quarta-feira, 3 de maio de 2017

Por que Elika Takimoto saiu do Facebook?

Fora Temer, Volta Elika!

Não ia comentar o malfadado post da Elika Takimoto, mas agora vou. É claro que ela errou feio, é claro que ali bateu um complexo de Princesa Isabel. Fez a pior defesa possível das cotas na educação: as cotas como caridade (e não como justiça). Passou a ideia de que os estudantes que entram por cotas são um estorvo, sem perceber que eles acrescentam vivências e saberes, oxigenando as instituições escolares e assim contribuindo para aprimorá-las. Foi condescendente e preconceituosa.

Diante das críticas, ela primeiro defendeu seu ponto de vista. Parece que apagou e deletou muitos comentários. Depois, acabou fazendo um mea culpa, tímido, mas que na minha leitura apontava na direção correta: o entendimento de que, na sociedade racista em que vivemos, o racismo se manifesta mesmo em discursos e comportamentos pensados para negá-lo. E que devemos sempre estar prontos a reavaliar o que dizemos e fazemos. Em suma, que em nossa sociedade o racismo (assim como sexismo, homofobia etc.) é o modo padrão e para romper com ele é preciso um esforço permanente.

Mas logo depois de publicar as desculpas ela apagou o perfil, o que significou apagar as desculpas também. Ficou esquisito.

A questão que me incomoda, porém, é outra. Nunca acompanhei o que a Elika Takimoto escrevia, mas de vez em quanto chegavam até mim umas tiradas dela - algumas muito bem sacadas, com ironias inteligentes. Até onde vi, ela costuma estar ao lado das causas boas e contra as más. Escreveu essa postagem muito nociva, é verdade, mostrando uma condescendência racista com os estudantes negros e uma visão atrasada e elitista do processo educacional.

Diante disso, o que nós queremos? Apedrejá-la sem trégua, talvez para enfatizar nossa superioridade moral? Ou ajudá-la a sofisticar sua reflexão, a entender os pontos problemáticos de seu discurso e mantê-la do nosso lado com uma visão mais lúcida?

Não acompanhei as críticas dirigidas a ela, mas, do pouco que vi, muita gente estava nessa segunda posição, o que é bom. Mas vi também comentários muito agressivos, que correspondem à primeira postura. Não acho que isso nos ajude.

9 comentários :

  1. Mudei minha opinião pós leitura do texto, ela não foi racista explicitamente, mas, lendo e relendo, o texto tá cheio de preconceito e discriminação, SIM! Todo esse "amor" ae de que vcs falam ver no texto, (e me deu a mesma impressão de quando assisto filmes onde existem escravos e a senhorinha é delicada com sua escrava forra), me pareceu mais uma maneira de dizer: "vem cá minha mucama alforriada, vou te fazer um carinho" Leva a mal não, passou há um ano atrás porque os negros de há um ano atrás não são mais os negros de hoje, porque hoje ninguém tá mais de bobeira não! Infelizmente a desconstrução do racismo vai levar décadas, tomara, porque nessa linha da Elika, talvez dure séculos,como a escravidão... Foi um tiro no pé, pelo #FATO de existir uma linha muito tênue entre falar daquilo que pensamos estar convictos e o que de fato (muito infelizmente) foi implementado dentro de nós, brancos, na nossa alma... E embora negue, ela quis publicidade, aplauso dos "meninos de boné e cordão de prata" (descriminação do texto), e pagou o preço, lidar e opinar sobre vidas, ainda mais quando não temos as mesmas experiências empíricas, é algo sério e requer muita responsabilidade, ainda mais sendo educadora, e ela não tinha nem know-how pra isso, de boas intenções, já diz o ditado "o inferno está cheio"... Vale lembrar uma frase de Shakespeare que os Racionais parafrasearam: "senhor do meu silêncio, escravo das minhas palavras" quanto ao ódio dirigido à ela, é muito difícil compreendermos, também pelo #fato de que como os que o fizeram, nunca fomos, não somos e não seremos sobreviventes como eles, de massacres e genocídios...

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  2. A saída dela tem um motivo simples: ameaças de morte a ela e aos filhos.

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  3. "Todo esse "amor" ae de que vcs falam ver no texto, (e me deu a mesma impressão de quando assisto filmes onde existem escravos e a senhorinha é delicada com sua escrava forra), me pareceu mais uma maneira de dizer: "vem cá minha mucama alforriada, vou te fazer um carinho""

    Esse é o problema da internet, as pessoas querem ditar verdades em nome de outra. Pode até ter parecido para você, mas já pensou que pode ter sido um sentimento verdadeiro?

