domingo, 9 de abril de 2017

A República da Carteirada

Tony Ferraz 

Eu não sei se é um fenômeno majoritariamente brasileiro, quem mora fora talvez possa me responder. Eu tenho uma impressão que a maioria dos profissionais não estuda a própria área de especialidade. Não estudam, mas dão depoimentos convictos, como se, apenas por trabalhar em um campo, ou ser chamado "advogado", "psicólogo", "educador físico" suas palavras, ao serem proferidas, transformassem o mundo e se materializassem em verdades. Nada de estudo de pesquisas científicas, nada de embasamento na literatura. Todo santo dia eu leio "especialistas" afirmando besteiras absurdas com arrogância; nas mais variadas áreas. É inevitável a impressão que adquirir competências verdadeiras aqui não é importante, apenas credibilidade social por meio de pose, contatos e status. 


Faz alguns dias, um professor de direito constitucional de uma grande universidade da Bahia discutiu comigo no Facebook, alegando que Moro poderia mandar conduzir coercitivamente o blogueiro porque ele não era jornalista (a primeira parte da afirmação já me demonstrava desconhecimento da lei, mas a segunda me assombrou). Aí questionei que o STF havia decidido de forma diferente faz anos. Ele então postou, com arrogância, uma matéria de jornal qualquer que detalhava que o congresso planejava mudar e que fora aprovado em primeira instância. Ora, uma aprovação em primeira instância não é uma aprovação completa, até eu, leigo em direito sei disso. Fui olhar na Constituição e vi que o artigo não estava alterado. Por fim, pesquisei a tramitação e vi que a votação está parada desde 2015. Dá-se carteirada no Brasil por qualquer coisa; uma pessoa mais acanhada poderia vacilar ante a autoridade do interlocutor e sua convicção, mas basta pesquisar um pouco para observar que o preparo da média é pífio. Uma elite intelectual e financeira medíocre. Falam qualquer coisa. 

Um comentário :

  1. É o famoso argumento de autoridade.
    A mídia explora isso pra caramba.
    GloboNews é pródiga nessa canalhice, sempre com um "especialista" para as teses que eles pretendem provar.
    De tanto usar o expediente, chega um dia que dá errado. Vai lá um cara que fala algo um pouco (nem precisa ser muito) diferente do que eles queriam ouvir (ou melhor, que queriam que o incauto espectador ouvisse) e pronto: o tal convidado nunca mais mostra a carinha por lá.

    Sidnei

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