quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Delfim Netto e o pensamento da direita

O Homem Delfiniano

Luis Felipe Miguel

Vale a pena ler a coluna de Delfim Netto na Folha de hoje. Não pelo que ele diz, que é banal e fajuto, mas por ser uma boa ilustração do pensamento da direita, por alguém que ainda é considerado um dos cérebros pensantes do conservadorismo no Brasil.

O argumento, em resumo, é que nosso romantismo diz que vivemos tempos terríveis, mas na verdade são "tempos normais", porque a humanidade é sempre assim. O "homem", termo pelo qual ele se refere aos seres humanos em geral, é um "animal territorial" que preza mais as riquezas do que a própria vida, embora seja capaz de demonstrações episódicas de altruísmo (mas a ilustração que Delfim apresenta não é propriamente de altruísmo, mas de empatia).

O texto sugere que o problema está nesses momentos de altruísmo. São eles que levam alguns sonhadores imaginar que é possível um mundo melhor, que "bastará eliminar o capitalismo para reduzir a agressividade e aumentar a solidariedade" - o que Delfim deixa claro que é uma bobagem.

Há no texto um pouco de desonestidade intelectual, porque o inimigo que Delfim está abatendo não existe - ninguém julga que foi o capitalismo que inventou a violência. Também vejo um toque de autojustificação no cinismo que o perpassa. Afinal, se o homem é o lobo do próprio homem, como diz o provérbio latino, o AI-5 (que Delfim assinou) e os porões da ditadura (com os quais Delfim conviveu alegremente) estão na normalidade, não é mesmo?

Mas o central é a ideia de que existe uma "natureza humana" fixa e permanente e que a sociedade capitalista é o reflexo dela. Um argumento contra o qual o velho Marx já se batia, apontando que não há natureza humana fora da sociedade humana. Ver apenas que a sociedade é fruto dos seres humanos, sem perceber também que os seres humanos são frutos da sociedade, é contar a história pela metade.

No texto, Delfim se vale de "evidências antropológicas" para sustentar seu ponto, sem nunca dizer quais elas são. Mas são exatamente as evidências sobre a variedade das formas de organização da sociedade humana, no tempo e no espaço, que invalidam suas simplificações. Tendemos a julgar que o que nos é familiar é universal - e por isso o comportamento aquisitivo e predatório, que o capitalismo exige, parece ser a natureza humana. Mas ele é apenas um dos modos possíveis da humanidade.

A naturalização (isto é, fazer passar por "natural" aquilo que é fruto de processos históricos) é o elemento de base dos discursos ideológicos. As relações de dominação passam a ser meras emanações da natureza das coisas. Se as mulheres são "naturalmente" recatadas e do lar, como falar de opressão? Se as relações interpessoais seguem "naturalmente" a lei da selva, como falar de injustiça? É por isso que, num mundo em que estamos cada vez mais distantes da natureza, o discurso da "natureza humana" sempre volta para nos assombrar.

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