sexta-feira, 2 de junho de 2017

O Brasil imutável



"Ainda não tinha sabido, nem de longe, como se pode ser sozinho no Brasil. Não sozinho para as coisas mais graves, como apregoa Rilke, que para isto sempre somos afortunadamente sozinhos, mas numa completa ausência de amparo, de interesse, de solicitude, numa completa carência de compreensão, de eco, de amizade - num abismo de frieza, de hostilidade e até mesmo de desprezo.

Às vezes, em horas tão escuras como as que vivo atualmente, costumo imaginar que não há possibilidade de existir sem provações desta natureza. É necessário que se experimente até o âmago o desdém dos imbecis, que a luta se trave em nosso próprio ser, e nos sintamos coisa espoliada e miserável aos olhos de uma sociedade feita para o que é fútil. Há uma inércia, uma estabilidade em mim que impede o meu arrolamento na hierarquia dos valores manuseáveis; não sou bom senão como medida de desequilíbrio e desconforto. Não há nenhuma vaidade nestas afirmações, pois sei muito bem o que significam esses transes em país como o nosso; não temos nem sequer uma pobreza digna, mas apenas uma miséria sem compostura.

Sinto que devo recomeçar tudo de novo, renascer diferente do que fui - nada sou neste instante senão o resultado de um esforço perdido, e deixar de reconhecer isto, é perpetuar este fracasso. Devo ser o homem novo que ainda não conheço. Como quem se acha no interior de um vagão prestes a partir, olho tristemente os que passeiam na plataforma, com o vago sentimento de que desta vez a viagem é definitiva... O que eu amo é a plataforma, pois sempre imagino ficar, calculando, erradamente, que o amor é que fica, e jamais o que parte."



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