terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Não há imoralidade maior do que a degradação de direitos

Sylvia Moretzsohn

Este longo e fundamental texto do Pedro Estevam Serrano precisa ser disseminado o mais amplamente possivel.

Não apenas pela apresentação do quadro histórico em que se forja a ideia moderna de democracia mas porque toca no ponto essencial do sentido maior da corrupção: não é, como se costuma pensar, o enriquecimento ilícito e a apropriação do dinheiro público, mas o desprezo à necessidade de respeito aos direitos fundamentais. 

Venicio A. de Lima diz que a maior de todas as corrupções é a corrupção da opinião pública, justamente porque nos esconde informações e nos aliena.

Heloisa Starling, uma das atingidas diretamente pela violência na UFMG, já escreveu que a maior das corrupções é o desrespeito aos direitos humanos, que se expressa radicalmente na prática da tortura. Desmontou, assim, qualquer hipótese de elogio ético à ditadura militar.

O mais escandaloso, no texto do Serrano, é ver como a história se repete e como os próprios agentes do Estado encarregados do respeito à lei a desrespeitam flagrantemente e abrem espaço para o sepultamento da democracia.


Não há imoralidade maior do que a degradação de direitos



A condução coercitiva do reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, Jaime Arturo Ramirez, da vice-reitora, Sandra Regina Goulart Almeida, e de outras pessoas ligadas à universidade, como a ex-vice-reitora e renomada historiadora Heloisa Starling, pela Polícia Federal, choca, mais uma vez, não só a comunidade acadêmica, mas todos aqueles comprometidos com a vida democrática e com a garantia dos direitos fundamentais como bem primordial da nossa sociedade.

Neste momento em que o combate à corrupção é propagandeado como necessidade principal para alcance de uma moralidade social e pública, pouco ou nada se fala sobre a corrupção maior (no sentido moral e político da expressão) a que temos assistido, que é justamente a apropriação e a deterioração de nossos direitos, por meio da produção de medidas de exceção cada vez mais recorrentes.

O conceito de corrupção, no plano moral e político,embora exista há muito tempo na história humana, foi re-significado intensamente após as revoluções chamadas burguesas ou liberais — Gloriosa, americana e francesa.

A partir dali, houve uma ruptura com o modo aristocrático absolutista de governar, no qual o patrimônio do Estado se confundia com o patrimônio pessoal do rei.

A antológica frase “O Estado sou eu”, atribuída ao rei Luis XIV da França, embora provavelmente nunca tenha sido proferida, traduz bem a centralização absoluta de poder na figura do monarca, que personificava o Estado e estabelecia as leis.

A noção de direitos fundamentais e de direitos humanos não existia no período aristocrático, ou seja, a sociedade e os indivíduos não eram titulares de direitos ante o Estado. Também a ideia de bem público tinha um sentido muito diverso do atual.

A partir dessas revoluções foi que o conceito de bem público se estabelece como sinônimo de bem comum, ainda num sentido excessivamente restrito naquele momento histórico.

O patrimônio do Estado — dinheiro, bens patrimoniais, mas também seu patrimônio jurídico, ou seja, o conjunto de direitos de que o Estado é proprietário — passa a ser considerado da sociedade, uma vez que o Estado é entendido como um instrumento da sociedade, e não do governante.

O governante torna-se, então, mero gerente, alguém que gerencia o Estado em nome da sociedade, do povo.

A reconfiguração da ideia de bem público e bem comum, do bem estatal como bem da sociedade, fez surgir também um novo significado de corrupção, que passou a refletir a ideia de apropriação privada daquilo que é público, dos bens do Estado, que são os bens de toda a sociedade, ganhando sentido político, moral, jurídico e penal.

Aliás, até meados do século XX, uma série de conceitos da política e do direito constitucional tinham também significação mais reduzida do que hoje.

Só a partir do pós-guerra, com a declaração dos direitos universais e dos direitos humanos e com as chamadas constituições rígidas surgidas na Europa continental, é que esses conceitos se modificam.

Mas a primeira metade do século XX se caracterizou por uma determinada isomorfia entre o conceito de democracia, a noção de sistema jurídico e a ideia de bem público e de corrupção.

A democracia era tida apenas numa concepção formal, o que se caracteriza, no plano do poder e do Estado, por um regime político no sentido estrito, ou seja, um regime de Estado, mero procedimento formal de se acessar o poder.

O regime democrático era visto como um conjunto de regras formais de regulação dos conflitos políticos e sociais e de mecanismos para adoção de decisões e escolha de governantes.

Nesse modelo de democracia, não há qualquer limitação ao conteúdo das decisões políticas, mas apenas à forma como se chega a essas decisões, que são adotadas de forma majoritária, garantindo também às minorias o direito de contestação e de organização pela reivindicação de seus direitos.

Essa acepção foi mudando, até se chegar ao entendimento atual de que não existe democracia fora de uma sociedade democrática, e de que as regras da democracia impõem comportamentos normas e valores para a vida social, além de regrar os procedimentos de decisão e acesso ao poder.

Nunca é demais lembrar de que, no fim da primeira metade do século XX, a normatividade democrática foi utilizada pelo nazismo e pelo fascismo para ascender ao poder, e, em seguida, solapar a própria democracia por meio de leis autorizadas pelo judiciário alemão e italiano.

Além de ensejar a segunda guerra mundial, uma imensa tragédia para a humanidade, esse processo histórico levou o homem ocidental à perda, talvez, de seus dois principais pilares de visão de mundo.

O primeiro era a crença de que o regime democrático seria a forma mais aperfeiçoada de acesso ao poder na história humana.

O segundo foi um forte abalo no entendimento de que a razão seria a via moralmente mais adequada, porque isenta e igualitária, para a tomada de decisões.

Tudo isso ruiu quando, em nome de uma suposta racionalidade e dentro de uma aparente legalidade democrática, atrocidades morais foram cometidas.

Esse choque atingiu profundamente todas as ciências humanas, parte das ciências exatas e biológicas e produziu, depois de algum tempo, várias demandas com o intuito de se resgatar o sentido do homem ocidental.

Na política e no Direito, se estabeleceu um certo pacto democrático humanista, que gerou, no plano do direito internacional, a declaração universal dos direitos humanos e, no campo dos direitos nacionais, as constituições do pós-guerra.

Esse pacto significa a adoção de valores morais e políticos próprios da vida democrática.

A democracia deixa de ser vista apenas como um regime de Estado e passa a ser entendida como uma forma de vida social.

Uma sociedade realmente democrática não apenas deve ter mecanismos coletivos de acesso ao poder, mas também adotar certos valores morais próprios da vida democrática — que se traduzem, essencialmente, nos direitos humanos negativos e positivos.

