sábado, 18 de março de 2017

Carne fraca: como se informar com essa mídia, essa PF e esse judiciário?


O nosso maior problema é a nossa mídia. E é fácil entender por que.

Num mundo em que somos bombardeados com todo tipo de informação, precisamos mais do que nunca de uma referência.

Não estou falando de ideologia. Estou falando de credibilidade, do elementar respeito à verdade factual.

Então estoura esse escândalo da carne, com o espalhafato típico das nossas operações policiais.
Daí, naturalmente, todo mundo começa a se alarmar.

E a comentar sobre a "carne podre", "cancerígena", "misturada com papelão".

Jornais, sites, redes de TV espalham o alarme.

Detalhe: jornais costumam traduzir para o "popular" os termos científicos, para melhor compreensão. Salvo quando pretendem o efeito oposto ao de esclarecer.

Então escrevem que utilizaram ácido ascórbico para maquiar a podridão da carne.

Preferem a denominação científica ao que popularmente atende pelo nome de vitamina C.

(Aqui, uma pequena digressão: chegam até a buscar comprovar, como foi o caso do R7, que vitamina C em excesso dá câncer. Ok, é um longo processo: essa vitamina em excesso favorece o cálculo renal, que prejudica os rins e pode levar ao câncer etc. 

E entrevista uma nutricionista que diz que a quantidade máxima de vitamina C por dia é de 45 a 50mg, o que corresponde a uma laranja, uma fatia de mamão ou de manga etc. 

De modo que esses comprimidos de vitamina C com 1g deveriam ser banidos do mercado, naturalmente. 

E, considerando que ninguém faz suco de laranja com apenas uma unidade da fruta, já devemos ter uma multidão com tendência a desenvolver câncer).

Eu, francamente, gostaria de saber como é possível maquiar uma carne podre. É uma pergunta sincera, não é ironia. É uma pergunta que eu faria a quem tivesse conhecimento especializado e não fosse canalha.

Eu ontem mal acompanhei o estardalhaço todo. Procurei me informar melhor hoje. Não encontrei nenhuma referência detalhada aos tais "produtos cancerígenos" (que às vezes vinha acompanhada da referência à merenda escolar, só pra piorar a situação: estão envenenando nossas crianças etc).

Liguei a TV e vi o trecho da conversa que fala sobre o uso de papelão. Ficou evidente que o sujeito se referia a embalagens. Foi o que, aliás, a empresa acusada assinalou, dizendo que era um erro grave da polícia a interpretação que circulou, de que o papelão era misturado à carne.

É inacreditável a irresponsabilidade. Da polícia, sim, mas da mídia, também.

Isto não quer dizer, obviamente, que não existam irregularidades. Que não exista corrupção (aliás, há quanto tempo, não é?) entre fiscais e empresários. Mas não seria demais desejar que as coisas fossem colocadas nos seus devidos termos.

Nós já deveríamos estar escaldados, mas não estamos.

Me impressiona muito ver gente inteligente disseminando essas coisas.

Quanto ao contexto em que essa operação é deflagrada, escrevo em seguida.

::::::::::::::::::::::: Sylvia Moretzsohn ::::::::::::::::::::::: 

Ainda sobre o escândalo da "carne podre", li vários posts a respeito do contexto em que a operação vem a público.

Críticas à indigência da esquerda que defende as empresas. Algumas críticas bem-feitas, como a do Luis Felipe Miguel.

Porém, denunciar os interesses em jogo não pode significar o apoio a empresas que exploram (exacerbadamente, bem entendido) seus trabalhadores (a propósito, o documentário "Carne, osso" é muito instrutivo, e o silêncio da mídia, também), desmatam, corrompem, adulteram produtos.

Não é possível que fiquemos na lógica binária: ou entramos na pilha midiática e execramos os produtores da "carne podre", ou somos execrados porque (supostamente) os defendemos.

Marcos Kalil Filho argumentou muito bem: "Não é exatamente surpresa que haja aqui e ali um negócio desses, mas colocar todo o segmento ('Todo o mercado de carnes está sob suspeita') sem dar dados mais precisos é muito estranho".

Ontem e hoje circulam notícias sobre as consequências óbvias dessa operação na economia.

Por isso acho muito relevante compartilhar o comentário do Nilson Lage, a respeito do quadro e das consequências de tudo isso.

"Vocês nem imaginam o alcance do escândalo armado pelos agentes americanos empregados na Polícia Federal.

A luta pelo mercado de bois, frangos e suínos é uma duríssima peleja internacional, em que leis sanitárias são usadas amplamente como barreiras políticas.


Vastas áreas do país, dentre as mais prósperas, dependem da pecuária. Indiretamente, são atingidos setores dinâmicos da indústria - veículos, máquinas agrícolas - e a agricultura ocupada dos insumos alimentares destinados ao gado.


Só um país decadente, com um governo de lacaios, mídia irresponsável e forças armadas à Pôncio Pilatos, permite que um grupelho de meganhas faça um estrago desses".



Repito: não é possível que continuemos a ignorar isso

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