domingo, 9 de abril de 2017

O constrangedor artigo de Herman Benjamin na Folha de S. Paulo

Luis Felipe Miguel

É constrangedor o artigo de Herman Benjamin - o corregedor do TSE, relator do processo de cassação da chapa Dilma-Temer - na Folha de hoje. É um festival de lugares-comuns, com um indisfarçável pé na breguice - "o momento atual do Brasil preocupa a todos"; "as crises trazem o potencial para mudarmos para melhor"; "o ótimo é inimigo do bom".

O pretexto é a reforma eleitoral, tema no qual Benjamin também força a mão na sabedoria convencional bem pensante e nas platitudes inócuas: "sem sólido e legítimo regime político-eleitoral, nunca teremos a paz e a estabilidade social e econômica necessárias ao progresso contínuo"; "não queremos o estado atual das coisas, em que impera a descrença do eleitor na força de transformação do voto popular e dos partidos"; "não queremos que políticos honestos e dedicados à causa pública sejam arrastados à vala comum de uma minoria de ímprobos".

Ao final do texto, não há uma única pista de qual reforma eleitoral Benjamin propõe. A reforma eleitoral é importantíssima, diz ele, mas pelo jeito não há sequer a sombra de um veredito sobre os problemas do nosso sistema eleitoral atual ou uma diretriz que nos ilumine sobre aonde queremos chegar.

O sentido do artigo, acho eu, é outro. Todos os relatos dão conta de que Benjamin é muito ambicioso e almeja o STF. O texto na Folha sinaliza, sem alarde mas com clareza, que ele pode ter causado incômodo com a mise-en-scène que fez no processo da cassação da chapa presidencial, mas se alinha sem pestanejar ao golpe. Logo no começo, faz referência às "reformas setoriais importantes e urgentes, como a da Previdência e das relações de trabalho". No final, inclui uma escandalosa referência ao "otimismo e crença na solidez das instituições do Estado de Direito inaugurado em 1988".

Benjamin não chega a ser um Alexandre de Moraes, mas - é isso que seu artigo quer dizer - pode ser escolhido sem medo para qualquer cargo que o golpismo deseje lhe conceder.

2 comentários :

  1. Eu tenho temor de coisa pior. De eleição indireta, por exemplo. Porque no fundo querem na medida do possível afastar o PT e povo das escolhas, do processo eleitoral. Na verdade o que querem é mandar a democracia para os ares. O que eles todos querem é essa ditadura disfarçada e imoral dando-lhes o direito e a prerrogativa de fazer o que bem entendem, desde que mantenha o mesmo grupo no poder roubando e envergonhado a nação..

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