Esse pacto é aceito tanto por conservadores modernos, quanto por liberais, social-democratas, liberais de esquerda e boa parte dos marxistas.

A democracia deixa de ser concebida apenas como o regime da soberania popular, no sentido formal da possibilidade de escolha de seus representantes, e passa a ser o regime de uma sociedade que assume como padrão moral a observância aos direitos humanos.

Isso repercute diretamente na ideia de bem público, que passa a ser entendido num sentido muito mais amplo, como o conjunto de valores e de direitos que envolvem a vida democrática, traduzindo-se, no plano técnico-jurídico, nos chamados direitos meta-individuais, que são os direitos coletivos, difusos e individuais homogêneos.

O bem público, ou bem comum, ganha dimensão maior do que os bens do Estado, pois diz respeito a uma forma de viver em sociedade, ou seja, a direitos que não pertencem apenas ao Estado, mas a toda sociedade.

Os bens comuns ou públicos mais relevantes da vida social não são o patrimônio, os bens materiais do Estado, mas sim o conjunto de direitos e garantias que protege a sociedade e seus integrantes.

Dessa forma, quando o Estado restringe, limita ou, mais intensamente, esvazia o sentido desses direitos, retirando seu significado e transformando-os em mera declaração simbólica, temos a apropriação privada, pela autoridade que interpreta a ordem jurídica, do bem comum mais caro ao conjunto da sociedade.

Podemos dizer assim que, hoje, o pior tipo de corrupção, no sentido moral e político da expressão, não é a apropriação do dinheiro público, mas sim a do significado daquilo que representam os direitos constitucionalmente garantidos.

O esvaziamento de sentido dos direitos fundamentais e humanos significa uma forma autoritária de vida social, incompatível com os valores morais da democracia.

Não há imoralidade maior no mundo contemporâneo, tanto no plano político quanto moral, do que se apropriar privadamente e de forma autoritária dos direitos.

A moralidade superior em uma vida democrática não é a moralidade privada de cada um de nós tem — a conduta individual, de costumes privados —, mas a moralidade pública que se constitui no pós-guerra.

É esse pacto civilizatório que cria o entendimento de que, independentemente dos valores privados de cada um, devem prevalecer, em uma sociedade hipercomplexa como a nossa, em que diferentes modos de vida coabitam, os mecanismos de tolerância que tornam a convivência possível.

A convivência tolerante é, portanto, inerente à democracia.

O que vemos no Brasil de hoje é a produção cada vez mais intensa daquilo que eu tenho chamado em meus escritos de medidas de exceção no interior da democracia.

Essas medidas são mais cirúrgicas em relação aos Estados ou governos de exceção típicos do século XX, mas com igual intensidade autoritária no âmbito em que elas atuam e menor possibilidade de percepção pela sociedade, uma vez que são produzidas sob aparente legalidade democrática e não há, na estrutura estatal, o locus característico do ditador.

Essas medidas se assemelham ao que ocorreu no nazismo e no fascismo no plano estrutural, uma vez que se valem das formas democráticas para praticar o autoritarismo por meio de medidas específicas, precisas, com objetivos e inimigos demarcados.

A expansão das medidas de exceção no Brasil e na América Latina, ao contrário do que ocorre na Europa, onde o autoritarismo se insere por meio de atos legislativos que fortalecem o Executivo e dentro de um regime jurídico especial de segurança nacional, tem por soberano instaurador o sistema de justiça e tem em seus agentes a fonte para a prática permanente de exceção, por meio de medidas que lhes são formalmente próprias

A proliferação das medidas de exceção representa o esvaziamento de sentido dos direitos fundamentais pelos agentes do Estado, implicando restrição ao seu âmbito de incidência determinado pela Constituição, pois retira das pessoas e da sociedade uma parte significativa de seu principal patrimônio — o direito à vida, à liberdade, à consciência, à manifestação de ideias, à defesa, à presunção de inocência, entre outros.

Todos esses direitos, que são muito mais relevantes para a existência humana do que o dinheiro público, sob pretexto de se preservar o erário, são corrompidos diariamente, esvaziados de sentindo, restringidos inconstitucional e imoralmente.

Não há, na sociedade contemporânea, imoralidade maior do que vulnerar, corromper os valores da vida democrática, em especial os direitos fundamentais.

É esse tipo de corrupção, entendida como deterioração de direitos, que causa, ou deveria causar, grande preocupação no Brasil, hoje.

Estão entre alguns poucos exemplos — já que são muitos — desse esvaziamento, a decisão do Supremo Tribunal Federal que admite a possibilidade de prisão antes mesmo do trânsito em julgado definitivo das decisões criminais, vulnerando frontalmente nossa Constituição e a própria legislação processual penal.

Assistimos também à prisão absurdamente abusiva do professor e ex-reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier, que o levou a um processo de depressão, culminando na tragédia de seu suicídio; ao uso de prisões preventivas para obter confissões e delações; à banalização das prisões cautelares como forma de controle social, já que a maioria dos nossos aprisionados está sob esse regime, contrariando as determinações da ONU ao Brasil.

E mais recentemente temos sido surpreendidos também por atos de censura a manifestações artísticas e por outras medidas de exceção, sendo realizadas nos mais variados ambientes da vida em sociedade

O uso excessivo e corriqueiro das conduções coercitivas também integra esse pacote de medidas de exceção.

A forma abusiva com que as autoridades acadêmicas da UFMG foram levadas para depoimento, mesmo estando à disposição dos agentes da Polícia Federal e já tendo prestado esclarecimentos ao Ministério Público, no âmbito da investigação que envolve a construção e implantação do Memorial da Anistia Política do Brasil, revela que, novamente, atores do mundo intelectual e acadêmico passam a ser tratados como inimigos e vitimizados por essa imensa imoralidade pública que é o esvaziamento de sentido dos direitos fundamentais.

Esse movimento autoritário, a exemplo do que ocorreu com as ditaduras do século XX, não vem sendo reportado pela mídia tradicional que, aliás, muitas vezes, a ele se alia e co-produz.

Assim, essas medidas absolutamente conflitantes com moral pública de uma sociedade democrática não são percebidas como tais pela população e, rapidamente, se naturalizam.

Portanto, estamos sob grave risco de que, de forma imperceptível, sem que a sociedade se dê conta, esse ambiente autoritário se consolide.

É fundamental que haja reação a esse forte movimento de medidas de exceção, pois, do contrário, assistiremos ao naufrágio da democracia e de um patamar mais civilizado de vida em sociedade.

Os direitos fundamentais são patrimônio da sociedade e de cada um, são o único bem comum e individual ao mesmo tempo. São direitos comuns porque protegem a sociedade e a vida democrática, significando, aliás, a realização da vida social democrática, e, concomitantemente, são bens exercíveis individualmente por cada um de nós.

