quarta-feira, 24 de maio de 2017

A enfermidade bizarra da elite branca


A Folha publica sempre três artigos de opinião de jornalistas, na página 2, indicados pelo local de onde falam: São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro. Aos cariocas cabe falar de temas "leves", em geral em tom meio nostálgico - ou então da violência em sua própria cidade. Nem é preciso apontar como essa regra revela o apego dos paulistanos aos estereótipos relativos ao Rio. Mesmo quando destilam seu ódio à esquerda, como fazem sempre dois ocupantes regulares do espaço, Carlos Heitor Cony e Ruy Castro, deve ser assim, de forma "leve" e nostálgica.

Hoje escreveu Ruy Castro. Sua coluna termina com uma interessante transição do "fora PT" para o "são todos iguais", típica de muita gente dessa direita envergonhada. Mas eu quero falar é do começo do texto. Reproduzo:
"Não sei como é hoje, mas, no passado, os pais se metiam para valer no futuro profissional dos filhos. Não importava que o garoto levasse jeito para o boxe, a taxidermia ou mesmo o corte e costura - a possibilidade de abraçar alguma dessas especialidades era mínima. Num país sem opções, o normal era que ele se voltasse para uma das três grandes carreiras: medicina, engenharia e direito. Talvez ainda seja assim".
Ruy Castro deve ter chegado à idade de decidir sua vida profissional em meados dos anos 1960. Naquela época, o número de estudantes no ensino superior brasileiro ficava por volta de uns 300 mil, num país que já tinha mais de 80 milhões de habitantes (um estudante universitário para cada 250 ou 260 brasileiros; hoje, a relação é cerca de um para 30 e o acesso à universidade continua longe de ser universal). Cerca de 40% dos brasileiros eram analfabetos. O "normal" certamente não era ser médico, engenheiro ou advogado. O "normal", para a esmagadora maioria das pessoas, era ser lavrador, pedreiro, balconista, empregada doméstica, vendedor ambulante.

O que leva Ruy Castro a ignorar todo esse contingente de pessoas é uma enfermidade bizarra, mas endêmica entre os grupos privilegiados: a incapacidade de ver os diferentes. A empregada que preparou seu café da manhã, o porteiro que lhe espera na entrada no prédio, a garçonete que lhe atende no boteco, o balconista da farmácia, nenhum desses aparece a ele como uma pessoa, com suas ambições, suas vontades, seus problemas, seus sonhos, alguns realizados, muitos frustrados. Por isso, ele pode generalizar a partir do que foi a sua experiência e a dos seus amigos ou do que é, hoje, a experiência de seus netos, dos amigos de seus netos e dos netos de seus amigos. Os outros não existem. É uma forma de desumanização, tão perfeita que nem é percebida.

Para mim, o melhor exemplo dessa postura, pelo grau de cegueira voluntária que expressa, ainda é a infame entrevista que o jovem Aécio Neves deu ao jornal da cidadezinha estadunidense na qual fazia intercâmbio, em 1977. Contando como era a vida no Brasil, ele explicou que "todo mundo tem uma empregada ou duas; uma para cozinhar, outra para limpar". Por isso, "a vida das mulheres é fácil no Brasil"; elas "podem passar a maior parte de seu tempo na praia ou fazendo compras". Fica claro, portanto, que para o jovem Aécio a "empregada" não faz parte da categoria "mulheres".

Na mesma entrevista, o jovem Aécio contou que nunca na vida tinha arrumado a própria cama. Também por isso uma temporada na cadeia pode se revelar instrutiva.


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