quinta-feira, 6 de julho de 2017

Vicente, o brasileiro que reclamava

Humberto Capellari 

Sempre ele. Vicente. Dia de fila em banco era dia de escutar as reclamações de Vicente.

- Todo dia cinco é essa praga!
- Êita, sempre essa fila que não anda!
- Putaquepariu, olha quanta fatura esse velho vai pagar! Agora fudeu!
- Olha a lerdeza desse caixa!
- Banco lucra bilhões e não coloca mais gente pra atender!
- Bota caixa aí, gerente puxa-saco!

Embora tivesse razão, Vicente falava e reclamava até não poder mais e, com isso, o que era ruim pras pessoas - a demora na fila - se tornava pior. Fila e reclamação. Afinal de contas, as reclamações de Vicente resultavam em nada mais que nada. Não ajudava em nada.

E Vicente fechava conta num banco e abria noutro, pra ver se mudava alguma coisa. Desnecessário lembrar que o mercado bancário brasileiro é concentrado e, portanto, são poucas opções.

Certo dia, Vicente amargava sua filazinha ( isso é modo de dizer: a fila estava enooorme ) e reclamava, como sempre:

- Esse banco lucrou outros bilhões e não melhora o atendimento nem a pau!
- Tão ricos, e a gente aqui na fila que se foda!
- Só sabem lucrar, mas oferecer serviços de qualidade, jamais!
- Banco só ganha no Brasil! A gente é que perde!
- Dono de banco anda de jatinho e a gente aqui na fila.

De repente, Vicente notou um burburinho, vindo da porta de entrada da agência. O dono do banco estava visitando justamente aquela agência, provavelmente uma ação promocional ou de marketing. Dezenas de pessoas em volta. Flashes. Um jornalista de uma revista de economia fazia perguntas ao figurão:

- Quais os planos para o próximo ano?
- Elevar os lucros em 14% é nossa meta.

Vicente escutou aquilo e sentiu seu sangue ferver. "Lucros!!"

Só sabem lucrar. Os bancos não perdem dinheiro. Os acionistas sorriem de orelha a orelha. E a gente, amargando fila...

Vicente abandonou seu lugar na fila e foi em direção do presidente, de forma resoluta. Assustou algumas pessoas.

Chegou diante do figurão e tascou-lhe o braço...

...tascou-lhe o braço em volta do pescoço:

- Posso tirar uma selfie com o senhor? É uma honra sair numa foto com um gestor tão competente como o senhor. Esse banco é líder no mercado, e não é à toa.

FIM

Nenhum comentário :

Postar um comentário

Web Analytics