domingo, 16 de abril de 2017

Folha de S. Paulo apresenta provas de que não pratica jornalismo

Luis Felipe Miguel

"Contratos, extratos e notas endossam teor de delações", diz a manchete da Folha.

A reportagem na página 4 traz um grande box com os tais documentos. Há um contrato com empresa de Duda Mendonça que seria para disfarçar caixa 2 na campanha de Paulo Skaf. Há comprovantes de transferência para contas no exterior que seriam de Eduardo Cunha, de José Serra e de João Santana. Há pagamento para o marqueteiro de Aécio Neves, que também seria caixa 2.

Nenhum documento, em si mesmo, prova nada. Eles permitem que se investigue a veracidade das denúncias, mas, por enquanto, são apenas pedaços de papel aos quais os delatores da Odebrecht deram determinadas interpretações.

Chamam a atenção, no entanto, dois dos documentos incriminatórios destacados pela Folha, aqueles que atingem o ex-presidente Lula e a presidente Dilma. Contra Lula, a escritura do terreno que a Odebrecht comprou em 2010 - aquele que "seria" para a construção da sede do Instituto Lula, mas que nunca foi repassado a ele. O que a escritura mostra? Que uma subsidiária da Odebrecht comprou um terreno. Continua não havendo nada que indique que o Instituto Lula era a destinação da compra e, muito menos, que Lula ou o Instituto tivessem alguma coisa com isso.

Contra Dilma, a "prova" é mais bizarra ainda. Para mostrar que tinha proximidade com a presidente, Marcelo Odebrecht apresentou uma planilha que ele mesmo fez indicando que tinha ligado para ela em tais e quais dias (nove vezes em 2013, pelo que mostra o jornal, com durações entre 53 segundos e pouco menos de oito minutos). Nem vou discutir se esse volume de ligações comprova proximidade - afinal, eram a maior empreiteira do país, com inúmeros contratos com o governo, e uma presidente conhecida por microgerenciar os projetos em andamento. O ponto é que, se eu quiser, posso preparar agora mesmo um planilha "provando" que eu converso todos os dias com Napoleão. E, como não tenho imóvel, posso pegar o documento do meu carro e dizer que o comprei para dar de propina para a rainha da Inglaterra, mas como ela não quis estou rodando com ele até hoje.

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