segunda-feira, 22 de maio de 2017

Disputa entre Folha e Globo é a mais significativa na mídia desde os anos 80

Luis Felipe Miguel

A briga, agora escancarada, entre Folha e Globo é a disputa mais significativa entre órgãos da grande imprensa brasileira em muito tempo, talvez desde a primeira campanha das diretas.

A Folha tomou a dianteira na defesa de Temer - embora, para tentar manter o pouco de credibilidade que lhe resta, tenha que fingir algum distanciamento em relação às versões do usurpador. Mas foi ela que tomou a iniciativa de desacreditar as gravações de Joesley Batista, chamando um "perito" para dizer que tinham sido editadas. Ontem O Globo desacreditou o descrédito, mostrando o perito como um amador e dizendo que ele estava retificando seu parecer. Hoje, na Folha, ele retifica a retificação e reafirma o parecer inicial. A Folha, no entanto, não discute a precisão do software usado, o profissionalismo de Santos ou a natureza de sua vinculação com o TJ-SP, todos pontos atacados pelo Globo.

Mas a manchete da Folha, hoje, é a entrevista exclusiva de Temer, com destaque para a frase de efeito, desonesta e sem qualquer relevância: "Não renuncio; se quiserem, me derrubem". É o esforço do golpista para parecer vítima. De contrabando, é transmitida a ideia de que seu mandato é legítimo.
A entrevista é camarada. Os repórteres fingem que fazem perguntas "duras", mas aceitam as respostas de Temer sem questionar suas debilidades e contradições.

O problema, para Temer, é que mesmo Folha e Estadão têm que trabalhar ostensivamente com o Plano B, que é o Plano A da Globo: eleições indiretas. Há uma permanente ambiguidade, com a simpatia pela permanência do usurpador convivendo com o discurso de que ninguém é mais importante do que o sucesso das "reformas" - e, portanto, no momento em que se tornou um estorvo para elas, Temer pode ser sacrificado.

* * *

Também na Folha, Aécio Neves escreve sua coluna de despedida. O jornal lhe deu a colher de chá de fingir que está abandonando o espaço por vontade própria - para "dedicar-me integralmente à minha defesa", diz ele.

Há seis anos Aécio escrevia na página 2, às segundas-feiras. Quem a Folha vai colocar em seu lugar? Fernandinho Beira-Mar ou Marcola?

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