terça-feira, 25 de abril de 2017

Não dá mais para disfarçar os danos causados por Google e Facebook



JONATHAN TAPLIN ESPECIAL PARA O "NEW YORK TIMES"

Em apenas dez anos, a lista das cinco maiores companhias mundiais pelo critério de capitalização de mercado mudou completamente, exceto por um nome: o da Microsoft. ExxonMobil, General Electric, Citigroup e Shell deram lugar a Apple, Alphabet (a controladora do Google), Amazon e Facebook.

São todas empresas de tecnologia, e cada qual domina seu canto do mercado. O Google tem 88% de participação no mercado de publicidade vinculada a buscas, o Facebook (e suas subsidiárias Instagram, WhatsApp e Messenger) detém 77% do tráfego nas redes sociais, e a Amazon controla 74% do mercado de livros eletrônicos. Em termos econômicos clássicos, as três empresas são monopólios.

Voltamos ao começo do século 20, quando argumentos sobre a "maldição da grandeza" eram defendidos por Louis Brandeis, assessor jurídico do presidente norte-americano Woodrow Wilson.

Ele queria eliminar os monopólios porque (segundo seu biógrafo, Martin Urofsky), "em uma sociedade democrática, a existência de grandes centros de poder privado é perigosa para a vitalidade continuada de um povo livre".

Basta olhar para a conduta dos grandes bancos na crise de 2008 e para o papel desempenhado pelo Facebook e Google no negócio de "notícias falsas" para sabermos que Brandeis estava certo.

Embora Brandeis costumasse defender o desmonte das empresas de porte muito grande, ele abria exceção para monopólios naturais, como os da telefonia e ferrovias, onde fazia sentido ter uma ou algumas poucas empresas no controle de um setor.

Teremos de decidir, em breve, se Google, Facebook e Amazon são a espécie de monopólio natural que precisa ser regulamentado ou se permitiremos que as coisas fiquem como estão, fingindo que eles não causam danos à nossa privacidade e à democracia.

É impossível negar que Facebook, Google e Amazon bloquearam a inovação em larga escala. Enquanto os lucros delas dispararam, o faturamento de negócios de mídia como jornais e música caíram em 70% de 2000 para cá. Mais da metade dos trabalhadores do setor de jornais foi demitida, entre 2001 e 2016.

Não são só os jornais que sofrem. Em 2015, dois assessores econômicos de Barack Obama, Peter Orszag e Jason Furman, publicaram estudo no qual argumentavam que a ascensão dos "retornos supranormais" sobre o capital, no caso de empresas que enfrentam concorrência limitada, estava levando a uma alta na desigualdade econômica.

Não tenho ilusões de que, dada a presença de magnatas libertários da tecnologia no círculo mais próximo de conselheiros do presidente Donald Trump, a regulamentação da internet possa vir a ser prioridade. É provável que tenhamos de esperar quatro anos e, quando o momento enfim chegar, é provável que os monopólios se tenham tornado tão dominantes que a única saída será dissolvê-los.

Wilson estava certo ao dizer, em 1913, que, "se o monopólio persistir, sempre estará no leme do governo".

Tradução de PAULO MIGLIACCI

JONATHAN TAPLIN é diretor emérito do Annenberg Innovation Lab, na Universidade do Sul da Califórnia, e autor de "Move Fast and Break Things: How Google, Facebook and Amazon Cornered Culture and Undermined Democracy" [aja rápido e quebre coisas: como Google, Facebook e Amazon encurralaram a cultura e solaparam a democracia].

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