quinta-feira, 8 de junho de 2017

A crescente cultura de menosprezo da ciência e da academia


Rogério Quintanilha

Vamos lá...

A professora Marlene de Fáveri, titular da disciplina "História e Relações de Gênero", está sendo processada por uma ex-aluna de pós graduação, declaradamente conservadora católica antifeminista. Marlene havia desistido de orientar sua dissertação de mestrado porque as posições da aluna eram claramente conflitantes com as posições da própria professora, que trabalha academicamente com feminismo e questões de gênero. Recusada, a aluna passou para outro orientador, foi reprovada e agora alega estar sendo perseguida. Muito bem.

A primeira coisa que tenha a dizer é que esta menina é produto de uma crescente cultura de menosprezo da ciência e da academia. Da cultura do "é a minha opinião", dos especialistas de facebook, do imbecil com autoridade. Claro, sempre houve gente imbecil, mas antigamente ele tentava não ser notado. Agora tem um monte de gente dizendo ao imbecil "você tem direito a ter sua opinião", "seu professor é um doutrinador", "você pode ser presidente dos EUA". Se o Olavo de Carvalho me garantiu que a evolução é falsa, que Einstein e Planck estavam errados e que a Terra não gira em torno do Sol, então posso repetir essas burrices em qualquer lugar. Ele nunca escreveu artigo científico nenhum, sobre nenhum desses assuntos, mas tem muitas curtidas no Facebook. Se o MBL me garante que feminismo é doutrinação comunista, porque não?

Mas calma. Tio Rogério vai tirar suas dúvidas de como funciona a ciência e a academia.

1. ENTÃO A ALUNA NÃO PODE DAR A SUA OPINIÃO?

Não. A academia não é lugar de opinião, é lugar de pesquisa. Você é absolutamente livre para formular o pensamento que quiser, mas ele deve ser construído e argumentado de forma acadêmica, baseado em fontes de dados academicamente aceitas, dos quais princípios religiosos e conspiracionistas de Facebook não fazem parte, sorry. Darwin, que era Darwin, e Einstein, que era Einstein, passaram ANOS formulando suas teorias demolidoras para garantir que não estavam falando merda. Tome-os como exemplo.

2. ENTÃO NÃO HÁ LUGAR PARA DEBATE DA ACADEMIA?

Ao contrário, a academia é o único lugar onde há debate. É o único lugar onde TUDO pode ser questionado, mas não de qualquer forma. Não se "refuta Darwin" (esse negócio de "refutar" é mesmo termo de gente que não entendeu nada), que tem 100 anos de pesquisas confirmatórias e complementares, com UM exemplo (ainda) não explicado. Pense assim: se você vai a um show de mágica e vê o mágico voando, você não vai acreditar que ele seja realmente capaz de voar já que a sua larga experiência sobre homens te diga que eles não voam. É MUITO mais provável que esse caso possa ser explicado de outra maneira (é um truque) do que você descubra que todo o seu conhecimento anterior estava errado.Pode acontecer? Pode. É provável? Não. De todo modo, não se derruba um consenso científico, como o machismo, no caso da UDESC, com uma citação bíblica, assim como não se derruba as torres gêmeas com um estilingue. É preciso de um AirBus.

3. DEVO BAIXAR A CABEÇA PARA TUDO O QUE MEU PROFESSOR DISSER?

De modo nenhum. Seu professor pode falar bobagem, e pode até ser um maluco mas, especialmente em nível de graduação e pós-graduação, a ciência tem o seu próprio filtro para malucos chamado Avaliação Pelos Pares. Se seu professor tem um título acadêmico NA ÁREA EM QUE ESTÁ ARGUMENTANDO, se publica textos científicos SOBRE ESTE ASSUNTO, provavelmente ele sabe do que está falando, porque passa constantemente pela revisão de colegas. Já falei disso aqui. A REVISÃO PELOS PARES é provavelmente o instrumento mais eficiente da Ciência. Portanto, se está lidando com um professor assim, OUÇA O QUE ELE TEM A DIZER antes de ficar dando cabeçada. Respeite a trajetória das pessoas. Respeita o corre. Vai por mim...

#apoioMarlene

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