terça-feira, 6 de junho de 2017

Como a estupidez dominou o mundo


Faz tempo, li um livro intitulado "Como a estupidez dominou o mundo" ou algo assim. Meu exemplar sumiu e não consigo lembrar nem do título correto, nem do nome do autor, que era, se não me engano, um jornalista inglês. Seu tema era o prestígio renovado de uma forma de pensamento mágico que, a crer no clássico "Religião e o declínio da magia", de Keith Thomas, deveria ter entrado em crise terminal no final do século XVII. Do esoterismo ao livre-mercado, muita coisa entra nesse balaio.

Um exemplo chocante está nessa reportagem, sobre um "experimento" sobre o poder do pensamento positivo ao qual teriam sido submetidas crianças de uma escola no Paraná. O sujeito que a reportagem chama, sem nenhuma crítica, de "cientista", é responsável por outras descobertas incríveis, além da emotividade do arroz cozido. Ele "congelou água em frascos de vidro com palavras escritas voltadas para o líquido. Depois, fotografou os cristais formados sob a influência das palavras negativas e positivas. O resultado demonstrou que os mais belos cristais foram os que receberam palavras de amor e gratidão. O restante, que esteve diante de palavras de ódio e rancor, ficou completamente distorcidos [sic]". Interessantíssimo. Imagino que o próximo passo será investigar se a água é alfabetizada apenas em japonês ou se, apresentada a palavras escritas em português, também reage da mesma forma.

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P.S.: Pequeno debate feicibuqueano:

Pessoa do Facebook: Este experimento é famoso e tem muitos (MUITOS) vídeos no YouTube demonstrando que realmente funciona. Considerei preconceituoso o seu post. Já fiz este experimento em minha própria casa várias vezes, com resultado 100% em todos eles. Imagine quanta loucura seria falar em muitas coisas comuns de nosso dia-a-dia lá nos idos de 1940. Não ridicularize algo que, para começar, faz todo sentido e que muitas pessoas já testaram.

Luis Felipe MiguelÉ curioso. "Muitas pessoas já testaram" é o argumento para sustentar a crença no charlatanismo. A exigência de testagem controlada, própria do experimento científico, é no entanto descartada como uma visão estreita e presa à horrenda "razão científica". Na verdade, não existe nenhum paralelo entre o avanço tecnológico que separa as coisas comuns de nosso dia-a-dia do que havia nos anos 1940 e essa mistificação primária. É necessário exatamente proteger nossas crianças desse tipo de charlatanismo - e por isso é muito sério que isso tenha acontecido numa escola - e ajudá-la a superar o analfabetismo científico que continua a grassar.

Pessoa do Facebook: Luis, você se acha muito melhor do que as pessoas de mente aberta, né?! Cresci com isso. Cresci com pai Físico, irmão Químico, irmã Bióloga e por aí vai. Eu sou cética em relação a muita coisa, mas a vida me ensinou a não fechar portas por causa do meu ego e do meu ceticismo. Tente fazer isso e você será uma pessoa mais justa e mais feliz. Essa sua arrogância de se achar melhor do que quem coloca em prática pequenos testes na vida não te levará a lugar nenhum, apenas te deixará preso a um mundo científico cheio de teorias que se comprovam a depender do olhar interessado (e do viés ideológico até) do pesquisador e do poder do dinheiro. A ciência pode ser tão falha quanto as crendices. Mas ambas são importantes para o ser humano.

Luis Felipe Miguel: Não, Pessoa do Facebook, eu não acho que você seja uma pessoa de "mente aberta". Muito pelo contrário. Acho que a crença no misticismo é a clausura da mente. É engraçado você falar do poder do dinheiro e da arrogância, quando eles são os motores do charlatanismo. Talvez para seu ego fizesse bem ver que há critérios de validação que superam suas crenças no oculto, por mais intensas que elas possam ser.

P.S 2.: Outro  debate feicibuqueano:

Fulana: Luis Felipe, antes do desenvolvimento da física quântica, se alguém se antecipasse e dissesse que porções infinitamente pequenas de matéria poderiam estar em mais de um lugar ao mesmo tempo e serem partícula e onda, provavelmente seria considerado insano PELOS PRÓPRIOS CIENTISTAS! Assim como Karl Sagan afirmou certa vez que deus é um número! E quanto à memória da matéria? Considero um tanto quanto radical reduzir a realidade do mundo àquela fragmentariamente traduzida pela ciência ... Quando a ciência avançou o fator probabilidade na física quântica, entendo ter ela alargado seu campo de visão de modo a não excluir a priori um conhecimento dito de natureza não científica! A hipótese de universos paralelos ou multiversos é um exemplo dessa abertura, em minha (desarrazoada?) opinião ...

Luis Felipe Miguel: Há um grave erro de argumentação quando se usa a ampliação da complexidade da compreensão do mundo pela ciência moderna como porta aberta para a hipersimplificação da superstição e do charlatanismo.




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