quinta-feira, 27 de abril de 2017

O pós-jornalismo de pós-esgoto da Folha de S. Paulo


A imagem é da capa do jornal Folha de S. Paulo de hoje. Fala "alunos", genericamente, mas são 14 (catorze) estudantes de um colégio privado frequentado pelos filhos dos ricos paulistanos, um dos dez mais caros da cidade, que divulgaram uma carta aberta contra a decisão de seus professores - que se uniram a muitos outros assalariados brasileiros e decidiram parar amanhã, na #GreveGeral contra o fim dos direitos trabalhistas e previdenciários.

Catorze estudantes ganham chamada de capa daquele que afirma ser o maior jornal brasileiro. Nem vou discutir o texto que eles divulgaram, onde se lê que "defender políticas públicas pautadas em ideais de 'justiça' e 'defesa dos mais pobres' é meio caminho andado para a irresponsabilidade fiscal". (Não acredito que um adolescente, por mais imbecilizado que esteja, possa produzir um texto assim.)


Também não vou discutir a reportagem da Folha, que logo passa dos estudantes para seus pais enraivecidos e tem o nítido objetivo de passar um recado às escolas privadas: reprimam seus empregados ou perderão seus clientes. Nem vou me estender sobre a declaração do pai de dois dos catorze neoliberais mirins, que reclama que os professores tomaram decisão unilateral, que devia ter sido "mais discutido antes". Ele sabe o que é uma greve? E, sobretudo: que discussão houve antes do governo golpista decidir abolir a aposentadoria?


Vou deixar tudo isso de lado. Mas resta a questão: qual a relevância de um manifesto assinado por catorze estudantes, a ponto de receber uma chamada de capa da Folha? Quantos manifestos de coletivos populares, representando grupos muito mais significativos, com reflexões e reivindicações muito mais sérias, são simplesmente ignorados pela imprensa? Quantas manifestações, greves, enfrentamentos, boicotes ocorreram nas últimas semanas, que reuniram centenas ou mesmo milhares de pessoas, que não foram sequer noticiados, muito menos na primeira página? Quantas lideranças camponesas e indígenas são assassinadas sem que seu nome apareça no jornal?


O jornalismo profissional tem dedicado muito espaço para discutir a "pós-verdade". Podia começar consigo mesmo.

Um comentário :

  1. E por que tem professores que assinam essa MERDA!

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