sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Uma Morte Anunciada Numa República de Canalhas


Francisco Costa
“Querem me prender, prendam. Querem me matar, matem. Mas deixem a coitada da Marisa em paz." (Lula)
Dona Marisa Letícia nasceu na roça, num sítio, no interior.

Quando tinha cinco anos de idade os seus pais se mudaram para a cidade grande e a menina, com nove anos, tornou-se babá, cuidando de três crianças.

Aos 13 já trabalhava na fábrica de Chocolate Dulcora, embrulhando bombons.

Casou-se precocemente, grávida, com um motorista de táxi, enviuvando com seis meses de gravidez, com o marido assassinado quando era assaltado.

Voltou a trabalhar, agora como inspetora de alunos, até que conheceu Lula, quando ele iniciava carreira no sindicato, engravidou novamente e parou de trabalhar.

O trabalho precoce e continuado não nos faz fortes, a parte mais fragilizada do proletariado é justamente a da chamada mão de obra não qualificada, os de poucos estudos, vindos do interior, principalmente do Nordeste.

Dona Marisa não era forte. Era sim, sensível, retraída, quase tímida, muito mais mãe, esposa, dona de casa que uma deslumbrada com a notoriedade, a exposição pública, ao contrário da atual pretensa primeira dama, porque de marido sem voto e sem moral.

Foi esta mulher que viu os seus filhos acusados de serem donos de jatos de milhões de dólares, da maior exportadora de proteína animal do mundo (Friboi), de iates colossais, mega-fazendas.... Sendo vítimas da execração pública, sabendo que tudo isso era e é mentira. Amor de mãe não se maltrata assim.

E a esposa, a mulher apaixonada que, mais que confessar, mostrou em cada olhar dirigido ao marido o orgulho de quem ama, vendo o seu homem sendo carregado como um reles bandido, um perigoso terrorista, numa condução coercitiva não precedida de citação, sequer de um comunicado.

Que viu seu homem ser chamado de ladrão, chefe de quadrilha, proprietário de fazendas, empresas, iates, depois com tudo reduzido a um sítio que comprovadamente não é dele, e um tríplex com o processo arquivado não por falta de provas, mas pelas provas de que não é dele (a mídia ainda não noticiou isso).

Marisa conheceu a humilhação: quando o marido ainda candidato pela primeira vez, uma equipe da Globo invadiu e casa de Lula e os flagrou tomando café.

No dia seguinte a reportagem de que não usavam talheres, mas seguravam o queijo com um pedaço de papel de pão, prática comum entre pobres, incomodando a elite.

Depois a piada de Chico Anísio, com larga repercussão: Lula eleito, Dona Marisa do lado, entrando no Palácio do Planalto, e o comentário de Dona Marisa: “Bem-ê, eu não vou dar conta do serviço não, é muita vidraça pra eu limpar”, a piada que melhor estampa o preconceito de classe, o desprezo pelo pobre.

Se a mãe e a mulher foram aviltadas, humilhadas, vilipendiadas, a pessoa não foi menos.

Imagine acordar de madrugada com a casa invadida por homens vestidos com farda de camuflagem, super armados, revirando a casa toda, tirando roupas das gavetas, virando poltronas, o barulho dos helicópteros sobre o telhado, a mídia filmando, fotografando.... Para não se provar nada, um simples espetáculo midiático, patrocinado por insignificante figura a soldo do governo dos Estados Unidos, com a missão de destruir a economia nacional e asfaltar a estrada que levaria a um golpe de estado.

A mulher nunca dirigiu uma empresa pública, uma entidade privada, nunca mais trabalhou, depois quem foi mãe pela segunda vez, como corrupta? Ainda que fosse ladra, e não era, que possibilidade teria tido para roubar? Mas estava na mídia: ladra, corrupta! E lá estava nas redes sociais: ladra, corrupta! O que não foi o bastante, um gangster de toga a indiciou por corrupção.

Mulher doméstica, mais mãe e vó, esposa, que notável, abria as redes sociais para ler de si puta, vaca, vagabunda.

Por coincidência, o seu AVC chegou no dia em que o American Judge arquivou o processo, pelas provas de que não era de Dona Letícia, a partir dos documentos que ele sempre teve em seu poder, desde o início do processo.

Que sentimentos teriam possuído Dona Marisa, ao saber disso, senão profunda indignação: tanto sofrimento, tanto desgaste da sua imagem, tanta infâmia, para concluírem que ela nunca mentiu, o tríplex nunca foi dela.

Junte tudo. A um homem de fibra, com sequelas, é verdade, como Lula, tudo isso é suportável, mas para a fragilidade de uma mulher simples, não.

E veio o AVC, a agonia e a morte.

O assassino tem nome, o promotor da tortura psicológica tem nome: Sérgio Fernando Moro, o que a história reserva para ser colocado ao lado de Joaquim Silvério dos Reis e Cabo Anselmo, compondo o triângulo da traição, o da torpeza encarnada quase humana.

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