terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Uma escolha criminosa

Luis Felipe Miguel

A manchete da Folha é engraçada: "Temer cede a pressão e indica Moraes para vaga no Supremo". Daí, na capa mesmo, o texto diz que "entre os que estavam cotados, o ministro da Justiça é o mais próximo a Temer". Ou seja, Temer cedeu a pressão... e escolheu seu favorito.

Dentro, o jornal joga repetidas vezes a carta Dias Toffoli. Já que é impossível esconder que a nomeação de Alexandre de Moraes é um escárnio, o negócio é dizer que "é normal" porque Lula fez o mesmo. Só que não é o mesmo.

Longe de mim defender a escolha de Toffoli para o STF. Lula, tanto quanto Dilma, em geral nomeou um pessoal mais conservador e/ou cheio de pontes com a elite política tradicional, que não assustasse ninguém. Quando decidiu bancar um nome, foi Toffoli, um sujeito sem estofo e sem fibra, muito aquém do cargo que ocuparia. Foi uma péssima escolha.

O problema não é Toffoli ter sido filiado ao PT, assim como não é Moraes ser filiado ao PSDB. Filiação partidária é uma formalidade. Advogados têm posição política, não adianta fingir que não.

Mas de Toffoli não se podia dizer que tivesse demonstrado repetidamente desapreço pelos direitos humanos e pelas liberdades civis. Que fosse um entusiasta da truculência policial. Que sugerisse que a tortura pode ser um mal necessário. (Sem falar em suspeitas de enriquecimento ilícito e conexões mal esclarecidas com o crime organizado.)

Toffoli, devoto do amor fraterno, mudou de lado assim que assumiu a cadeira no Supremo e tornou-se o que hoje é, um mascote de Gilmar Mendes. Como todos os seus colegas, foi incapaz de cumprir o dever de proteger a Constituição e a democracia. Em suma: foi realmente uma péssima escolha. Mas Moraes já exibe, desde agora, desapreço pela Constituição, ou pelo que resta dela, e ojeriza à democracia. É pior que uma péssima escolha. É uma escolha criminosa.

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