sábado, 8 de julho de 2017

Lula e a arte do possível


As reações à fala de Lula à rádio paraibana mostram um pouco da miséria da esquerda brasileira.

Há quem opta pela negação, sugerindo que tudo não passa de uma mentira do Valor (mas está no Youtube, basta procurar "Lula dá entrevista à rádio Arapuan, da Paraíba" e assistir a partir de 25:25).

Há quem acuse os críticos de "dividir a esquerda". Como se a união exigisse a ausência de debate. Como se o "deslize" de Lula fosse necessariamente só um deslize, não um recuo na pauta central que pode e deve promover a união das esquerdas no Brasil, que é o desfazimento do golpe. Mas isso é típico deste discurso, que mobiliza a acusação de "dividir a esquerda" contra quem ousa criticar o líder e, enquanto isso, bate à vontade em companheiros com outras posições. Como se a união da esquerda significasse, na prática, a adesão cega e automática às posições de Lula.

O eixo principal, porém, é o possibilismo raso. A velha máxima conservadora "a política é a arte do possível" é assumida acriticamente, sem se questionar como se produz, em cada situação histórica, este "possível" e sem lembrar que a tarefa da esquerda sempre foi estender os seus limites.

Como diz Gramsci, o político “é um criador, um suscitador; mas não cria do nada, nem se move no vazio túrbido dos seus desejos e sonhos. Baseia-se na realidade fatual”. Ou seja, é necessário evitar o voluntarismo, que nega a realidade, mas também o possibilismo estreito, que aceita como imutáveis os limites postos à ação política. O realismo político é dinâmico e capaz de abarcar as energias transformadoras, latentes no mundo social, e a vontade atuante de mobilizá-las.

O possibilismo que aprisiona boa parte da esquerda brasileira leva a uma redução brutal do horizonte de expectativas. Uma vez que há uma correlação de forças favorável aos grupos conservadores, a opção é entre o pouco e o nada. Ou melhor, depois do golpe, nem mais isso. As condições pioraram e sobrou apenas o pouquíssimo, como alternativa ao menos que nada.

O argumento é: se Lula for eleito, vai ter que negociar com um Congresso muito conservador; logo, não terá margem para adotar políticas redistributivas e democratizantes. A correlação de forças é percebida sobretudo como aquela presente nas instituições políticas formais.

Em suma, o que se projeta é uma reedição, em condições aviltadas, do lulismo original. O golpe teria mostrado os limites ainda mais estreitos que as classes dominantes impõem ao jogo político e cabe a nós nos submetermos a eles.

O golpe no entanto, muda o horizonte do próprio arranjo lulista. Ele foi, originalmente, um projeto de acomodação de interesses que visava promover melhorias na condição de vida dos mais vulneráveis e, a partir daí, permitia sonhar com avanços maiores. Hoje, seu teto está abaixo do que era o piso de antes. O que ele projeta é uma acomodação de longo prazo com uma ordem ainda mais iníqua, abrindo mão da esperança de enfrentá-la.

É claro que a correlação de forças é desfavorável. Mas esse cenário trabalha com a redução do jogo político aos espaços institucionais. Há a presidência, há o Congresso reacionário, há o Judiciário inconfiável. Estamos entre a triste realidade da maioria conservadora e as fantasias vãs da eleição de uma grande bancada de esquerda. Contra isso, é necessário entender que, qualquer que seja o governo eleito, mas sobretudo se ele tiver algum compromisso com o campo popular, será preciso manter a pressão sobre ele. A desmobilização, que o lulismo entregou como parte de seu acordo com as classes dominantes, só nos fragiliza.

Semana passada, conversando com Andrea Caldas, observávamos que, ao adotar em grande medida a postura de poupar os governos "amigos "do PT, o campo popular permitiu que a pressão sobre eles viesse quase que somente da direita. Creio que o mesmo vale em relação ao candidato Lula. Ele é o favorito às eleições e sofre enormes pressões para oferecer acenos às elites, como fez na entrevista à Arapuan. Cabe a nós demonstrar que não aceitamos isso e que queremos tê-lo, sim, do nosso lado, mas como uma liderança importante no combate sem tréguas aos retrocessos. Lutar é a única "promessa" que Lula precisava ter feito.


Ainda a propósito da fala do Lula e do que ela provocou, sobretudo de justificativas quanto ao pragmatismo e à realidade objetiva, queria dizer o seguinte: lideranças têm a responsabilidade de apontar caminhos. Se esta liderança, a única (até o momento) viável no campo da esquerda, se rende ao que parece inelutável, não temos qualquer esperança. Nem deveríamos, considerando que este sempre foi o comportamento do Lula desde que assumiu o poder. Mas reitero o que escrevi num longuíssimo post a respeito disso: nunca tive ilusões quanto ao Lula, salvo em 89, mas o mínimo, O MÍNIMO que se pode esperar de alguém que deseje respeitar a democracia e o direito dos trabalhadores é a promessa de reverter esse quadro. E ANIMAR as pessoas a lutar por isso. Não a se render à fatalidade.

Luis Felipe Miguel

Concordo plenamente com o que diz Sylvia Moretzsohn.

E acrescento aqui o comentário de Renata Lins à postagem:

"Acrescentaria só o seguinte: tem muita gente por aí argumentando que ele não tem o poder de reverter o quadro, que isso tem que passar pelo congresso etc. Eu diria que, se ele tiver alguma intenção de tentar reverter o quadro, é necessário que construa discurso para isso desde já. conciliação antes da hora a gente já viu e já cansou de ver. a resultante é sempre mais à direita que a conciliação inicial. Deu."

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