domingo, 23 de abril de 2017

Jornalismo e ciência

Deus joga dados em não-acontecimento da Champ Élysées 


Enquanto a Ciência tenta compreender a realidade a partir de fenômenos recorrentes e eventos sincrônicos, o Jornalismo ainda crê em acidentes, no acaso e nas fatalidades.

A busca por recorrências (regularidades mensuráveis e exteriores ao sujeito) é uma das abordagens do método científico. Procura por redundâncias que possam indicar padrões. Importante por apontar possíveis funções e interações até então desconhecidas. Tão importante que para a Teoria da Informação é o próprio fenômeno informacional: redundâncias são a base dos modelos matemáticos que permitem a codificação de uma informação.

Saindo das ciências exatas, existem também as denominadas “coincidências significativas”, que o psicanalista Carl G. Jung definiu como “sincronicidades” – acontecimentos que se relacionam não por relação causal, mas por relação de significado.

Porém, quando entramos no Jornalismo tudo muda de figura: se alguém procurar sentido em recorrências ou sincronismos será pejorativamente chamado de “teórico da conspiração”.

Por que toda semana ocorrem incêndios em favelas na cidade de São Paulo? Um repórter investigativo que abandonasse o “como” e procurasse o “porquê” nesse caso, seria no mínimo considerado um paranoico com viés esquerdista. Ora, incêndios acontecem. Ainda mais com tantos “gatos” com fios desencapados na rede elétrica desses lugares... Não importa se é um fenômeno eminentemente paulistano. Buscar conexões em recorrências pode “queimar” (desculpe o trocadilho) a carreira de um repórter.

O pior é que no jornalismo e nos fatos que a mídia cobre, além de recorrências e sincronismos ignorados, existem ainda anomalias – fatos que se assemelham a falhas narrativas, ou, como dizia o escritor Norman Mailer, “espasmos da realidade”.

Como, por exemplo, a estranha “gafe” de Donald Trump que em um discurso em fevereiro falou sobre um atentado na Suécia que até então não tinha ocorrido. Foi ridicularizado como um presidente “mentalmente perturbado”. Dois meses depois o mundo soube da morte de quatro pessoas atropeladas por um caminhão que invadiu uma calçada em Estocolmo. Previsão? Antecipação involuntária de agenda? Nunca vem ao caso – sobre isso clique aqui.

Recorrências, sincronismos e anomalias são desprezados pelo Jornalismo da grande mídia. São “teorias de conspirações”. Convém apenas reproduzir sempre as versões mais “críveis” das autoridades e das grandes agências de notícias internacionais.

Hipótese Fox Mulder

O próprio cinema parece reforçar esse estereótipo com personagens sempre histéricos, obsessivos e paranoicos envoltos com ideias fixas de conspirações. O que faz cair naquilo que o Cinegnose chama de “Hipótese Fox Mulder” – se o cinema transforma a busca por recorrências em ficção protagonizada por tipos sociopatas paranoicos, quando vemos no mundo real essa mesma busca imediatamente rotulamos como “coisa de cinema”, “conspirações hollywoodianas” etc. – clique aqui.

Por isso é simplesmente inacreditável como, em mais um ataque (dessa vez na icônica Champs Élysées), a grande mídia reporte a mesma cadeia de eventos, as mesmas anomalias e os mesmos sincronismos sem levantar uma simples questão: por que o mesmo modus operandi?

Enquanto era transmitido pela TV o último debate entre os candidatos à presidência, às 21 horas, em plena Champs Élysées, um Audi 80 prata parou ao lado de uma van da polícia estacionada em frente à estação de metrô Franklin Roosevelt. Um atirador (ou dois em outras versões) saiu do carro e abril fogo contra os policiais.

O que criou uma onda de pânico com pessoas correndo em todas as direções, turistas em fuga atropelando cadeiras e mesas de bares e restaurantes que apagaram as luzes para se proteger de outros possíveis disparos.

Em uma eleição acirrada na qual os candidatos (Marine Le Pen da extrema-direita, Emmanuel Macron e François Fillon da direita e centro-direita e Jean-Luc Mélènchon da esquerda) estão quase empatados, a última semana foi marcada por especulações da grande mídia sobre supostas ameaças de novos atentados.

Dois dias antes do tiroteio, autoridades policiais anunciaram prisões de suspeitos de “mais um ataque frustrado” (clique aqui).


Pois aqui começam as recorrências, anomalias e sincronismos de mais um não-acontecimento.

Leia o artigo completo AQUI

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