sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A nova música de Chico Buarque e a Síndrome da Busca do Pêlo em Ovo


Luis Felipe Miguel

Não ouvi a nova música de Chico Buarque. Confesso - sei que para horror de muita gente - que faz tempo que a obra dele não me estimula. O último álbum que realmente curti foi o de capa vermelha, de 1984, aquele que tem "Pelas tabelas". Depois, em geral, acho desinteressante. Chico foi virando mais romancista do que compositor e, francamente, a troca não valeu a pena (é, também não gosto dos livros dele).

Não que ele precise produzir qualquer coisa mais. O que fez já é mais do que suficiente para colocá-lo no panteão dos nossos grandes compositores. Bastaria ter composto "Construção". Ou "Samba e amor". Ou "Apesar de você". Além disso, continua sendo uma pessoa de integridade inatacável e com um compromisso firme com as boas causas. Não precisa de mais nada.

Tampouco simpatizo com o clichê de que Chico é "o perfeito intérprete da alma feminina". Na verdade, já não simpatizo com a expressão "alma feminina". Acho que as personas femininas em suas canções são reflexos de uma visão masculina, mesmo que sensível, sobre as mulheres. Mesmo em obras tão bonitas quanto, por exemplo, "Com açúcar, com afeto". Raras vezes ele parece escapar disso (e cito "A violeira" como principal exceção). Não há nenhum demérito aqui também - afinal, todos estamos presos em nossas perspectivas sociais e é bom que a gente tenha que buscar as compositoras mulheres para ver o ponto de vista delas sobre o mundo. Só registro que não embarco nessa canoa.

Não ouvi a nova música de Chico, mas não consegui ficar imune à polêmica sobre o caráter "datado" de sua letra. Creio que essa polêmica, em si irrelevante, revela muito de um comportamento difundido no âmbito da esquerda identitária virtual e que poderia atender pela sigla SBPO - Síndrome da Busca do Pêlo em Ovo ("pêlo" com chapeuzinho, sim, em memória de todos os acentos diferenciais dizimados pela reforma ortográfica).

Primeiro, há uma confusão entre poeta e eu-poético, uma ignorância do fato básico de que Chico é um fingidor. Confusão e ignorância meio marotas, na verdade. As pessoas sabem que o cidadão Francisco Buarque de Hollanda não tem cônjuge e filhos para largar, uma vez que seu estado civil é "divorciado" e que suas filhas são todas adultas. Mas acusam o letrista Chico Buarque de estar incentivando o abandono de infantes por ter escrito um verso em primeira pessoa em que diz "largo mulher e filhos".

Mas não é preciso ir tão longe. A denúncia entende "largo mulher e filhos" ao pé da letra: jogar a prole na sarjeta, recusar o pagamento de pensão, romper os laços afetivos. No entanto, a linguagem corrente entende que Fulano "largou mulher e filhos" quando se separou e saiu de casa. Pode haver abandono financeiro e emocional - ou não. Com "largo mulher e filhos", a personagem de Chico apenas indicava a disposição de romper o laço conjugal e ficar com a "outra". Tudo isso "de joelhos", como diz o verso seguinte, que não deixa dúvida quanto ao caráter retórico do discurso. Um ortopedista atingido por SBPO poderia impugnar também esse verso, pelas lesões à patela que o excesso de genuflexão potencialmente causaria.

O ponto central da desleitura do verso de Chico é o literalismo exacerbado. Esse é um problema que está ganhando dimensões epidêmicas - basta acompanhar qualquer discussão nas redes sociais. Tudo é lido literalmente. Metáforas são tomadas como exemplos; elipses, mesmo que banais, são vistas como graves omissões; usar ironia é ter a certeza de não ser compreendido.

A leitura literal é uma leitura obtusa. Mas vai ser apresentada como a leitura mais esperta, aquela que vê o que está diante de nossos olhos e nós não vemos. Meu exemplo preferido é a expressão "risco de vida", vetada pelos literalistas porque, afinal, o risco é a morte. Mostram-se espertos rechaçando uma expressão corrente e carente de ambiguidade, pela incapacidade de entender o sentido para além do palavra a palavra. (Faz pouco tempo, uma coluna de Sérgio Rodrigues zombando do ridículo dessa posição mudou o jogo; em reação a ela, emissoras como a Rede Globo passaram a vetar a expressão bizarra "risco de morte" que os fetichistas do pé da letra, como diz Rodrigues, tentavam emplacar.)
Mas a literalidade, no caso do SBPO, não é apenas obtusa. É um estratagema no jogo de distinção social invertido que é próprio das batalhas identitárias.

Depois disso tudo, o que fica? Ensinamos a Chico Buarque que os pais não devem abandonar os filhos? Só o literalismo obtuso julga que isso seria necessário. Fica o triunfo de quem produziu o pêlo no ovo, "lacrou" e provou sua superioridade moral. A política identitária é levada assim a seu zênite narcísico.

De minha parte, prefiro os ovos sem pêlo, seja para fazer uma omelete, seja para homenagear um prefeito.

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