segunda-feira, 12 de junho de 2017

Os "Tatuadores"

Humberto Capellari 

De repente, naquela cidade, começaram a aparecer pessoas com toscas tatuagens em suas testas. Vídeos foram se disseminando.
Nesses vídeos, as sessões de tatuagens.

Dois indivíduos mascarados conversavam com suas vítimas:
— E aí, qual vai ser a frase?
— "Sou puta"!
— Então vai ser essa mesmo.

Noutra gravação:
— Escreve o quê aí?
— "Ladrão"!
— OK.

Dependente químico vítima d'Os Tatuadores

Em comum, as vítimas dos tatuadores tinham o fato de serem párias da sociedade: ladrõezinhos pé-de-chinelo, prostitutas. Marcados para sempre, para que não houvesse dúvidas sobre seu lugar na sociedade.

— Olha aí, Clarice!
— O quê, Armando?
— Tá aqui no jornal. Os "tatuadores" marcaram mais um. Adoro eles. Fazem o que a policia tinha que fazer. Bandido tem que se ferrar mesmo.
— Ah, não sei não, Mando...
— Como assim, Clá?
— Outro dia saiu que um dos tatuados nem era bandido.
— Se foi tatuado, boa coisa não era.
— A moto era dele mesmo!
— Sei não. Se tatuaram nele, alguma coisa ele devia. Se erraram no lance da moto, acertaram de outra forma. Esses lixos sempre têm alguma coisa pra esconder.
— Credo, Mando...
— Ihh, virou petralha, é?
— Pára, Mando!
— O fato é que o cidadão de bem precisa de mais gente como esses tatuadores! A bandidagem tá solta!
— Não gosto nada desses caras, desses "tatuadores". Quem serão eles, por baixo daquelas máscaras?
— Heróis modestos, isso sim!

( ... )

DING—DONG!

Clarice não atende a porta. Foi ao supermercado.

— Pois não?
— É o senhor Armando?
— Sou eu. Quem é?
— Entrega.
Ele abre a porta.
— Entrega de quem?

Um pano com clorofórmio responde à pergunta de Armando.
Ele acorda noutro lugar, amarrado a uma cadeira.

— Q—q—quem? O quê?
— E aí, Armandão?
— Armando, tudo certo aí, mano?
— Quem são vocês?
— Somos celebridades.
— É. Famosos.

Armando olha em volta. Parece uma espécie de porão de filme americano.

De repente, ele gela.

Ele reconhece alguns instrumentos dispostos numa bancada.
Instrumentos de tatuagem.

— O que vocês querem comigo?
— Você foi sorteado.
— É. Sorteado.
— E premiado.
— P—premiado? Como assim?
— Vai ganhar uma tatuagem grátis.
— Uma não. Várias.
— T—tatuagem? P—p—por quê?

Um dos dois anfitriões começa a explicar:

— Nós prestamos atenção em você. Descobrimos seu "hobby".
— "Hobby"?
— É.
— Meus times de botão?
— HAHAHAHAHAHA! Você é um piadista, Armando.
— Meu hobby são times de botão.
— Que você usa como fachada para se aproximar de jovens, não?
— Q—q—quê?
— Sabemos de tudo, Armando.
— É. Aqueles vídeos com as...como vocês as chamam?
— As "novinhas". E os "novinhos" também né Armando?
— Mas, c—c—como sabem?
— Sua mulher sabe, Armando?
— Desse seu hobby?
— Deixem a Clarice fora disso.
— Ela é uma boa mulher e pessoa, Armando. Ao contrário de você.
— Mas...mas...mas...
— Você vai sumir da vida dela, Armando.
— Mas...mas...

Clarice estranha o sumiço de Armando. Se saiu pra comprar cigarros podia ao menos ter deixado um recado. O celular dele estava desligado.

Clarice decide então olhar os e-mails.
Um dos e-mails tem Armando como remetente. Chegara à conta de Clarice há uns 5 minutos. Neste e-mail há um anexo. Um vídeo.

— E aí, parceiro? Qual será a frase?
— "Sou pedófilo"!
— Fala mais alto!
— Eu também não escutei.
— "Sou pedófilo"!
— Que mais?
— "Papa anjo"!
— Que mais?
— "Molestador de crianças"!
— Ih, esse vai dar trabalho, parça!
— Mãos à obra então, meu camarada.

Só que os "tatuadores" se enganaram. Erraram de pessoa. Era outro Armando quem eles procuravam.
Fazer o quê?
Todo mundo comete erros.

Um comentário :

  1. Com a palavra, Rachel Sheherazade e o seu público apoio aos "justiceiros" de plantão.

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