domingo, 18 de junho de 2017

O surto de esquizofrenia da Globo

Tom Cardoso

É curioso testemunhar o atual surto de esquizofrenia da Globo. Num espaço de duas horas tudo acontece. Primeiro, personagens de esquerdas são tratados como heróis numa minissérie que denuncia os desmandos da ditadura (com direito até a imagens de arquivo de um comício pelas Diretas Já repleto de bandeiras do PT - que poderiam ser apagadas em cinco minutos de trabalho numa ilha de edição). 

Depois entra no ar o jornal comandado pelo reaça-mor da emissora, William Waack, que baba de ódio contra todos os corifeus da esquerda mundial. Para ele, até o Obama é comunista. Mas o mesmo apresentador tem feito de tudo para derrubar o atual presidente, um conservador notório, aliado com o empresariado, que tenta aprovar as reformas sonhadas pelo mercado e, portando, pelos donos da emissora. 

Enfim, por que a Globo exibe uma minissérie na qual os heróis são de esquerda e os vilões de direita, ao mesmo tempo em que exibe um jornal ancorado e editado por um nazi-fascista, o mesmo que tenta a todo custo derrubar um presidente, mandatário este aliado com as ideias de seus patrões? Que porra é essa? Eu tenho as minhas suspeitas.

1) A Globo caga de medo do fator Bolsonaro. Ela sabe o quanto um outsider, criado num quartel, pode arruinar um país. Portanto, é preciso mostrar para a classe média, inculta e burra, que havia sim corrupção durante o regime militar, que controlava tudo, inclusive a Justiça - ou seja, uma operação como a Lava Jato seria abortada no primeiro peido. Sergio Moro? Acabaria num pau-de-arara.

2) Por que o pau no mordomo? A Globo diz que não interessa a ninguém ter um presidente que sangra no poder. Balela. O cara tem apoio do empresariado, do Congresso - está conseguindo enquadrar até o Janot. A Globo quer que ele saia por outro motivo. As deleções da Odebrecht e da JBS colocaram todo mundo no mesmo saco: Lula, Aécio, Temer, Alckmin, Serra etc. É nesse cenário que Lula tem crescido nas pesquisas, fazendo ressurgir com força um velho axioma da política brasileira: o Rouba Mas Faz, que agora, vejam que curioso, não serve mais a um populista da direita e sim a Lula. Começa a ganhar corpo, entre os eleitores que já votaram em Lula, mas que passaram a rejeitá-lo após a ampla campanha por sua demonização, liderada pela Globo, a ideia de que Lula, pelo menos, fez algo pelo país.

3) A Globo corre contra o tempo. É melhor que se dispute o mais rápido possível as Diretas. A emissora fará como fez em 1989, ao escolher ela o o seu outsider (Fernando Collor), o vendendo como "o novo". O seu favorito é Luciano Huck. Se não der, vai de Doria mesmo, que, a despeito de ser filiado ao PSDB, conseguiu vender a imagem de gestor, de antipolítico. Se demorar, Lula, com o agravamento da crise econômica e política, vai crescer tanto nas pesquisas, que não será mais possível derrotá-lo. E se ele for preso durante todo esse processo, impedido de entrar na disputa, vai ser tornar um mártir - e eleger qualquer poste.

4) A Globo não quer Lula, mas não morre de medo dele. Morria em 2002, quando descobriu - com a Carta ao Povo Brasileiro escrita por Palocci -, que o sapo barbudo não era tão indigesto assim. Só William Waack pensa que Lula é comunista - ou quer vender essa imagem para não torná-lo nunca um político palatável a todos os gostos e ideologias, como Lula, um animal político, um pragmático, de fato é. No texto de Haddad publicado recentemente pela Piauí, o ex-prefeito narra o encontro em 2014 com João Roberto Marinho nas escadarias do Instituto Lula. O presidente do Grupo Globo estava ali para pedir, pessoalmente, que Lula fosse o candidato nas eleições de 2014 no lugar de Dilma.

5) Conclusão: a Globo sonha com Luciano Huck, engole Lula e se borra de medo de Bolsonaro.

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