Esvaziá-los de sentido, como tem ocorrido nos exemplos que citei e em muitas outras circunstâncias, nos atinge a todos. Cada vez que um abuso é cometido contra os direitos de quem quer que seja, a sociedade e, ao mesmo tempo, cada um de nós vai perdendo parte de seu maior patrimônio.

Por obvio combater a corrupção é um dever do Estado e necessidade da sociedade, mas se feito por qualquer meio inviabiliza-se atingir seu fim, pois a título de combater o crime perde-se a civilidade, transformando-se a selvageria do crime em forma de vida geral

Combater esse esvaziamento de sentido de direitos, na esfera privada e pública, é um dever de todo cidadão hoje.

O Estado, ao agir, não pode defraudar a liberdade das pessoas e o juiz, ao julgar, tem que ser um agente dos direitos fundamentais, que é o verdadeiro bem público, e não suposto agente do combate ao crime, papel que cabe a outras instituições.

É preciso reagir e enfrentar essas medidas que vão esfarelando a democracia e retirando a parte mais importante do patrimônio da sociedade, que são os direitos fundamentais.

Não há ofensa maior para nós, enquanto sociedade, do que a apropriação privada e a degradação desse conjunto de garantias que é o bem público primordial comum e de cada um, nossos direitos, nossa vida civilizada

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Pedro Estevam Serrano é professor de Direito Constitucional e Teoria do Direito da graduação, mestrado e doutorado da PUC/SP, mestre e doutor pela PUC/SP com pós-doutorado na Universidade de Lisboa.

Ainda os Bitcoins

Moisés Mendes 


Ontem perguntei aqui se alguém já lidou com bitcoins. Parece que teve apenas uma resposta afirmativa, mas muito vaga, e a conclusão geral é que a moeda virtual, agora presente até na Bolsa de Chicago, ainda é uma miragem para a maioria.

Hoje, Laerte publica na Folha uma charge em que mostra uma realidade que vem aí. Trabalhos intermitentes (o patrão só paga pelo tempo em que 'usou' o empregado) serão pagos no futuro com farelos de bitcoins. Compartilhei há pouco a charge.

Eu acredito que ainda receberei um dia algum pagamento em bitcoins. Também acho que propinas serão pagas em bitcoins e que o jaburu nunca mais correrá o risco de ser acusado de receber malas de dinheiro. Porque o Loures não vai precisar carregar bitcoins em malas. Nem o primo do Aécio.

E também é provável que daqui a algum tempo se ouça comentários como este: tu te lembra do dinheiro? E do cartão? E das moedinhas?

E as pessoas ficarão horas dedicadas a essas lembranças, como ficamos hoje quando alguém fala do tempo em que toda casa tinha um vaso com samambaia e um botijão de gás com avental de tecido floral.

Saudade do tempo em que um botijão de gás era objeto de enfeite e não de pavor.

Pois quando chegar esse tempo dos bitcoins, as pessoas se lembrarão então do tempo das malas do jaburu, do Aécio e do Geddel e também se lembrarão dos botijões de gás. Nesse futuro, o jaburu voltará a ser apenas uma ave.

Trabalho moderno


A violência fora de controle

Cris Penha

EM 15 ANOS MORRERAM mais pessoas no Brasil devido à violência do que na guerra do Iraque e Síria somadas. Qual a razão principal dessa violência absurda que mata mais de 50 mil por ano? Obviamente o fato do Brasil ser um dos países mais desiguais do planeta e da Justiça só prender pobre, preto, puta e agora, petistas, muitos sem provas ou julgamentos justos enquanto permitem que o país seja governado por uma quadrilha, que poderosos cumpram a pena em suas mansões e que tucanos voem livres por aí.

Vamos recordar que os bandidos com mais de 13 anos de idade, portanto 99,99% do total de bandidos do país inclusive esses do governo temeroso tucano, nasceram bem antes dos governos do PT, justamente onde se começou a investir mais no social, lembrando que boa parte das verbas dependia da aplicação correta de Estados e Municípios, ou seja, de todos partidos. Claro que esses investimentos tiveram efeito positivo e precisavam de continuidade pra resgatar a secular dívida social: isso já está mais do que provado pela melhoria na distribuição de renda, geração de empregos, melhoria do IDH e até pelo crescimento econômico de 2003 a 2013, antes da sabotagem começar.

Essa violência fora de controle é basicamente a consequência da nossa história de ausência de políticas sociais e de distribuição de renda mais amplas até 2002. Ignorando isso, a população ajudou a colocar Temer e PSDB no poder voltando ao modelo excludente, anterior a 2003, que produziu a maior parte dos bandidos de hoje, cuja idade supera 20 ou 30 anos, inclusive esses no poder que agora agem pra acabar com o combate à corrupção e escapar da cadeia. A tendência, com esse modelo neoliberal tucano temeroso que congela e corta gastos sociais, retira direitos e que permite trabalhadores receberem menos que o Salário Mínimo, é piorar ainda mais. É só pesquisar os efeitos do neoliberalismo em outros países, como os EUA, o mais desigual entre os desenvolvidos, pra ver que vamos afundar muito ainda nessa questão, pois somos um dos países mais desiguais do mundo.

É ilusão acreditar que o problema da violência se resolve com mais polícia, ainda mais essa polícia corrupta e despreparada. É só ver que os países com menos violência são justamente os que mais investem no social e que tem menos desigualdade, situação alcançada com sistemas tributários justos e progressivos, ao contrário do nosso. Mas parece que muitos preferem não abrir mão de seus privilégios e benefícios, mesmo que isso custe a vida num assalto qualquer.

Artrópodes articulando



Folha faz um monumento à má fé, à ignorância e à desinformação



A reportagem da Folha de hoje sobre a "falta de paciência" que os brasileiros têm de poupar é um monumento à má fé, à ignorância e à desinformação.

O foco da matéria mergulha no ridículo. Certamente, o trabalhador intermitente que não tem uns milhões guardados no banco padece de severa impaciência. Para dar um toque cult ao texto, mais vexame: invocam erroneamente a teoria do "nudge" para defender a ideia de obrigar todo mundo a investir em previdência privada. Basta folhear Thaler ou Sunstein para saber que o "nudge" exige possibilidade de escolha e é, portanto, o oposto à imposição de uma prática.


Tudo isso a serviço da promoção de uma tese desesperada, a de que o fim da aposentadoria terá como efeito a elevação moral do nosso povo, que irá aprender (no tranco) as virtudes da prudência e da parcimônia. Mais ou menos como, durante a Revolução Industrial, líderes religiosos defendiam salários baixos para que as pessoas não tivessem como encher a cara.

