sábado, 8 de julho de 2017

Esquerda quer Lênin no lugar de Lula


Fernando Horta

Sei que estamos todos ávidos por mudanças, mas para uma parte da esquerda apenas Lênin seria bom o suficiente.

Digo Lênin e não o Vladimir Ilittch Ulianov. Lênin o mito, não o personagem histórico. 

O homem Vladimir Ulianov seria taxado de sectário por se afastar de Plekhanov e Martov por discordâncias políticas, mas também por seu imenso ego. O Ulianov seria criticado pela indecisão em julho, quando desautorizou os bolcheviques a gerenciarem ou se unirem aos revoltosos, para logo após perceber o tamanho dos protestos e ele mesmo se desdizer. O Ulianov seria criticado por não dar mais apoio a Trotsky, por incitar o "vandalismo" e até por ter fugido da Rússia disfarçado quando bolcheviques eram presos.

Lênin, o mito, seria perfeito. Inquebrantável discurso, sempre nas mesmas teclas, coragem e arrojo sem iguais. Um líder de massas assentado no marxismo revolucionário. Um visionário da revolução.

Sinto dizer que o mito nunca existiu.

Hoje, vejo marxistas defenderem a necessidade do "discurso" antes da avaliação material da realidade politica e econômica. A esquerda nunca, na história brasileira, fez número de cadeiras para governar sozinha. A realidade brasileira é - e sempre foi - a conciliação com setores da classe média progressista. Mas há quem ache que Lula deve servir de "animador de torcida", mais de um ano antes do pleito. 

A regra das eleições é se proteger dos ataques antes de ter tempo regimental em televisão para se defender deles. Mas, ávidos por heróis, estamos querendo um Lula que saia vociferando planos de governo. Se fragilizando aos ataques e discursos da oposição e sua máquina midiática.

O discurso "machão de esquerda", que fala que vai reverter tudo, prender Temer, o STF e colocar as "coisas no seu devido lugar" casa muito bem para quem tem cerca de 10% do eleitorado, e está na posição de "alpinista revolucionário". Como Lênin estava no início de 1917, aliás. A estes vale dizerem qualquer coisa, não há real compromisso. O que colar, colou.

Quem tem mais de 40%, não. E se chegou a 40% é porque não precisa mais vociferar para a "torcida".

O momento é de resguardo, o momento é de cuidado e de tentar obter apoio de setores médios progressistas para aumentar a distância e evitar um segundo turno.

Deixemos Lênin, o mito, para comemorarmos em outubro deste ano.

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