quinta-feira, 15 de junho de 2017

Ode ao brega

Luis Felipe Miguel  

​Confesso: gosto de brega. Claro que é um gosto tingido de distinção, uma vez que mantenho um distanciamento irônico, mas nem por isso é menos "autêntico" (assim como qualquer gosto "autêntico" é um produto social). Ouço, com genuíno prazer, Sidney Magal, Odair José, Nelson Ned, Gretchen, Waldick Soriano, Perla, Paulo Ricardo. Em casa, tenho que ouvir escondido - Regina e Francisco odeiam de morte. Mas acho até que faz parte de uma cultura musical básica. Outro dia mesmo, diante de uma turma de bárbaros da pós-graduação, tive que apresentá-los a Lilian ("Sou rebelde", "Música lenta") e Janette ("Por que te vas"). Tá bom, Janette não é brasileira, logo não pode ser verdadeiramente brega, no máximo cafona, mas está no meu top ten.

Além de ouvir os clássicos, tento acompanhar a produção recente. Em geral, conheço por ouvir rádio no táxi. Uma noite dessas, no youtube, me dediquei a ganhar familiaridade com alguns dos novos talentos. Ouvi Safadão, Anitta, Nego do Borel, Simone & Simaria, Ludmilla e sobretudo Marília Mendonça, que tem voz afinada e é uma compositora competente.

O que me chamou a atenção foram os comentários aos vídeos. Há uma identificação profunda com as músicas, uma coisa incrível. Lembro do documentário "Vou rifar meu coração", que foi muito criticado por ter dado espaço ao assassino Lindomar Castilho, outro ícone do brega clássico, para ele justificar o crime que cometeu. Sem entrar nessa polêmica, o fato é que o documentário mostra como essas canções mexem fundamente com seu público. Falam de dor de cotovelo, traição, paixão não correspondida, esbórnia, conquista, perda - e o público se reconhece em cada letra. As pessoas choram ouvindo. Na boa: alguém chora ouvindo Mônica Salmaso, Lenine, Criolo?

E continua assim; os vídeos do youtube têm centenas de pessoas testemunhando como as músicas remetem às suas vidas e suas emoções. Como escreveu alguém, na página de uma canção de Marília Mendonça, "cada música são dois litros de cachaça".

Sei que não sou um fã padrão e que tendo a achar engraçado o que muitos acham comovente. Sei que eles operam no clichê e que, muitas vezes, as letras apenas reforçam comportamentos estereotipados. Mas não dá para desprezar uma forma expressiva que toca tão fundo em tanta gente. Não sei se Chico Buarque ou Lou Reed chegam lá, dessa maneira (para não falar em György Ligeti ou Toru Takemitsu). Às vezes é bom colocar em xeque nossos próprios mecanismos de distinção.

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