Síria e Rússia ensinaram como se enfrenta o terrorismo dos EUA




Em 2011, quando começou a guerra na Síria, a mídia dizia que era "uma luta pela democracia" contra um "ditador sanguinário que mata o próprio povo". Denunciávamos que se tratava de outra farsa dos Estados Unidos, como fora na Líbia, Iraque, Afeganistão, Iugoslávia, etc. Denunciamos e fomos chamados de mentirosos. O tempo foi passando e as pessoas foram vendo que os tais "heróis da democracia" eram realmente mercenários contratados pelos Estados Unidos e aliados para tocar o terror. Precisou que Donald Trump reconhecesse que os Estados Unidos financiaram o Estado Islâmico como obra de Obama para nos darem razão. Enquanto brasileiros comentavam o que viam na Globo, Putin e Assad lideravam as tropas do campo de batalha. Tropas que venceram a guerra. Agora, pra onde vão os mercenários? De vez em quando explodem um trem na Europa para cobrar a fatura não paga. Enquanto isto, o Exército Russo retorna vitorioso para a casa e o Exército Árabe Sírio firma a bandeira nacional no próprio território. Parabéns à Síria e à Rússia por ensinarem como se lida com mercenários estadunidenses, desde os tempos do Talibã.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

You Jane, me...


O populismo de Lula



Uma das grandes ondas recentes dos metidos a racionais é falar mal do populismo. Sob este guarda-chuva, combatem-se todas as políticas de inclusão – que precisam de retórica (de Lulas, digamos). Uma das marcas do populismo seriam as lideranças “carismáticas” (tipo Lula). Acho que sei por que os adversários dos políticos que falam para o povo (tipo Lula), bem como todos os seus aliados, dos intelectuais à mídia, demonizam os “populistas”. Não é que eles não saibam falar para o povo: é que eles não precisam disso, já que selam seus acordos aos cochichos, em pequenos jantares (atualmente, no Jaburu). O povo? Ora, o povo. Segundo o atual líder deles, a falta de popularidade até ajuda.

“Chávez é uma esperança para a América Latina. Acho ele ímpar”, disse Bolsonaro


Em entrevista ao Estadão em setembro de 1999, o deputado Jair Bolsonaro se derramou em elogios a Hugo Chávez.

“Chávez é uma esperança para a América Latina e gostaria muito que esta filosofia chegasse ao Brasil. Acho ele ímpar. Pretendo ir à Venezuela e tentar conhecê-lo. Quero passar uma semana por lá e ver se consigo uma audiência. (…) Acho que ele vai fazer o que os militares fizeram no Brasil em 1964, com muito mais força”, declarou o mito.

“Ele não é anticomunista e também não sou. Na verdade, não tem nada mais próximo do comunismo do que o meio militar. Nem sei quem é comunista hoje em dia”.


Medo de avião, pavor de Brasil

Leonardo Valente

Nunca tive medo de avião, mas confesso que nas últimas viagens, pequenas turbulências me chacoalharam por dentro muito mais do que deveriam. Racionalmente, nem de longe pareciam anormais, mas meu corpo insistiu em ignorar as evidências e transformou brisas em tempestades, e isso incomodou, fez-me sentir um tanto ridículo, especialmente por conta das horas que tenho de vôo.
Como sempre faço, tentei entender o motivo, uma vez que morrer nunca esteve na lista dos meus maiores medos, sempre tive mais medo de morcego, por exemplo, do que da morte.

A primeira conclusão é a de que perdi a fé e a confiança no Brasil. Não confio nas instituições, nas pessoas, nas empresas, nos políticos, nos motoristas, nos jornalistas e, por tabela, nos pilotos, nos controladores de vôo, nos comissários, nos mecânicos de avião, nos executivos, nas empresas aéreas, nos aeroportos, na ANAC e por aí vai. Tenho a impressão de que os desmandos são generalizados e que em todas as áreas vivemos tempos de lucro e de abusos acima de tudo e de todos. A experiência terrível de ontem no portão de embarque só aumentou minha insegurança. Desde o golpe, a desconfiança é geral, e como desconfio de tudo, também passei a desconfiar até de um leve balanço em uma aeronave.

A desconfiança explica o bloqueio pelo corpo das explicações racionais, justifica o ignorar o "esse sacolejo é normal", mas não explica o medo da morte. Contudo, tenho a impressão, apenas isso, de que não tive medo de morrer, tive medo de parar de escrever. Tenho tanta coisa para pôr para fora que a sensação foi muito mais de um "mas já?" do que o temor da dor ou da ausência de vida. Talvez, quando sentir que não tenho mais nada a registrar, nem o despencar de máscaras de oxigênio me abale mais. Por enquanto, acho que vou seguir desconfiado e com medo, sem parar de voar.

Conheça a Internet


Lula encerra vitoriosa caravana na terra da Globo e do PSOL




Lula encerra vitoriosa caravana no Rio e o saldo é extremamente positivo. Considerando-se que trata-se do lugar onde a Globo e o PSOL ditam o ritmo e trabalham unidos ao judiciário na agenda do antipetismo e do ataque seletivo ao sistema político, a visita de Lula chacoalhou o povo da Baixada Fluminense, levantou Maricá, com um encerramento emocionante na UERJ. O maior medidor disso é que a mídia golpista acusou o golpe. Lula é notícia em todos os jornais e sites, todos atacando duro pra valer. O Globo, malandramente, tenta associar hoje a sua imagem a Cabral, espécie de bandido de estimação que 'cuida' com bastante zelo, com a forcinha do PSOL carioca. 2018 está aí. Quer queiramos ou não, quer acreditemos ou não, está aí. E Lula está no jogo, aos 72, vivinho da Silva, como ele mesmo disse em Nova Iguaçu, com "cabeça de trinta e tesão de 20" pra partir pra cima deles pro tudo ou nada. Acho que devemos todos, sem exceção, agradecer aos céus por esse homem existir, a partir de agora, guardar as críticas e os senões e apoiar incondicionalmente a luta do maior líder político popular da história do Brasil. A caravana de Lula não é apenas a antecipação do 'bloco na rua' de um candidato com sede de vitória, ela é, ao mesmo tempo - e talvez, até antes de tudo - a única forma de resistência real contra o golpe dado em Dilma que segue hoje sem perdão pra cima do povo brasileiro. #SigamosComLula

domingo, 10 de dezembro de 2017

Escolher o lado



 Contam que num certo grande jornal americano havia um jornalista tão imparcial, mas tão imparcial, que nas matérias sobre a tensão racial nos EUA, ele perguntava aos membros da Ku Klux Klan por que eles queriam agredir e por que, por sua vez, os negros não aceitavam ser agredidos. Isso não é uma piada. O camarada deveria ser tão sarcástico, quanto sádica era a KKK. E vejo que hoje há jornalistas tão sarcásticos quanto os caciques do neoliberalismo.

