quarta-feira, 5 de julho de 2017

Sobre a mentira, a verdade e a “verdade verdadeira”

Carlos D'Incao
(Certa vez assisti um vídeo de Leandro Karnal afirmando o quanto a corrupção e a imoralidade do mundo político são frutos de nossas pequenas ações do cotidiano. A ele e a outros “pensadores” badalados do momento dedico esse texto…)
Para alguns pensadores a humanidade ainda paira no universo da terrível dúvida se algo é uma mentira ou uma verdade. A mentira comumente é vista como o mal a ser evitado, enquanto a verdade é considerada o bem a ser conquistado. Nesse sistema, notadamente maniqueísta, é impossível não denunciar o seu claro reducionismo.

Um adulto sabe que muitas vezes contar uma mentira pode evitar uma tragédia ou um mal-entendido. Por outro lado, uma criança inocente, que conta sempre a verdade, pode criar grandes constrangimentos e distorções irreversíveis da realidade, dependendo do contexto e para quem ela dirige suas verdades.

Com o passar dos anos percebemos que, de alguma forma, acabamos desembocando em um mundo adulto repleto de mentiras que contamos continuamente e naturalmente para quase todo o mundo e em quase todos os ambientes, até os mais íntimos…

A mentira acaba, por fim, constituindo uma parte de nossa essência muito maior do que gostaríamos de admitir… Ela começa no nosso cotidiano. Entra no “bom dia!” que retribuímos em um péssimo dia, no “estou bem, obrigado!”, quando o nosso mundo está desmoronando e no “achei interessante”, quando um colega emite uma opinião que julgamos estúpida…

Posteriormente a encontramos em nossas vidas íntimas quando aconselhamos os nossos filhos a não fazerem o que fazemos, quando deturpamos exemplos para darmos lições de moral (que não seguimos) e, por fim, nos infindáveis momentos que racionalizamos nossos erros como consequências de circunstâncias que supostamente nos levaram a ações equivocadas.

Sob um ponto de vista moralista, facilmente poderíamos concluir que vivemos em uma sociedade irremediavelmente degenerada e envenenada pela mentira. E disso poderíamos chegar a concluir que todos os males do mundo - da corrupção política à crise econômica global - têm a sua origem na imoralidade de todos nós, que não conseguimos viver sem mentir...

Porém, a falácia do moralismo não se sustenta perante a realidade objetiva e o seu sepultamento é muito mais obra da sátira do que da filosofia, como veremos…

Obviamente que a visão de mundo pós-moderna, que relativiza a existência da verdade, deve ser prontamente descartada. Ela é muito menos uma forma de pensamento e muito mais uma simples fraseologia vazia emitida por ébrios arrogantes que vegetam em ambientes pseudo intelectuais que se autodenominam “acadêmicos”.

A verdade existe. Isso é um fato incontestável.

Um marido observa sua esposa colocar - com enorme sacrifício - uma calça jeans. Após 10 minutos de uma homérica luta a calça milagrosamente é vestida. Ela, suada e sufocada, olha para o marido e lhe pergunta: “Você acha que eu engordei? ”

A verdade é que sim, ela engordou. Isso é um fato verificável com os olhos, com a balança e com o seu recente sacrifício em vestir uma calça que antes lhe servia perfeitamente.

Qual é a resposta do marido? “Não! Nem um pouco…” O marido mentiu? Sim. Mas qual foi o significado dessa mentira? Na verdade o marido quis dizer: “Você engordou, mas eu não me importo… você continua bonita para mim. ”

É aí que chegamos na “verdade verdadeira”.

Caso o marido dissesse a verdade, “Meu bem… você obviamente está mais gorda…” ele sabe que teria uma grande possibilidade de gerar uma distorção do que ele pensa de fato… A verdade nesse caso geraria um conceito mentiroso, ou a “pura mentira”.

Assim sendo, podemos concluir que grande parte do que chamamos de “mentira” é na realidade uma ferramenta para alcançarmos a “verdade verdadeira” do que se passa em nossas vidas e do que realmente pensamos conceitualmente de algo ou alguém.

Exemplos não nos faltariam…

Pergunta: “Você gostou do meu penteado?"

Verdade: “Achei pior do que o de antes…”

Resposta: “Ficou ótimo!”

Verdade verdadeira: “Tanto faz, você continua a mesma pessoa… Vamos logo senão a gente se atrasa.”

Pergunta: “Você já ficou com aquela garota?"

Verdade: “Várias vezes e em diversas baladas…”

Resposta: “Nunca! Deus me livre…”

Verdade verdadeira: “Eu já fiquei com ela, mas ela não significou nada pra mim…”

Pergunta: “Você acha aquela garota mais bonita do que eu?”

Verdade: “Claro que sim, ela é mais bonita que você em absolutamente todos os critérios.”

Resposta: “Não gosto de mulher magrela e metida…”

Verdade verdadeira: “Eu não me importo com o fato de ela ser mais bonita, eu gosto de você…”

Não restam dúvidas de que a “verdade verdadeira” é aquilo que gostaríamos de saber, mas ela é quase sempre intangível… Ela nos lembra de um fato incômodo, qual seja, se quisermos viver bem com os outros, precisamos confiar e admitir que nem sempre nos vão contar a verdade…

Aquele que busca obsessivamente a “verdade verdadeira” em geral encontra, para o seu próprio prejuízo, o seu oposto: a verdade. E a verdade muitas vezes é, na realidade, a “pura mentira”.

Mentimos em vários momentos porque essa é a forma mais eficiente e rápida de se dizer a “verdade verdadeira”. E queremos dizer a “verdade verdadeira” porque nos importamos com os outros. Contar a verdade para alguém é, em muitas ocasiões, um verdadeiro exercício de crueldade e mentira… Por vezes uma ofensa maldosa… Não raro, uma tortura…

Mais: qualquer psiquiatra consegue diagnosticar a demência mental de um adulto através de sua incapacidade de mentir. Na realidade, quem só fala a verdade ou é demente, ou é estúpido, ou é maldoso.

Assim, quando Leandro Karnal afirma que foram as nossas mentiras, que contamos no dia a dia, as responsáveis pela crise política que vivemos, tenta apenas manipular as mentes fracas que caem no conto do moralismo barato.

Sim. Leandro Karnal disse uma verdade: “Nós mentimos.” E disso concluiu que merecemos as desgraças que hoje atingem, em especial, os trabalhadores mais humildes… Assim, foi com a verdade que ele chegou na “pura mentira”.

E a “verdade verdadeira” ele não disse: “Eu, Leandro Karnal, sou um pensador reacionário e oportunista com um verniz de pensador progressista. O que eu faço é ganhar fortunas em palestras dizendo bobagens do senso-comum enquanto entro em contato com os mais perversos setores e personagens do país que vão do jornal O Estado de São Paulo ao juiz Sérgio Moro”.

No fim, devemos ser sempre francos e falar sempre a “verdade verdadeira”, sem peso na consciência. Ninguém é santo. Mentimos e erramos no nosso dia a dia, como qualquer ser-humano, de qualquer parte do mundo. E isso não tem nada a ver com a corrupção política, a crise econômica e com o golpe que a direita lança hoje contra a classe trabalhadora.

Essas questões fazem parte de um outro mundo, onde habitam outras mentiras, verdades e “verdades verdadeiras”. Um mundo onde Leandro Karnal é apenas mais uma peça da perversa ideologia que tenta culpar os milhões de pobres por uma crise criada por alguns poucos bilionários.

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