quinta-feira, 13 de julho de 2017

Como se perpetua a dominação?


Luis Felipe Miguel 

O grande mistério no estudo das sociedades humanas é como se perpetua a dominação. Etienne de La Boétie já questionava, no século XVI: por que a maioria serve à minoria, se para eliminar esse estado de coisas ela nem precisava fazer nada? Bastava parar de obedecer?

Uma parte da resposta está na repressão. Os Estados contemporâneos costumam ser hábeis em mascarar a violência que funda sua ordem e mesmo na literatura crítica é comum que ela seja colocada em plano secundário em relação ao "consentimento" que fundaria a reprodução do mundo social. A produção do consentimento dos dominados, porém, não é estranha à vivência da repressão, em suas múltiplas expressões. O mascaramento da violência, afinal, é também um efeito da perspectiva dos privilegiados, cujos encontros com o aparato repressivo do Estado costumam ser muito eventuais e que em geral não vivenciam a hierarquia opressiva nos locais de trabalho.

Outra parte, a meu ver, está na naturalização do mundo social existente. As injustiças são apresentadas como sendo parte da realidade tal como ela é, sempre foi e nunca vai deixar de ser. Alguns têm tanto, outros não têm nada. Os fortes esmagam os fracos. Eu trabalho por um salário de fome para enriquecer meu patrão. A mulher cuida da casa e dos filhos para o homem. E assim por diante. Posso até achar ruim, mas sei que é inútil tentar mudar.

O mundo existente trabalha para limitar nossos horizontes, num processo que é ativamente alimentado pelos grupos dominantes. O debate (na verdade, um não-debate, uma propaganda) sobre a extinção dos direitos trabalhistas é um exemplo. As medidas de desproteção aos empregados são defendidas como forma de gerar novos postos de trabalho, o que só ocorre favorecendo e agradando os patrões. Mas ninguém coloca em questão o porquê disso: por que esses poucos decidem a vida de todos os outros e a vida da sociedade em geral. Por que o lucro é sacrossanto. Por que a coletividade não pode impor regras que beneficiem as maiorias. Por que os frutos do trabalho não são apropriados por quem os produziu.

Para mudar o mundo é preciso combater essa percepção. É preciso desnaturalizar a ordem social, revelá-la como o que de fato ela é: o resultado de processos históricos, de conflitos, sempre em aberto. É preciso também que os dominados se organizem para resistir à repressão. No Brasil, estamos bem atrasados em ambas as frentes.

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