terça-feira, 6 de junho de 2017

Escola de Novo Hamburgo esforça-se para construir um mundo pior


Luis Felipe Miguel

A escola de Novo Hamburgo soltou uma nota de esclarecimento muito vagabunda a respeito da malfadada festividade "Se nada der certo". Pede "desculpas pelo mal entendido" (quem entendeu mal?) e apresenta a justificativa esfarrapada de que o objetivo era "a conscientização da importância de pensar alternativas no caso de não sucesso no vestibular".

Ridículo. O público-alvo da escola, se não passar no vestibular, fará um novo vestibular. Se não ingressar na faculdade que quer, escolherá outra. A chance de que venham a ganhar a vida como varredores de rua ou vendedores ambulantes é, a bem dizer, nula. O tom de chacota da festa-recreio era óbvio.

Infelizmente, o que muitas vezes as escolas da elite ensinam a seus alunos é o preconceito de classe e como gozar sem culpa de seus privilégios. Seria mais interessante discutir como se constrói a hierarquia que define algumas ocupações como subalternas e outras como superiores. Discutir como alguns podem desprezar os saberes incorporados nas práticas dessas profissões subalternas apenas porque contam com quem faça por eles - o chapeiro da lanchonete, o mecânico, o balconista, o faxineiro. Discutir como o que realmente "deu certo" para eles foi a loteria do nascimento, que, na nossa sociedade, determina a parte do leão das trajetórias individuais.

Eu fiquei sabendo do caso ontem, por meio de uma aluna, que o introduziu numa discussão em sala de aula. Era uma aula sobre sorteios e estávamos conversando sobre a filósofa inglesa Barbara Goodwin, que apresentou a utopia de uma sociedade lotérica. Nela, empregos, salários e locais de moradia seriam definidos de forma aleatória e independente.

É uma provocação, mas ajuda a levantar problemas sobre aspectos do mundo em que vivemos que, normalmente, não são tematizados. Por que exercer uma ocupação socialmente indispensável pode significar tamanho desprestígio? Por que se aceita tamanha disparidade de pagamento por atividades que são, todas elas, úteis e necessárias? Por que revestimos com a ideia de "mérito" o que é, de fato, fruto sobretudo do acaso? Por que as profissões mais tediosas e desgastantes costumam ser também as mais mal remuneradas? Não seria mais razoável fazer o inverso, compensando vantagens e desvantagens?

De fato, como observa Goodwin, uma das peculiaridades mais perversas do mundo em que vivemos é que os desprivilegiados e os privilegiados tendem a se manter como tal em todas as dimensões. Os trabalhos mais gratificantes são em geral aqueles com maior prestígio social e com melhores salários; esses profissionais costumam morar em casas maiores e mais cômodas, que são também mais bem localizadas; os ocupantes destas casas melhores possuem mais itens de conforto e consomem produtos de melhor qualidade; em sua vizinhança encontram melhores escolas, melhor atendimento médico, até mesmo um comércio mais sortido e mais barato; eles têm mais acesso ao lazer e à cultura e viajam com mais frequência; possuem automóvel particular e ao mesmo tempo residem mais perto de seus locais trabalho. A lista de vantagens cumulativas é quase interminável.

É necessário muito esforço para não ver tanta injustiça na organização do mundo. Quando a escola apoia esse esforço, naturalizando as desigualdades, está em seu pior papel de reprodutora da dominação.

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