sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Milionário amigo de Teori tinha gostos peculiares que você não entenderia

Jornalista Luiza Pastor em seu Facebook

Conheci o empresário Carlos Alberto Filgueiras há muitos anos, nem sei quantos. Ele era amigo de outro amigo muito querido, o artista plástico Siron Franco, e sempre nos encontrávamos, quando Siron estava em São Paulo, para almoços em um restaurante japonês dos Jardins. Era um homem muito sozinho, embora vivesse rodeado de belas mulheres, daquele tipo que se dispõe a ser mero enfeite. Self made man saído da roça para uma bem-sucedida carreira como empreiteiro médio, tinha um sonho: construir o hotel mais charmoso de São Paulo. Ele gostava de contar os detalhes sobre os lençóis de algodão egípcio, sobre os vasos sanitários que permitiam escolher a temperatura favorita do usuário, os mimos com que pretendia atender a seus hóspedes, que seriam poucos e selecionados. Levou muito tempo para finalmente inaugurar o Emiliano da rua Oscar Freire, batizado em homenagem a seu filho.

Me convidou várias vezes para ouvir minha opinião sobre o cardápio, a adega, as peças de arte da decoração, a mobília, os serviços, os uniformes dos funcionários. Tudo era cuidadosamente estudado para ser sóbrio, mas moderno e ao mesmo tempo descontraído. Eu só tinha uma crítica, que ele achava muito divertida: as poltronas dos irmãos Campana do hall, que desfiavam as meias e marcavam as pernas com aqueles montes de voltas das cordas.

Uma vez, depois de algumas doses de saquê, ele despachou a moça-bibelô que o acompanhava, e que não havia aberto a boca desde o começo da refeição. Aborrecido, perguntou como fazer para encontrar uma mulher interessante, inteligente e que não pensasse apenas em seu dinheiro. Os demais convidados deram risada, mas eu mandei de primeira:

— Que tal começar procurando em algum lugar que não seja o Café Photo ou o Bahamas? Se você, por acaso, conseguir encontrar uma mulher com esse perfil e, de cara, convidá-la a passar o fim de semana em sua casa de Paraty, presenteando-a com um jogo de malas Louis Vuitton, com certeza ela vai sair correndo de susto. Leia um pouco mais de Vinícius, escute o que o poeta diz em Para viver um grande amor, tenha em vista “um crédito de rosas na florista, muito, muito mais que na modista”. Talvez funcione...

A mesa ficou em silêncio. Ele me abraçou, chorando. Dei um desconto pelo saquê. Tempos depois contou que havia seguido meu conselho e que achava que estava apaixonado por uma pessoa bem legal. Tomara que a paixão tenha durado.

Nos vimos pouco nos últimos anos, a última vez durante uma ida minha a Paraty, a trabalho, quando apresentou a meus clientes um projeto de parceria com caiçaras para produção sustentável de amenities para seus hotéis, bem como a ideia de um grande empreendimento em terreno de sua propriedade, o qual, por sinal, o Ibama embargou, por avançar em área de desmatamento proibido. Eu não disse em nenhum momento, aqui, que Carlos Alberto era santo, disse?

Sem nos vermos, conversamos por telefone quando da primeira eleição de Dilma Rousseff, quando uma jornalista entojada veio dos EUA para entrevistar a Presidente eleita. Chegando ao Fasano, a perua deu piti, porque o ar condicionado não estava como ela queria. Liguei para Carlos Alberto, que disse estar com o Emiliano cheio, mas ofereceu um apartamento totalmente mobiliado e com todo o serviço do hotel, a poucos metros dali. Às 23h de um dia qualquer, ele se dispôs a mobilizar uma equipe só para atender à pessoa que, entretanto, preferiu ir para outro lugar, “de preferência um hotel americano”. Azar o dela.

Hoje, a notícia da morte desse homem carinhoso, mas que recordarei sempre pela solidão profunda, me emocionou, mesmo em meio ao turbilhão de informações sobre a do passageiro famoso, o ministro do STF Teori Zavascki. Ele fazia essa viagem praticamente todas as semanas, em seu avião, amava Paraty. Tinha obsessão pela segurança de seu brinquedo favorito. O que dizer sobre isso? Não sei. Aguardemos pelos fatos. Por enquanto, deixo aos familiares meu abraço forte e solidário.

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