Sim, os neolibelês foram cínicos até 2008. Toda retórica sobre estado mínimo, austeridade, responsabilidade fiscal, era supostamente para garantir-lhe eficiência no cuidado dos serviços básicos à população. Muita gente boa entrou nessa. Mas a crise fez cair todas as máscaras.

Desde então, os adeptos não cansam de reafirmar sua veia sarcástica. Fazem da economia um cassino, uma pirâmide, e não desmentem mais seu apreço pela servidão, seu desprezo pela democracia, e sua ojeriza a qualquer direito social que não seja o deles de ganhos sem limites. E defendem isso com.um sorriso perverso entre os lábios.

Jornalistas, se acreditam que suas carreiras sejam úteis para uma sociedade menos desigual e perversa, não podem mais fingir imparcialidade. Pois que nesse caso será tão somente a opção pelo sarcasmo.

Um mundo de justiça não será conquistado invertendo a opressão




Chamou atenção duas postagens. Uma de uma militante do movimento negro, com discurso de ódio, dizendo que brancos devem sair das universidades para os negros ficarem. Sigo a timeline e aparece uma feminista sectária destilando ódio e convocando mulheres a uma "guerra contra os homens". Passou uns dias e lá estava na página dos Bolsonazis a menção às duas, mostrando como "exemplo" de que quem prega o ódio é a esquerda. Assim é a extrema-esquerda: tão parecida com a extrema-direita que se abraçam e se complementam, pois um vê no outro a própria imagem. Um mundo de justiça não será invertendo a opressão, com negros explorando brancos e com as mulheres se impondo sobre os homens. Um mundo justo precisa basear-se na igualdade entre gênero e na solidariedade entre os povos e raças. Fica a dica!

Palestras motivacionais do Doutor M.



Um mundo pintado de preto


Paint it Black, canção dos Rolling Stones, foi escrita durante a Guerra do Vietnã. Embora não fosse intenção do grupo, nesta música, abordar o conflito no Sudeste Asiático, as fortes metáforas da letra e a alusão a um mundo pintado de preto expressam bem o trágico momento histórico. Cerca de cinco milhões de pessoas morreram no Vietnã, Laos e Camboja durante a agressão imperialista dos Estados Unidos, que mesmo assim sofreu a segunda derrota militar de sua história -- a primeira foi na Coreia, onde quatro milhões de coreanos e um milhão de chineses morreram na guerra imperialista.


I see a red door and I want it painted black
No colors anymore I want them to turn black
I see the girls walk by dressed in their summer clothes
I have to turn my head until my darkness goes

I see a line of cars and they're all painted black
With flowers and my love both never to come back
I see people turn their heads and quickly look away
Like a new born baby it just happens every day

I look inside myself and see my heart is black
I see my red door and it has been painted black
Maybe then I'll fade away and not have to face the facts
It's not easy facin' up when your whole world is black

No more will my green sea go turn a deeper blue
I could not foresee this thing happening to you
If I look hard enough into the settin' sun
My love will laugh with me before the mornin' comes

I see a red door and I want it painted black
No colors anymore I want them to turn black
I see the girls walk by dressed in their summer clothes
I have to turn my head until my darkness goes

Hmm, hmm, hmm

I wanna see it painted, painted black
Black as night, black as coal
I wanna see the sun blotted out from the sky
I wanna see it painted, painted, painted, painted black

Este Brasil

Janio de Freitas

"É difícil desenvolver a compreensão desse Brasil, tão inculto, tão controvertido, tão amalucado. Esse Brasil exultante com as ações contra a corrupção e indiferente à ocupação de sua Presidência por uma declarada quadrilha de corruptos. 
O Brasil é você. O Brasil somos nós".



"Ninguém, parece mesmo que ninguém, tenta pensar o Brasil em seu pleno sentido e em seus possíveis amanhãs. É um país sem estratégia, sem ideia do que é e conviria vir a ser no mundo. Na grande tecitura internacional, não vive do que faça para uma inserção desejada, mas do que cada dia lhe traz. Segue adiante porque os dias se sucedem. Condicionado integralmente pelo mundo exterior, perplexo, lerdo, segue.

Com uma gama invejável de minérios, tantos outros recursos e grandes necessidades de consumo, nunca teve uma política industrial. País de latifundiários e fazendeiros, suas políticas agropecuaristas são mera distribuição discricionária de dinheiro e privilégios, de uso à vontade. E nem isso, para uma ciência coordenada com objetivos nacionais e contingências externas.

É difícil pensar um país assim. É difícil pensar mesmo o Brasil atual, o país de hoje. Já a partir do mais grotesco e rudimentar na situação imediata: como explicar, por exemplo, o convívio familiar entre a empolgação generalizada com os êxitos contra a corrupção e, de outra parte, a tolerância indiferente com a Presidência da República ocupada e usada por um político acusado de corrupção, formação de quadrilha, obstrução de justiça, e salvo de processos mediante a corrupção de deputados com cargos e verbas do Orçamento?

Presidência povoada por notórios como Moreira Franco, marginais como Geddel Vieira Lima, acusados como Eliseu Padilha, e deputados, senadores e ministros com lastros semelhantes na polícia e na Justiça?

É difícil pensar um país assim, capaz de contradição tão corrosiva.

Mas esse país é o da contradição em que militares americanófilos e a classe dominante deram um golpe em nome da democracia e por 21 anos aprisionaram a nação na ditadura. Muitos dos artífices dessa contradição ali completavam uma outra, de que foram parte quando em 1945 derrubaram o Getúlio para o qual deram um golpe e impuseram uma ditadura.

Convertidos à democracia, como diziam, em sua pequena convivência com oficiais americanos na Itália da Segunda Guerra, os derrubadores de Getúlio ajudaram a entrega do poder, por via de "eleição democrática", ao general que sustentou a ditadura até a queda. A vasta fraude que contribuiu para o resultado eleitoral, movida pelos "coronéis" do interior, foi silenciada a pretexto de não se desmoralizar a primeira eleição da "democracia".

Contradição em cima de contradição. O normal no país em que os primeiros bafejos de democracia vieram de uma ditadura, com a legislação social de Getúlio –inclusive as Leis Trabalhistas agora estupradas.

É difícil desenvolver a compreensão desse Brasil, tão inculto, tão controvertido, tão amalucado. Esse Brasil exultante com as ações contra a corrupção e indiferente à ocupação de sua Presidência por uma declarada quadrilha de corruptos.

O Brasil é você. O Brasil somos nós".

A modéstia da Folha de S. Paulo


A Folha, vestindo a carapuça.

