sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O cinismo de Paulo Hartung e Miriam Leitão

Sylvia Moretzsohn

Hoje de manhã eu vi o repeteco da entrevista do Paulo Hartung à Míriam Leitão. 

Ok, eu sei que a gente precisa fazer meditação e tentar levitar antes de ligar a TV. 

Mas eu achei que deveria deixar ligada, depois de tentar conferir o que diziam sobre a "normalidade" da situação no Rio.

Achei interessantíssimo o discurso do Hartung. Como se estivesse dando um exemplo ao Brasil. Como se estivesse se apresentando para algo maior. 

Mas o mais interessante foi que, no meio das justificativas todas, ele mandava a propaganda que está nas entranhas do projeto do golpe: "qual a justificativa de estabilidade no emprego? como pensar em aposentadoria aos 48, 49, 50 anos?". 

Se tivéssemos uma jornalista do outro lado, ela poderia esclarecer que a estabilidade sempre se justificou como forma de o servidor não ficar à mercê do governante de turno, porque, por um tautológico princípio, o serviço público deve servir ao... público. Impessoalmente. (ok, isso é risível no país que dá aos amigos tudo e reserva aos inimigos a lei, mas o princípio é este e abandoná-lo é aderir francamente à lei da selva).

Sobre a aposentadoria nessa faixa etária, naturalmente o governador deveria estar pensando em seus parceiros. Mas, como se sabe, a falácia é elemento fundamental nesse tipo de discurso, que confunde propositalmente as coisas. 

Por fim, o martelar incessante na acusação aos governos anteriores (do PT, naturalmente) pelo ponto a que chegamos, decorrente da desobediência da lei de responsabilidade fiscal, e a reiteração da necessidade de cumpri-la (algo que a Míriam questionou: "não teria ido muito longe"? Notável o cinismo de quem sempre defendeu essa medida, mas eu não vou perder tempo em criticar essa tropa de choque da imprensa, porque já estamos cansados de saber de tudo isso). 

Pois a lei de responsabilidade fiscal, na metáfora rasteira e enganadora que compara a vida doméstica com a gestão pública, preconiza que ninguém deve gastar mais do que pode. Usando a mesma metáfora, significaria dizer que, se uma família enfrenta uma situação imprevista (digamos, uma doença grave), precisa continuar honrando seus compromissos. Se o doente morrer, paciência. 

Pena que Miriam não tenha usado esse argumento.

Mas por isso mesmo a entrevista foi muito interessante.

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