quarta-feira, 3 de maio de 2017

O sobrevivente

Palmério Dória

Tem história esse perímetro em que moro. Chego em alguns minutos à rua Maria Antônia. Foi do teto do Mackenzie que partiram os tiros contra a Faculdade de Filosofia bem aqui, em 2 e 3 de outubro de 1968. José Dirceu, uma das principais estudantis, é alvo da direita hidrófoba desde aquela época.

Mas foi outra a vítima da Batalha da Maria Antônia, travada durante dois dias entre estudantes de esquerda da Filosofia e estudantes de direita do Mackenzie, com paus, pedras, rojões, coquetéis molotov, ácido sulfúrico -- e as armas de fogo dos mackenzistas, entre eles membros do CCC.

Pela uma e meia da tarde do dia 3, um repórter fotográfico flagra cinco deles no teto de um prédio da Universidade, cujo reitor havia apoiado o golpe militar. Um, à frente do grupo, faz pontaria com uma carabina. Cá embaixo ouvem-se gritos de "ambulância! ambulância!", e vem carregando o estudante José Carlos Guimarães, colegial que ia a um livraria e, resolvendo engrossar as hostes da turma da Filosofia, levou aquele tiro na cabeça, que o matou antes de chegar ao hospital. Testemunhas identificaram o atirador como Osni Ricardo, do CCC e informante da polícia.

Dias frenéticos, tempestuosos. Em 12 de outubro, 215 homens da Força Pública e do Dops estouraram em Ibiúna, no Congresso da UNE, que reunia cerca de 1000 estuantes no Sul do Estado. José Dirceu, presidente da UEE, estava entre os líderes presos, gente do calibre de Vladimir Palmeira e Luís Travassos, personagens de reportagem de capa da revista Realidade.

José Genoíno propõe que se procure entre as centenas de presos em Ibiúna no Congresso, para ver quantos foram eliminados, desapareceram, ou levaram tamanho susto que desistiram de fazer política de uma vez por todas. Aí está uma das razões para a falta de representativa política, uma das tragédias do nosso tempo.

E não deixa de ser um milagre que José Dirceu tenha sobrevivido.

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