Alberto Villas


Salto de qualidade tucano



Não se pode negar que os tucanos deram um salto de qualidade em matéria de civilidade lá em  Brasília. A tarde foi de cadeiradas voadoras entre a militância.  As punhaladas, de preferência pelas costas, ficam reservadas à cúpula partidária

Relatório sobre universidades do país parece dizer que há elefantes no céu



Lira Neto

"Se você diz que há elefantes voando no céu, as pessoas não vão acreditar", observava Gabriel García Márquez. "Mas se você disser que há 425 elefantes alados, as pessoas provavelmente acreditarão."

Expoente do chamado realismo mágico, o escritor aludia ao recurso literário de construir narrativas com alto nível de detalhamento, a ponto de fazer os leitores "acreditarem" nelas. Instaurar um pacto no qual a irrealidade, apesar de manifesta, é aceita em nome da fruição e, quase sempre, da alegoria.

Para além do campo literário, amparar supostas verdades com base em números e estatísticas, manobrando dados e fontes de informação, é truque de ilusionismo político. Em vez de artifício estético, trata-se de manipulação da fé alheia.

O relatório apresentado há poucos dias pelo Banco Mundial ao governo brasileiro, no capítulo destinado a traçar o diagnóstico de nossas universidades, tenta fazer a opinião pública acreditar que há paquidermes planando no céu. É o caso de lembrarmos que elefantes, obviamente, não voam.

"Um estudante em universidade pública custa de duas a três vezes mais que um estudante em universidade privada", sustenta o relatório, sacando números da cartola: o custo médio anual por estudante em universidades privadas seria de até R$ 14,8 mil; em federais, 40,9 mil.

A comparação é escalafobética. Nas universidades públicas, ao contrário do que ocorre na maioria das instituições privadas, a vida acadêmica não se resume à sala de aula. Abrange o indissolúvel trinômio ensino, pesquisa e extensão, por meio de ações sistemáticas junto à comunidade. Daí a necessidade de investimentos sólidos em hospitais, clínicas, museus, teatros e laboratórios, entre outros equipamentos.

Além disso, professores de instituições públicas possuem maior qualificação e, assim, salário minimamente compatível com a relevância social do ofício. Como observa o físico Peter Schulz, em artigo no "Jornal da Unicamp", 39% dos docentes da rede pública têm formação de doutorado, contra 22,5% da privada. Como dado extra, 85% dos professores das universidades públicas trabalham em regime de tempo integral. Nas privadas, 22,5%.

O salário dos docentes, aliás, está na mira. "Os professores universitários brasileiros ganham muito acima dos padrões internacionais", alardeia o relatório, com astúcias de prestidigitador. Dito assim, nossos mestres e doutores parecem nababos de diploma.

Contudo, um gráfico contido no próprio documento desmente a pegadinha: mesmo o salário dos professores que atingem o topo da carreira, no Brasil, situa-se em nível bem inferior ao dos colegas estadunidenses, italianos, australianos e franceses, por exemplo.

O maior ardil do relatório procura alimentar uma lenda urbana que cerca a academia: "Embora os estudantes de universidades federais não paguem por sua educação, mais de 65% deles pertencem aos 40% mais ricos da população".

A informação não procede. Pesquisas do Fonaprace (Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis) e da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior) apontam o contrário. Apenas 10,6% dos alunos das universidades públicas vêm de famílias com renda superior a dez salários mínimos. Com a democratização introduzida pelo sistema de cotas, o índice de estudantes oriundos de famílias com renda abaixo de três salários, atualmente em 51,4%, só tende a crescer.

Amparado no relatório, o Banco Mundial propôs ao governo dois caminhos: "limitar os gastos por aluno" e "introduzir tarifas escolares". Em bom português, sucatear a universidade e cobrar mensalidades.

Os que não puderem pagar pelos estudos, tratem de recorrer a empréstimos. Nos Estados Unidos, onde o modelo impera, milhões de jovens recém-formados acumulam dívidas impossíveis de serem pagas.

É sintomático: ao longo das 17 páginas do documento relativas ao tema, em nenhum momento os repasses para o setor educacional são definidos como "investimento". Em contrapartida, a palavra "gasto" aparece nada menos de 77 vezes.

Impossível dissociar a leitura do relatório e a escalada autoritária que busca criminalizar a arte e a cultura, bem como espezinhar qualquer manifestação do pensamento complexo e do espírito crítico. Virtudes que encontram na universidade pública um de seus últimos territórios de excelência.

O profundo humanismo de Karl Marx


Carlos D'Incao

De todos os pensadores da História da humanidade, nenhum foi tão humanista como Karl Marx.

Porém, para fazermos tal afirmação devemos antes passar por uma difícil, porém inevitável questão: O que seria exatamente o “humanismo” ou “ser humanista”?

E essa questão é difícil porque nos obriga a esclarecer um conceito fundamental, qual seja, a concepção de ser humano que Marx possuía.

Vejamos.

Desde seus primeiros escritos Marx procurou definir os elementos centrais que determinavam a humanização desse peculiar animal que a zoologia chama de Homo sapiens. Para realizar essa definição, Marx centrou sua análise nas relações sociais do atual modo de produção, isto é, no capitalismo.

Sua primeira análise centrou-se na alienação, ou seja, de como o Homem no sistema capitalista está alijado por completo de todos os meios para a sua produção e reprodução como indivíduo.

O sistema de exploração do capital retira toda e qualquer autonomia do trabalhador frente à produção, reduzindo-o a uma força de trabalho que produz riquezas destinadas a outrem. Ao trabalhador cabe sempre e tão somente o seu salário, ou seja, a sua ração diária para poder continuar com forças suficientes para, no dia seguinte, servir aquele que o explora.

Para muitos críticos (alguns inclusive da esquerda), Marx teria aqui uma validade limitada, uma vez que as próprias lutas sociais dos trabalhadores os conduziram a uma vida mais confortável em alguns países, sendo que seus salários não ficaram apenas restritos a uma simples “ração” para sobreviver a mais um dia de exploração.

Mas o grande erro desses críticos é justamente tomar Marx como um pensador simplista, incapaz de observar que já em sua época havia trabalhadores que ganhavam mais do que o “pão nosso de cada dia”. Há aqui mais do que uma leitura equivocada de Marx, mas uma incompreensão sobre o método de análise científica que necessita do exercício da generalização conceitual abstrata para atingir a compreensão do real.

Marx constata que, se a alienação do trabalhador - como expressão hegemônica do capital - o reduz a um animal quase que selvagem, que vive para trabalhar, comer e se reproduzir, isso só pode significar que sem essa relação de alienação o trabalhador poderá se humanizar plenamente e se realizar como indivíduo livre e autônomo.

Com isso, Marx conclui ao mesmo tempo que é o trabalho o elemento humanizador desse animal chamado Homo sapiens e que também são as relações de alienação impostas pelo capital aquelas que impedem a emancipação de toda a espécie humana.

