segunda-feira, 1 de maio de 2017

A política em novo estilo


Nilson Lage

O que há de comum entre Yanis Varoufakis, Emmanuel Macron, Angela Merkel, Marinne Le Pen e João Dória?

A resposta é que são criaturas de uma realidade diferente daquelas que conhecíamos. Varoufakis é um economista que tentou impor ao governo grego, em 2015, a linha dura com o Banco Central Europeu e, claro, se deu mal; Macron, o sujeito que está onde está para provar que tudo, quando muda, é sempre a mesma coisa; Merkel a imitação de Rainha Vitória com diagramação germânica; e Le Pen, a direita ocupando espaços radicais que a esquerda deixou vagos.

Como nações independentes, a Grécia, a França, a Alemanha deveriam dispor de sua moeda, mas quem manda no dinheiro deles é o Banco Central da Europa que não foi eleito; e de seus exércitos nacionais, agora incorporados à Otan, que obedece ao comando do General Curtis Scaparrotti, dos Estados Unidos.

Sem exército e sem moeda, resta o quê? A língua, a cultura, a etnia...

Quando estive em Paris, pela primeira vez, no início da década de 1970, hospedado em um hotelzinho da Rue d’Amboise, lembro-me que pedi em um quiosque uma caixa (vermelha) de cigarros “Dan-rríl” (Dunhill) e a cara do sujeito que me atendeu avermelhou de repente: Duu – níil, o nome é “Du-níl”, gritava, trêmulo. 

Voltei em 2003. em missão do governo, e me hospedei num hotel de Chambronne, de uma rede que se encontra em quase todo lugar. Precisava ir a pé ao Palácio da Unesco, que fica ali perto, e perguntei como chegar lá a um rapaz de gravata que pilotava uma moto pequena, scooter, tipo Lambretta (ouVespa). Comecei: “Le Palais de l’Unesco… Comment...”, e o rapaz, em inglês novaiorquino, indicou-me o caminho. 

Minha filha mais nova está agora de mudança para a França e eu lhe perguntei como ia com o idioma. “Bem”, ela me respondeu, “Mas não tenho muito como treinar. Os franceses só falam comigo em inglês”

Em 1970, olhando o movimento na calçada dos Champs Elysées, reparei: “Como esse povo é branco!”. Em 2003, na mesma perspectiva, mentiria se dissesse o mesmo. 

Parece inevitável que as nações europeias, que tanto moveram para lá e para cá suas fronteiras em periódicos morticínios, tenham o mesmo destino da Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta: fundada na Palestina no tempo das Cruzadas, é hoje, reconhecida internacionalmente, ostenta bandeira e brasão, mas só. De prático, toma conta de alguns hospitais.

Quando falo da Europa, falo do mundo. A revolução industrial migrou para o Oriente e o capital se desligou, por aqui, de qualquer compromisso com a produção e as coisas desse mundo, como governos. Os novos senhores dispensam os Estados como intermediários; só não sabem ainda como acabar com eles. Tanto controlam bordéis quanto escolas, jornais quanto fábricas de salsichas. A única mercadoria de que entendem é o dinheiro, e este, inesgotável como a série numérica, é uma espécie de Macunaíma, que não é mau nem bom, porque não tem caráter algum.

Se alguém me perguntar o que o João Dória tem com isso, direi que é apenas uma figura de estilo.

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