terça-feira, 25 de abril de 2017

O médico Palocci e o paciente Sérgio Moro

Luís Mir 

Gostaria de fazer algumas observações simplórias sobre o depoimento do Antonio Palocci ao juiz Sérgio Moro em Curitiba. Mais que simplórias, irrelevantes.

1. Não se pode dissociar a pessoa de sua formação (teórica, profissional). Antonio Palocci é médico. Foi treinado como médico. Tem olhar clínico, sabe diagnosticar o paciente que tem diante de si. E mesmo que empiricamente, colherá a história, fará a anamnese, e tentará observar os sinais e sintomas do paciente que tinha diante de si, mesmo que o paciente seja passivo, e até reativo. Nesse caso, o paciente era o juiz Sérgio Moro. E ele colheu a história dele, ou seja, conseguiu que o paciente lhe dissesse o que tinha em mãos, exatamente. E a partir disso começou a diagnosticar o processo, as provas, as acusações, clinicamente. Ou seja, começou a investigar o caso, seu processo. Clinicamente falando, o que era grave, muito grave, crônico, terminal. 

2. De todos os réus que passaram pelo juiz Sérgio Moro, Antonio Palocci é o mais brilhante, articulado. E a última carta desse jogo de pôquer que o PT tem. É o único que sinalizou o tamanho do mal, sua origem, desenvolvimento, possível medicação, possível controle. Pela primeira vez, vi o juiz Sérgio Moro acuado. Dito de outra forma, Antonio Palocci o desmontou. Para responder as duas inquirições que o juiz lhe faria, ele construiu uma rede de contraprovas para as falhas que encontrou no processo que deixou atônitos a todos no tribunal. E fez um exercício de ironia reversa, o senhor precisará de tempo para me escutar, porque eu tenho todo o tempo que for necessário, a qualquer hora, e dia. Ou seja, você terá que me escutar. 

3. Nessa primeira experiência entre esses dois personagens fascinantes, ganhou o médico, perdeu o paciente juiz. Claro que eles não estão num hospital, ou numa clínica, ou numa consulta. Um está preso e outro tem a legislação penal na mão para fazê-lo pagar pelos crimes que tenha cometido. Mas no momento em que o embate foi entre os dois, do médico com o juiz, o paciente, que esperava receber um diagnóstico de que tudo estava normal e saudável, e que a alta seria breve, recebeu um diagnóstico diferenciado: precisará mais de um ano para tratar o mal que tem em mãos. E para que o médico, Antônio Palocci, continue atendendo-o. Brilhante.

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