terça-feira, 30 de maio de 2017

Conheça o militante do Talibã e Procurador de Justiça nas horas vagas Sérgio Fernando Harfouche


Luis Felipe Miguel

Entrei na página do talibã de Dourados. Está lá um mostruário de todo o esgoto mental de certa classe média brasileira - vídeos de pregadores ultrarreacionários com títulos bombásticos ("Malafaia humilha Lula!!!"), pedido de cassação do mandato de Fernando Haddad, pedido de prisão do Lula, pedido de impeachment da Dilma, uma citação atribuída a George Washington segundo a qual "é impossível governar integramente sem a Bíblia", foto com camiseta da "marcha pela vida contra o aborto". Tem até postagem de um vídeo em que ele acrescentou o seguinte comentário: "Caminhões do Figorífico [sic] JBS de propriedade do LULA são escoltados". Sim, o sujeito é procurador de justiça e acredita (ou finge que acredita) que Luís Inácio é o dono da Friboi.

Mas o que é mais incrível é que ele é pretensamente alguém ligado ao combate à violência nas escolas. No entanto, sua página manifesta repúdio ao estatuto do desarmamento. Reproduz textos satirizando a ideia de bullying (na linha "no meu tempo todos se xingavam mas eram amigos"). E, sobretudo, há grande empenho na defesa do Escola Sem Partido e na denúncia do que chama de "ideologia de gênero" na educação. Mostra, aliás, vinculação com outro procurador federal, Guilherme Schelb, de Brasília, um dos principais articuladores da campanha de intimidação de professores nas escolas brasileiras. Schelb é um católico ultramontano, ligado à TFP, ao passo que o talibã sulmatogrossense é seguidor do apóstolo Lamartine Posella, da Igreja Batista Palavra Viva. Mas os dois parecem trabalhar juntos harmoniosamente. É o fundamentalismo ecumênico.

Há uma contradição insolúvel: não dá para ser contra o debate sobre gênero e combater a violência ao mesmo tempo. O machismo e a homofobia matam e estão entre as principais causas de violência no ambiente escolar.

Ao que parece, na visão do talibã, o problema da violência nas escolas é a "indisciplina" dos alunos. Esse foi um tema recorrente na pregação que, ilegalmente, mães e pais de alunos da rede pública de Dourados foram obrigados a assistir. Há até uma lei com o nome dele no Mato Grosso do Sul - a "lei Harfouche" - destinada a cobrar, dos pais ou responsáveis, o ressarcimento por "estrago causado à unidade escolar ou aos objetos dos colegas, professores ou servidores públicos". Parece inócuo, mas é uma maneira de enquadrar a questão e destacar quais seriam os verdadeiros desafios a serem enfrentados. Os jovens estão "rebeldes", pichando paredes, quem sabe até promovendo ocupações. 

Vamos recolocá-los sentadinhos nas carteiras, quase imóveis, e tudo estará bem, enquanto um coleguinha é afastado do convívio dos demais porque é gay, a outra aprende que matemática não é coisa de menina e a terceira é agredida por ser considerada namoradeira demais.

Está mais do que claro que, por seu desprezo pelos direitos elementares e pela forma como escarnece do princípio da laicidade do Estado, ele não reúne as condições mínimas de permanecer no cargo que ocupa. Deveria ser demitido a bem do serviço público. Os Juristas pela Democracia do Mato Grosso Sul estão exigindo apuração do caso (https://goo.gl/HOAOO5). Infelizmente, do jeito que anda o Brasil, não consigo acreditar que tenham êxito. Espero estar errado.

Um comentário :

  1. Pena, eu não ter filho e não morar em Dourados. Iria usar esse papel para limpar a bunda.

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