quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Com olhos em Gaza


Não é segredo para ninguém que há grandes parcelas da população brasileira que estão cada vez mais, irremediavelmente e contagiosamente cegas, cultural e ideologicamente, como os habitantes da cidade imaginária do livro ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, do escritor português José Saramago.

Sem necessariamente sofrerem - por estarem cegas de ódio - no sentido do verso de temática "sansoniana" do poeta britânico, também cego, John Milton, "sem olhos em Gaza", que inspirou até uma ópera rock e foi usado por seu compatriota, Aldous Huxley, para batizar um livro homônimo de 1936.     

Ninguém precisa ter tido uma babá de qualidade, ou ter lido os Irmãos Grimm no original, para saber que quando se exagera na dose, o feitiço acaba virando contra o feiticeiro.

Influenciada pelos uivos da malta fascista que vem governando indiretamente o país e defende na internet que é preciso "respeitar a fila" e "acabar com os petistas primeiro", para depois "cuidar dos outros", a justiça errou feio quando impediu a posse de Lula como Ministro, e não puniu, como deveria, o grampo ilegal - pois que não autorizado pela Suprema Corte - contra a então Presidente da República, nem o rápido e ignominioso vazamento para a imprensa de seu conteúdo.

Antes, como agora, a nomeação de ministros é prerrogativa pessoal e exclusiva do chefe do Poder Executivo e ninguém deveria ser considerado culpado ou impedido de ocupar qualquer cargo público, sem ter sido julgado definitivamente, ou ter tido direito à mais ampla defesa.

Ao não "errar" de novo, no entanto, no caso do Sr. Moreira Franco, em semelhante circunstância, parece ficar cada vez mais claro, para o homem comum que não padeça ainda de microcefalia, que não se está tratando os gregos como os troianos, e que pau que dá em chico, continuará dando em chico mesmo, de forma seletiva e permanente, sem nenhuma vergonha ou constrangimento por parte de certos segmentos do Judiciário e do Ministério Público.

Com suas unhas impecavelmente limpas, escovadas e aparadas, suas togas brilhantes, bem cortadas e engomadas, e suas lentes de contato opacas e importadas, cobertas pela fina gaze que cobre os olhos da estátua que existe em frente à sede do STF, a Justiça pode até fingir que é cega. 

Mas tem muita gente, nas mais diferentes camadas sociais, que não o é. 

E continua enxergando.

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