sexta-feira, 12 de maio de 2017

Crítico Antonio Candido morre em São Paulo aos 98 anos



SÉRGIO RIZZO ESPECIAL PARA A FOLHA

O crítico literário, ensaísta, professor e sociólogo Antonio Candido morreu na madrugada desta sexta-feira (12), aos 98 anos, no hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Em 1996, chamado a celebrar a memória do escritor e professor Paulo Emilio Salles Gomes (1916-1977) em um evento da Universidade de São Paulo (USP), Antonio Candido de Mello e Souza disse que o amigo era dessas pessoas que "Deus faz e quebra a forma, pelo conjunto de qualidades interessantes e originais". A frase poderia ricochetear no espelho, ajudando a definir também seu próprio autor.

Como crítico literário (sua forma preferida de se apresentar), professor universitário, conferencista e intelectual deposições políticas assumidas em público com destemor, autor de livros, ensaios e artigos para a imprensa, Antonio Candido percorreu uma trajetória singular que o transformou em referência de independência de pensamento e de integridade moral para diversas gerações de alunos, discípulos, leitores e admiradores.

Nascido no Rio de Janeiro, em 24 de julho de 1918, Candido se mudou aos três anos para Santa Rita de Cássia (MG). Aprendeu as matérias do antigo primário com a mãe, Clarisse Tolentino de Mello e Souza. Foi só aos 11 anos, quando passou a morar em Poços de Caldas (MG), que entrou na escola para fazer o antigo ginásio, concluído em São João da Boa Vista (SP). Veio para São Paulo em 1936 e, nos dois anos seguintes, fez o curso complementar do extinto Colégio Universitário —espécie de escola preparatória— da USP.

Em 1939, ingressou na Faculdade de Direito da USP (que viria a abandonar no quinto ano, antes da conclusão) como espécie de compensação exigida pelo pai, o médico Aristides Candido de Mello e Souza, para que fizesse, conforme seu desejo, o curso de Ciências Sociais na antiga Faculdade de Filosofia da mesma universidade (atual Faculdade de Filosofia,Letras e Ciências Humanas - FFLCH). Nessa unidade, assumiria em 1942 o cargo de professor assistente de sociologia.

Tinha início uma carreira universitária brilhante. Em 1945, com a tese "Introdução ao Método Crítico de SílvioRomero", tornou-se livre-docente em Literatura Brasileira pela USP. Em 1954, recebeu o título de doutor em Ciências Sociais com a tese "Os Parceiros do Rio Bonito". E, em 1960, assumiu o cargo de professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na FFLCH. Aposentado da instituição em 1978, continuou a orientar dissertações e teses de pós-graduação.

Em 1958, Candido assumiu o cargo de professor de Teoria Literária na Faculdade de Filosofia de Assis, hoje pertencente à Universidade Estadual Paulista (Unesp), onde passou dois anos. De 1976 a 1978, coordenou o Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). No exterior, lecionou na Universidade de Paris, de 1964 a 1966, e na Universidade Yale, em 1968.

A carreira de crítico literário na imprensa teve início em 1943, quando começou a escrever para a "Folha da Manhã", que deu origem à Folha de S. Paulo. Ainda nos anos 1940, foi crítico do "Diário de São Paulo". E, em 1956, fez o projeto do "Suplemento Literário" de "O Estado de S. Paulo", que ajudou a modernizar o jornalismo cultural brasileiro.

Candido foi também um dos fundadores da lendária revista cultural "Clima", que publicou apenas 16 números, entre 1941 e 1944, mas que revelou um grupo de intelectuais de atuação marcante no cenário cultural e universitário paulista: Salles Gomes, Décio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado, Ruy Coelho e Gilda de Moraes Rocha, com quem Candido se casou em 1943, quando ela adotou o nome Gilda de Mello e Souza. O casal teve três filhas: Ana Luiza, Laura e Marina. Gilda morreu em 2005.

A militância política de Candido começou ainda na juventude, como integrante da Frente de Resistência contra a ditadura do Estado Novo. Em 1942, ele participou da criação do Grupo Radical de Ação Popular. Três anos depois, ajudou a fundar a União Democrática Socialista. Logo em seguida, aderiu – ao lado de Sérgio Buarque de Holanda, um de seus grandes amigos – à Esquerda Democrática, que daria origem em 1947 ao Partido Socialista Brasileiro, pelo qual Candido foi candidato a deputado estadual em 1950. Teve pouco mais de 500 votos.

Em 1966, ao voltar da temporada em Paris, manifestou seu apoio ao MDB. Em 1977, assinou o Manifesto dos Intelectuais, que pedia o fim da censura. E, em 1980, participou da fundação do PT. "Confesso que por toda a minha vida, mesmo nos momentos mais agudos, nunca fui capaz de perder a preocupação com os fatores sociais e políticos, que obcecaram a minha geração como uma espécie de memento e quase de remorso", disse em entrevista à revista acadêmica "Trans-form-ação", em 1975. Antonio Candido reunia, como se vê, "um conjunto de qualidades interessantes e originais".

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