terça-feira, 23 de maio de 2017

Proletário-raiz

Fernando Horta

Como todo proletário-raiz eu só aprendi a dirigir depois que comprei um carro (usado). Isto foi aos 30. Assim, dirigir não é algo natural para mim. Faço com certa desenvoltura, mas preciso estar - para usar um palavreado neoliberal empreendedor - com o mindset focado. 

Aliás, inglês também não é natural para mim. Nunca estudei formalmente inglês, tudo o que sei é "de ouvido". Falo um inglês navarro-jê em que os pronomes he, she e it são totalmente intercambiáveis e as preposições on, in e at dependem da sonoridade que farão com a palavra seguinte. "At a table" por exemplo, parece uma cacofonia infantil e deve estar errado. Não uso. A despite de tudo isto, tenho notas bastante altas no Toelf, o que me garante poder apresentar meus estudos em seminários internacionais. A vantagem do inglês navarro-jê é que se algum gringo tem a desfaçatez, a woodface de me ofender por causa da língua eu tiro o papel do toefl da bolsa e jogo na cara dele. O ato, dentro dos costumes navarro-jê, também é uma declaração de guerra e normalmente o furdunço acaba tirando a atenção dos interlocutores para o trabalho. Daí, o que vale é o certificado na caixa e os pontos no Lattes. 

Esta semana recebi um amigo norte americano que está fazendo uma pesquisa no Brasil. Ótimo tempo, conversamos muito, trocamos ideias tudo muito bom. Como fiquei com ele o tempo todo notei que, quando falava com ele em inglês dirigindo, eu cometia inúmeras barberagens. Trocava marcha quando não podia, fechava os outros e tal. Percebi que enquanto esgrimava mentalmente para achar as palavras e os verbos a CPU, velha de guerra, falhava. Como eu tenho uma low level configuration dizendo que atividades mentais tem precedência sobre as físicas, a barberagem corria solta. 

Ai de sopetão (do inglês "soup et.al") o gringo pergunta:

- Fernando, could you please offer to me a short explanation about what is going on with Brasil since 2013 till now? Give me a broad picture.

No que eu comecei a tentar responder, o Pentium100 velho deu tela azul e eu bati o carro. Fiquei uns dois minutos imóvel para reiniciar o sistema todo, o meu amigo pensou que eu tivesse me machucado, mas no fim estava tudo certo. 

Disse a ele que não deveria ter feito pergunta difícil e tal... Rimos muito e agora não sei se mando a conta da arrumação para o Aécio ou para o Joelson. 

Desculpem-me o tom, mas hoje estou muito gripado e decidi não falar de política. Por dentro muita gripe, por fora Temer.

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