segunda-feira, 1 de maio de 2017

Belchior e Chico Buarque

AS VELAS DO MUCURIPE 
Moisés Mendes 

Ainda sobre Belchior. Eu, ao contrário de muita gente, gosto da distração das comparações. Ontem, muitos disseram que não há como comparar Belchior e Chico.

Eu apenas disse que Belchior é o maior poeta da música brasileira. Escrevi sob a emoção da notícia de sua morte. Desisti do que escrevi? Não. Mantenho hoje o que disse ontem. É uma frase.

Mas vamos então a uma comparação básica, só como diversão de um feriado. Saio perguntando: Chico tem uma música definidora de geração que possa ser tocada daqui a alguns anos com vigor e com o sentido de perenidade?

Acho que nem as músicas de resistência à ditadura de Chico passam permanência em momentos como o que vivemos. Diga uma que os jovens cantam ainda hoje.

Belchior produziu os poemas musicados dos dilemas da sua-nossa geração, do desterro dentro do país, da sensação de se estar fora do lugar, do atavismo interiorano deslocado nas cidades, da fuga (do querer ainda hoje ir para o útero de Portugal?), do voltar, do perder-se na volta e de não saber o que fazer com reencontros, desilusões e desatinos.

Grandes artistas, na música, na literatura, nas artes plásticas deixam pegadas fortes de geração no que fazem. São mais do que cronistas ou observadores de uma época ou de episódios, são os caras que tatuam almas de um tempo na arte que fazem.

Belchior foi um deles. Escondeu-se e foi morrer em Santa Cruz do Sul. Por que Santa Cruz? Por que se voltou para os chãos de um interiorzão em busca de acolhida para o final da vida em que não sabia direito a quem pertencia depois de se extraviar da sua Sobral?

Belchior é o Brasil que parece não nos pertencer, que não pertence à minha geração e nem aos jovens de hoje. O Brasil sempre é nosso apenas provisoriamente. Já Chico é a classe média carioca enraizada, politizada, lírica, mas às vezes cartesiana, da poesia cerebral que emociona, mas cerebral (estou preparado, podem começar a bater).

Chico foi único desafiando os militares e é gênio cantando amores e desamores, mas Belchior é, pra mim, mais amplo, mais frondoso do que ele.

Belchior é Pessoa, Caetano, Raul, Torquato Neto, Van Gogh. Poucos artistas brasileiros têm o poder intuitivo de ainda hoje sintetizar o que fomos e ainda somos quanto Belchior. Mas não se gosta de um Belchior só para descartar um Chico.

Que os jovens que já o descobriram e com ele se identificam escutem Belchior ainda mais para estender pedaços da poesia da aflição no caminho que têm a percorrer como desterrados pelo avanço do reacionarismo da direita na política, no Judiciário e em todas as instituições.

Eles e todos nós, os desorientados pelo golpe de agosto, continuamos precisando da arte e da alma de Belchior.


Como Nossos Pais
Belchior
Álbum: Como Nossos Pais
Compositor:Belchior

Não quero lhe falar, meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo

Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa

Por isso cuidado, meu bem, há perigo na esquina!
Eles venceram e o sinal está fechado pra nós
Que somos jovens
Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
É que se faz o seu braço, o seu lábio e a sua voz

Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantado como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
O cheiro da nova nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração

Já faz tempo eu vi você na rua cabelo ao vento gente jovem reunida
Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais

Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não se enganam, não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que tou por fora ou então que tou inventando
Mas é você que ama o passado é que não vê
Mas é você que ama o passado é que não vê
Que o novo sempre vem

Hoje eu sei que quem deu me deu a ideia de uma nova consciência e juventude
Está em casa guardado por Deus contando vil metal
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais

2 comentários :

  1. Ótimo! Neste caso, estamos comparando : - " Diamante com Diamante " - Independentemente da Escolha que se Faça, será apenas uma questão de Gosto ou Preferência, pessoais... O que os Difere, é a "Lapidação Individual"... Mas "Ambos", são "Jóias Finas e Raras", de Valores Inestimáveis...

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  2. Ambos gênios. Chico tem mais estética, mas acho que Belchior tem mais a dizer. A parte disso, não tem o que comparar, são dois gigantes. Ambos, sem dúvidas, viverão mais do que a morte planeja. E viva a nossa MPB, que, de tão rica, nos deu o privilégio de conhecer poetas como Belchior, Ednardo, Chico, Caetano, Vinicius, Paulo César Pinheiro, Geraldo Vandré, Cacaso, Aldir Blanc, Torquato Neto...

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