    Descrever a roupa de alguém é preconceito? Desde quando? Seria se houvesse ali uma crítica à vestimenta, oq ue não houve.

    Vejo no texto perplexiade, surpresa, até estranhamento, mas não racismo. Vejo também vontade de mudar uma dura realidade e a felicidade de perceber bons resultados.

    Mas entendi, negros só podem ter professores negros. Saquei tudo.

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  4. Conheço a Elika. Sim, este texto é antigo e se refere a primeira turma de cotistas do CEFET. E sim, tudo o que foi descrito ali e verdadeiro, pois alguns realmente não sabiam o que significa "estudar", outros não seguravam, de fato, o lápis direito. Muitos não tinham material escolar. Apesar da selecao do CEFET, esses primeiros egressos entraram lá com um nível educacional bem abaixo da media. Falo aqui de cotistas como um todo, de cotas raciais e sociais. O mesmo foi abordado pela Elika. E sim, foi estranho par ela como foi estranho para mim, ma UFRJ, perceber que de repente minha sala tinha negros (ou pretos ou afrodescendentes, não sei ate hoje qual a palavra certa que não ofende alguém). Vejam, estranhar não e achar ruim.
    Ela podia ter revisado? Por que? Há anos ela se expõe nas redes sociais, nunca se escondeu. Fica fácil, para quem a conhece ou acompanha, perceber sua mudança em diversos aspectos e sua evolução como pessoa preocupada com as desigualdades sociais. Seu discurso e seu posicionamento mudaram. Isso é ótimo!
    O texto tão somente descreve o que aconteceu. Se há a defesa de algo ali, é o reconhecimento da importância da adaptação da instituição e a defesa das cotas. Todo o resto é uma confissão da surpresa causada pelo novo perfil de alunos. O texto mostra reações humanas e a tentativa de fazer certo.
    E fizeram. Frequentemente ela comenta o bom desempenho dos cotistas, sejam de cotas raciais ou sociais, e seu orgulho em ter se transformado como educadora ao aprender com eles como dar uma aula melhor. Mas a verdade é que esses primeiros egressos tiveram muita dificuldade. Isso é fato e não há porque ser escondido. O importante é ressaltar a adaptação de professores e da instituição a esta nova realidade por meio de assistência psicológica, aulas de reforço e bolsas de estudo.
    Afirmar que a escravidão existiu é ser racista? Descrever o que de fato aconteceu no CEFET, admitindo o espanto e assumindo a responsabilidade como profissional da educação é racismo? As pessoas, mesmo em ambiente profissional, não podem ajudar umas as outras por terem cor de pele diferentes? Não posso mais me orgulhar ao reconhecer minha participação como professor na evolução intelectual e profissional de um aluno não-branco?
    Entendo que algumas pessoas possam ter se ofendido e respeito isso. Mas convido-as a tentar entender melhor o contexto.
    Estão batendo na pessoa errada.

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  5. SUgestão de leitura: http://www.revistalinguadetrapo.com.br/o-mundo-invisivel-por-elika-takimoto/

    Texto da Elika sobre o mesmo tema, de dezembro de 2016.

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  6. Eu não sigo mais a Elika porque perdi totalmente o saco depois dos faniquitos juvenis que ela deu quando falou com Lula ao telefone. Acho que o texto dela tá, sim, carregado de racismo. Mas isso justifica ameaça de morte? Pelamordedeus...

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  7. Gente, não vi nada disso. Sinceramente, quem é cotista sabe. Não preciso de pessoas me defendendo. Preciso de professoras dispostas como ela. O resto é discurso politicamente correto, muito blá blá blá, muita retórica e pouca ação. Quem está na "ponta" sabe. Se é que entendem o que é estar na ponta.

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  8. Li agora o texto que provocou a polêmica. A primeira frase que abre o 2o parágrafo é, sem dúvida, racista. Ela pode até dizer que escreveu errado, não fez revisão e tal, mas escrever que "havia negros e alunos diferentes na forma de se expressar" é um ato falho crasso. Mas a minha crítica maior é que a Elika blogueira tomou conta da professora Elika. Eu não sei se aquela discussão sobre um tema tão explosivo caberia daquela forma em um blog, sendo ela uma professora da própria instituição. Escola e Redes sociais são coisas diferentes, não são similares e, portanto, a apresentação de si tem de ser diferente e controlada. A Escola é um sistema perito e as redes sociais não. Um espaço é o lugar da argumentação e do esclarecimento, o outro é o lugar da opinião (doxa). São hermenêuticas e retóricas diferentes. Como professora é importante ela não expor seus alunos e infelizmente ela o fez. A escrita opiniática a traiu violentamente.

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