados, caluniados e derrubados nos EUA”.

Donald Trump usou o Twitter, no qual costuma ser sempre direto e reto, para uma declaração vaga: “Devemos estar todos unidos e condenar tudo o que representa o ódio. Não há lugar para esse tipo de violência nos EUA. Vamos nos unir como um só”.

Trump teve o apoio dessa turma em sua campanha. Sem eles, Donald não seria eleito. E, sem ele mesmo, essa loucura não teria sido possível.

Nas comentários sobre esta notícia nos portais do Brasil, a maioria apoia os direitistas. E, de novo, citam o nome do político que os representa: Jair Bolsonaro.

Bolsonaro, como lembrou o filósofo Vladimir Safatle, é um arauto do nosso “fascismo ordinário”:

Primeiro, ele é um culto explícito da ordem baseada na violência de Estado e em práticas autoritárias de governo. Segundo, ele permite a circulação desimpedida do desprezo social por grupos vulneráveis e fragilizados. O ocupante desses grupos pode variar de acordo com situações históricas específicas. Já foram os judeus, mas podem também ser os homossexuais, os árabes, os índios, entre tantos outros. Por fim, ele procura constituir coesão social através de um uso paranoico do nacionalismo, da defesa da fronteira, do território e da identidade a eixo fundamental do embate político.

Os protestos desde 2013 ajudaram a tirar do armário um ódio nacional que estava relativamente represado. Se nos EUA ele é racial, aqui é classista.

A nossa classe média não tem mais receio de dizer que não gosta de pobre, preto ou nordestino. Por extensão, nem de petistas, comunistas, bolivarianos etc.

Na Paulista, tias de 80 anos carregavam numa boa cartazes onde se lia “por que não mataram todos em 64?” juntamente com camisetas com a estampa de Lula bêbado.

Nada mais natural que se agarrem a um sujeito que dá o peso de um “afro descendente” num quilombo em arrobas no clube A Hebraica. O mesmo que fala, num comício, que o Brasil é um país cristão e que minorias “têm que se curvar”.

Bolsonaro captura esse ressentimento da classe média que se sentiu “excluída” nos últimos anos. Chega de vagabundo do Bolsa Família, de mulheres, de os veados e lésbicas LGBT. Acabou a moleza dessa cambada de esquerdopatas. Agora é a nossa vez.

Charlottesville é aqui. Pode esperar.

Charlottesville

Um comentário :

  1. A exemplo do Collor, Bolsonaro é uma grande farsa. Nada do que ele diz que fará, fará...caso seja eleito.
    É um erro ficar dando manchete a esse sujeito mal caráter. Só faz dar maior visibilidade à sua pessoa. Num cenário político como o nosso, onde temos pouquíssimas opções de liderança, suas idéias fascistas vão acordando os imbecis de plantão.

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