terça-feira, 4 de julho de 2017

O jornalismo corporativo perdeu sua finalidade social e se tornou uma paródia de si mesmo

O Jornalismo é um cadáver "investigativo" que nos sorri

Um jornalista investigativo ficaria de cabelos em pé ao ver a lista de
 patrocinadores e apoiadores da Abraji - Did you follow the money?


Lá pelos anos 1990, Oliviero Toscani lançou o livro “A Publicidade é um Cadáver que Nos Sorri” sobre a inutilidade social da Publicidade que não mais vendia produtos, mas estilos de vida mentirosos. Propunha um modelo de Publicidade com função social, assim como o Jornalismo. Porém, o Jornalismo virou corporativo e transformou-se no próprio espelho da Publicidade - assim como grifes, marcas e logos promovem produtos, o próprio Jornalismo passou a promover a si próprio por meio da grife do “investigativo”. Por isso, foi sintomático o 12º. Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, realizado na Universidade Anhembi Morumbi/SP, promover o procurador-geral Rodrigo Janot como estrela máxima e os “bastidores das delações da JBS e Lava Jato” como o “case” principal de um suposto jornalismo investigativo que terceirizou a atividade jornalística. Para a Abraji, jornalismo investigativo é “checar informações” de vazamentos que sempre selecionam seus jornalistas “investigativos” favoritos. Enquanto isso, Martin Baron (editor retratado no filme “Spotlight”) deu o verniz investigativo necessário para jornalistas que confundem investigação com checagem de vazamentos.
Furos e vazamentos

Orgulhosamente, o site da Abraji informava que o prato principal do evento seriam “mesas com os bastidores da revelação da JBS e outros furos da Lava Jato”. “Furos” como, por exemplo, o mais recente do colunista Lauro Jardim de O Globo, sob a permissão da alta cúpula do grupo dos irmãos Marinho. “Furo” que se confunde com vazamento da PGR para um único veículo de imprensa, sob as bênçãos dos interesses econômicos dos patrões.

A presença bombástica no evento da própria fonte dos supostos “furos” é tão surreal como seria se o misterioso informante conhecido pelo codinome “Garganta Profunda” (que deu informações para o Washington Post, fazendo disparar a crise política e o impeachment de Nixon nos EUA) fosse a principal atração em um congresso de jornalistas nos anos 1970.

 “Furo” e “investigação” são grifes dessa espécie de autoparódia no qual o subsistema do Jornalismo simula utilidade e finalidade – “informar”.

O campo do jornalismo corporativo parece ter consciência disso e tenta manter as aparências. O texto do site da Abraji que anunciava orgulhosamente a atração principal do Congresso, gastou cinco parágrafos (quase metade da matéria) justificando que o “furo” da delação da JBS envolveu “constantes checagens”, “consultando documentos”, “verificando informações”, tudo para “confirmar as informações que recebia”.

Mas também é sintomático que o solerte repórter “investigativo” não fez a pergunta básica: por que vazar? Qual o interesse de quem está vazando? Por que essas informações chegam até mim? Simplesmente os vazamentos pautam o noticiário e tudo o que a “investigação” faz é “confirmar informações”. Parece que o destemido jornalismo investigativo dessas plagas esquece o preceito básico dito por bons professores de jornalismo: “follow the money”, “siga o dinheiro” – descubra o interesse daquele que te oferece informações.

Para a Abraji jornalismo investigativo é... “checar informações”.

“Garganta Profunda” foi a congressos jornalísticos?

Se no passado heroico do Jornalismo, as fontes eram desconfiadas, resistentes, misteriosas, obrigando repórteres irem à campo para encontrá-las e conquistá-las a duras penas, hoje tudo é mais fácil. As fontes de vazamentos mostram-se, solicitamente correm para congressos jornalísticos e viram atrações principais para profissionais e estudantes que um dia pensam em se tornar também “investigativos”.

O jornalismo corporativo perde sua finalidade social para se tornar uma paródia de um jornalismo agora imortalizado pelo cinema hollywoodiano.

Mais uma vez, também é sintomático a presença no Congresso do jornalista Martin Baron, editor-chefe do Washington Post que coordenou a equipe Spotlight – a mesma do filme vencedor do Oscar. Vem para reforçar a mitologia midiática de um jornalismo autofágico: consome a si mesmo – devora a própria memória de uma época heroica que não mais existe e que se tornou um clichê fílmico, revivido como farsa.

 O gênio maligno dos sistemas transformou o jornalismo corporativo em um morto vivo que simula a função de informar.

Assim como no subsistema Político, no qual o Poder migrou do locus do Legislativo, Executivo e Judiciário para o sistema global financeiro-algorítmico (o sistema daqueles logos estampados no banner ao lado do sorridente Rodrigo Janot), no sistema do Jornalismo a notícia desapareceu com a terceirização das fontes – a transformações das redações em assessorias de imprensa de ministérios públicos.

Juntos criaram o sistema judicial-midiático, cego ao mundo exterior, auto referencial e tautológico. Criam cortinas de fumaça de escândalos e crises políticas. Enquanto isso, fora da vista das massas fascinadas com o show dos vazamentos da delações, denúncias e moralização, vão passando todas as reformas exigidas pelo Anarcocapitalismo da banca financeira global que mandarão às favas direitos sociais em um "brave new world".

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