sábado, 18 de março de 2017

Não existe alimento natural

Nilson Lage 

O que estão fazendo com a área de nutrição é um exemplo do processo de retorno ao útero da sociedade.

Os alimentos que o homem consome são industrializados desde que a cultura existe. Cozidos, fritos, moídos, amassados, triturados, conservados por desidratação, salga, embutimento, congelamento, pasteurização; livrados de cascas, caroços, venenos (caso da mandioca). Vegetais e animais foram domesticados, selecionados geneticamente (o milho, originalmente, tinha espigas similares ao do capim), mutilados (o milho, por exemplo, não se reproduz se não for plantado – e quem fez isso com ele foram os índios, não a revolução industrial).

Em suma: 

Não existe alimento natural.

O glúten, a proteína do trigo e de outros cereais (cevada, centeio), é consumido há milhares de anos. O trigo, especificamente – o pão – é símbolo do alimento nas religiões ocidentais. Entre um e dois por cento das pessoas apresentam intolerância genética à gliadina, prolamina do glúten, e, em decorrência, alteações no metabolismo ou reações cutâneas. 

A lactose é o açúcar do leite (galactose + glicose), alimento de origem animal utilizado pelo homem desde tempos imemoriais. Para a digestão da lactose, as células da parede do intestino delgado produzem uma enzima, a lactase; a capacidade de produção é variável e determina o limite da tolerância. Não havendo lactase, a lactose não é digerida, vai em bruto para o intestino grosso, fermenta com as bactérias intestinais e resulta em diarreia. Independente disso, há um número muito pequeno de pessoas que têm alergia à proteína do leite (no caso, de vaca).

A intolerância à lactose, assim, diferentemente da doença cilíaca, reporta-se à quantidade ingerida. Admite-se que povos europeus, após séculos de consumo de derivados do leite como fonte proteica (manteiga, queijos, iogurtes), desenvolveram produção maior de lactase na idade adulta, se comparados a povos africanos ou asiáticos. 

Tanto glúten (e trigo) quanto leite (e lactose) não “fazem mal” nem “devem ser evitados”, salvo quando ocorre um desses impedimentos. 

O consumo excessivo de qualquer alimento é desaconselhável. De modo geral, a alimentação humana deve ser variada. 

O perigo universal do marketing de produtos da industria de alimentos está muito mais na padronização do consumo do que nos riscos específicos do processo industrial.

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