A partir daí, Marx se detém no profundo significado da atividade do trabalho. Para ele, trata-se de uma relação única que coloca em conformidade consciente a natureza e o próprio ser humano. O ser humano, assim, é um ser distinto de todos os demais: é um “ente-espécie”, uma espécie capaz de compreender-se como parte da natureza, ou seja, uma espécie que é a própria natureza em sua forma consciente.

Porém, se o trabalho é alienado socialmente, teremos o fenômeno da ruptura entre o Homem e a Natureza. Ruptura produto da alienação que é por si só também ruptura entre trabalhador e sua produção em seus sentidos mais profundos.

Assim sendo nas relações do capital o Homem está destinado a não se reconhecer como natureza e mais: está impelido a se opor a ela de forma hostil, da mesma forma e intensidade em que se dão as relações de trabalho nesse sistema. Afinal de contas, se nas relações do capital os Homens são capazes de destruir e menosprezar o fruto mais evoluído da própria natureza (isto é, ele mesmo) como poderá respeitar outras espécies e o meio ambiente em geral?

Aqui chegamos a uma linha importante de conclusões: o capital destrói o sentido do trabalho. Com isso o capital destrói o sentido de “ser humano”. E uma sociedade desumanizada destrói a própria natureza e o meio ambiente.

Com isso, nenhum trabalho será expressão da vontade de toda a humanidade enquanto houver as relações do capital. Da mesma forma, nenhum sentido terá a vida enquanto existirem as relações do capital. Na mesma direção, nunca haverá paz na humanidade enquanto existirem as relações de capital. E por fim, nenhuma consciência ambiental poderá salvar o Planeta Terra enquanto houver as relações do capital.

E como falamos tanto em capital, lembremos que o mesmo não é um conceito abstrato, “perdido no espaço”, mas uma relação real que possui frutos reais. O capital é a mais desenvolvida forma de exploração do trabalho. Se é uma relação social, ela é conduzida por Homens que vivem do trabalho alheio. Se esses Homens não trabalham, também estão alienados da humanização plena, ou seja estão em estado de barbárie e, apenas nesse estado de barbárie conseguem manter uma relação de espoliação na qual uma esmagadora maioria deve trabalhar em benefício de alguns poucos.

E esses Homens que se beneficiam das relações do capital, materializam suas riquezas sob a forma mais anti-natural e alienada que a História já produziu: a propriedade privada. Pois na realidade toda a riqueza foi produzida de forma coletiva mas - como em um passo de mágica - toda essa riqueza se converte em propriedade privada... Como vimos, na realidade não existe propriedade privada uma vez que todo fruto do trabalho é coletivo. Assim, o que temos no capitalismo é o mascaramento da propriedade social, humana e coletiva sob uma forma jurídica mantida pela força policial, que chamamos de “Propriedade Privada”.

A humanidade só será livre quando abolir a propriedade privada e estabelecer o sentido real da propriedade, ou seja, torná-la o que ela é de fato: fruto do trabalho e esforço coletivo de toda a humanidade para a realização de todos.

Isso obviamente não significa a abolição de bens pessoais. Bens pessoais é uma coisa bem diferente de propriedade privada. Como no capital as leis de propriedade são elaboradas para confundir o verdadeiro sentido das coisas, é comum encontrarmos as mesmas leis de propriedade privada misturadas com a defesa da possessão de bens pessoais.

Ter um carro, uma casa, roupas, televisão, etc, é possuir bens pessoais. Ter fábricas, latifúndios, empresas extrativistas, rodovias, hospitais, bancos nas mãos de uma pessoa ou de um grupo de sócios - isto sim é propriedade privada e que deve ser abolida como condição de libertação da humanidade. Percebemos até aqui o quanto Marx possui não apenas uma visão profunda do que é o ser humano, como também dirige toda a sua análise filosófica para a libertação da humanidade a qual apenas ocorrerá com a superação das atuais relações do capital.

Quais são os passos para essa superação e libertação, são temas que Marx e outros filósofos vão posteriormente debater.

O que importa nesse momento é lembrar e demonstrar que nenhum outro pensador foi tão humanista como Marx. E isso é fundamental em um momento onde o ódio e a divisão reinam na nossa sociedade e, em especial, no nosso país. Um momento em que Marx, o marxismo e o comunismo (que é a expressão política dessa filosofia) são difamados como nunca.

É preciso lembrar, enfim, que Marx é atacado não por seus supostos defeitos, mas por suas virtudes e seu humanismo. Esse humanismo é tão profundo e verdadeiro que se converte espontaneamente em um brutal ataque a todos os que estão no poder e que querem manter na escravidão do capital toda a raça humana, ao custo da destruição de todos nós e de toda a natureza.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Não existe nada mais imundo e animalesco que um paulista fã de MMA


Tom Cardoso

Nunca vi uma luta de MMA. Gosto é de roda de capoeira. Na última, em Botafogo, vi um subestimado japonês rastafari, tranquilo e infalível como Bruce Lee, aplicar um maculelê num negão desengonçado, para minha alegria e do mendigo da praça.

Senti saudades dos tempos de capoeirista da Baixa do Sapateiro e do meu mestre, João Pequeno de Pastinha. 

Voltando ao MMA. Leio no UOL que um lutador americano, vaiado por parte da platéia, durante um luta em São Paulo, chamou os brasileiros de "animais imundos".

Fui ler os comentários, esperando uma reação inflamada dos internautas, essa gente que chama Caetano de pedófilo e Chico Buarque de comunista da Lei "Luanê".

Todos os comentários, sem exceção, elogiavam a fala do lutador, invejando o fato de São Paulo não ser Miami. Dei também uma olhadinha no vídeo da confusão. Não acreditei no que vi: xingada pelo americano, parte da platéia o aplaudia. 

No fim, acho que concordo com o lutador, que merece o prêmio de "Antropólogo do Ano": não existe nada mais imundo e animalesco que um paulista fã de MMA.

A vitória histórica de Michel Temer


Julianna Sofia

A demissão de 1.200 professores do país pelo grupo de ensino superior Estácio, quando as novas regras trabalhistas nem sequer completaram o primeiro mês de vigência, não deixa de despertar calafrios. São profusas as dúvidas sobre a aplicação do novo regramento à realidade laboral.

Vitória histórica de Michel Temer, a reforma trabalhista libera demissões massivas sem que sindicatos de trabalhadores sejam consultados previamente pelas empresas. Professores demitidos pela Estácio, alguns com mais de 20 anos de casa, foram surpreendidos e informados sobre a decisão ainda dentro de sala de aula.

A Justiça do Trabalho do Rio suspendeu dispensas no Estado e requisitou termos de rescisão, relação dos desligados e dos profissionais que serão contratados para substituí-los. O Ministério Público do Trabalho afirma estar vigilante.

Assim como no —escasso— debate sobre as mudanças trabalhistas, a atuação do ministro Ronaldo Nogueira (Trabalho) beira a nulidade. Ele diz que, se comprovada alguma ilegalidade no desligamento dos professores, será combatida. Até agora, tratava como boato uma esperada onda de demissões pós-reforma.

O grupo Estácio, que tem ações na Bolsa e cresce alavancado no ensino à distância, argumenta que os salários estavam distorcidos, tornando o negócio insustentável. Promete novas contratações pela CLT, com remuneração média de mercado.

A CLT repaginada oficializa o trabalho intermitente, em que o funcionário é acionado só quando há demanda e com ganho proporcional. A regra permitirá, por exemplo, que um professor ganhe menos que o salário mínimo e precise tirar do bolso parte da contribuição à Previdência. Não à toa, a modalidade é foco de boa parte das 967 emendas do Congresso à medida provisória editada para modular a reforma trabalhista.

É hora de os sindicatos provarem se, sem a verba do imposto sindical, ainda sabem arregaçar as mangas.

Não debato com criminosos, diz Moro

Nélia Lins‏ 

Não debato com criminosos, diz o juizeco da panela de Curitiba. Aquele que adora tirar selfie com políticos corruptos e processados, cuja mulher está envolvida no escândalo da Apae e que recebeu dinheiro de Tacla Durán, juntamente com o seu amigo e padrinho.

Não debato com criminosos, diz Moro. #sqn apenas troco juras de amor: 🎶🎵Amor I love you🎶🎵

A cena do crime


Globo: 'Um caminhão de pernil é atacado no RJ; polícia teme novos casos até o Natal'; Zero Hora (RS): 'Passageiros de ônibus estão desaparecendo';  Folha de S.Paulo: Após aumento de gás, desempregada usa galhos em fogão a lenha improvisado (via @folha_mercado).


Alckmin: 'Lula quer voltar à cena do crime' --'crime' para o candidato raspa-do-tacho do mercado é o Brasil sem fome e com  pleno emprego https://t.co/X03zlMOvGu

A coragem de Sérgio Moro


Dogwars


Reforma da Previdência



Novos heróis brasileiros


Em busca do primeiro lugar



Nem tudo pode ser vendido


Eduardo Cunha promete ler as obras completas de Diogo Mainardi para diminuir pena

Moisés Mendes

Estou vendo na GloboNews que Eduardo Cunha leu até agora na cadeia obras de Moacyr Scliar, Albert Camus e Joseph Conrad.

Scliar é o seu preferido. Cunha leu (ou diz ter lido, para reduzir a pena) quatro livros do gaúcho. Eu queria poder ver a reação de Scliar quando soubesse disso.

A primeira conclusão é de que a obra e a memória de Scliar não merecem esse tipo de leitor. Mas depois temos que admitir que também os mafiosos têm o direito de desfrutar da inventividade de Scliar.

(Eu queria ver o Cunha começar e terminar um romance do Diogo Mainardi. Se conseguisse, deveria ter a pena reduzida em 10 anos.)

A história da resistência ao golpe guardará o nome do reitor Cancellier com destaque

Luis Felipe Miguel

Quando a Polícia Federal fez aquela operação de guerra para invadir a UFSC e prender o reitor, houve muito espanto, alguma indignação e pouca solidariedade. Por um lado, a ação policial era claramente desproporcional ao que a situação exigiria - mas nós já nos habituamos a isso, uma vez que a Lava Jato transformou a repressão em espetáculo. Por outro lado, havia as manchetes da mídia, falando no colossal desvio de 80 milhões. Manchetes mentirosas, ficaria claro em seguida; no momento, porém, funcionou a dependência cognitiva que faz com que a gente se baseie no jornalismo para saber do que ocorre fora de nosso círculo imediato.

A fraca reação à agressão à UFSC mostra como mesmo setores mais críticos e melhor informados estão narcotizados pelo discurso do combate à corrupção a qualquer custo, pouco sensíveis à degradação dos direitos individuais e refratários a entender o jogo político que organiza a perseguição seletiva a pessoas e instituições. Seria de investigar o papel dos "isentões" e do "lavajatismo de esquerda" na produção desse estado de coisas.

O ataque à UFMG já suscitou uma reação bem mais forte, tanto em Minas quanto no resto do Brasil e mesmo no exterior. Não há dúvida de que o suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier foi fundamental para essa mudança. A comoção causada por seu gesto extremo fez aflorar a insensatez da operação policial, sua arbitrariedade, o desrespeito aos preceitos legais e mesmo a banalidade das acusações. As pessoas foram presas e humilhadas sem que fossem rés, antes mesmo de serem convidadas a depor, numa ação cujo custo, para a PF, superou o valor pretensamente desviado. Fica evidente que os motivos por trás dela não eram a defesa da moralidade pública ou a proteção às boas práticas administrativas.

Quando script similar é seguido em Belo Horizonte, é fácil entender o sentido da operação da PF e suas implicações.

Cau sempre foi um moderado, um conciliador. A surpreendente radicalidade de seu ato final cumpriu um importante papel político. Não abalou as autoridades no judiciário ou na polícia, que continuam firmes na trilha do arbítrio, amparadas pela impunidade que o retrocesso em curso no Brasil lhes garante. Estão aí a ação na UFMG, a nova ação na UFSC ou mesmo a promoção da delegada da PF de Florianópolis para provar. Mas ele sacudiu a comunidade universitária, quebrou parte de nosso marasmo e fomentou nossa mobilização. A história da resistência ao desmonte dos direitos, no Brasil de hoje, há de guardar seu nome, com destaque.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Sérgio Moro é um inovador

Sobre isso de polícia tirar foto com traficante, o Moro já tirava com Aécio antes de ser modinha

Paula Carvalho

Jornalismo padrão O GLOBO





A caravana do presidente Lula ao Rio de Janeiro tem recebido especial atenção do jornal O GLOBO. Uma equipe, com repórter e fotógrafo, é enviada diariamente aos eventos no interior e na Baixada. Os profissionais produzem farto material, com absoluta isenção, mas nada é publicado, nem uma linha. A mobilização dos jornalistas cumpre o objetivo de apenas garantir uma eventual cobertura caso haja fracasso nos eventos ou agressão ao ex-presidente. Como Lula tem sido recebido pelos moradores da região em manifestações calorosos, optou-se editorialmente por não registrar a passagem do primeiro colocado nas pesquisas no segundo mais importante estado do País, onde, por sinal, se encontra a sede do jornal e o maior contingente de seus leitores.

Como se tornar um pastor pentecostal



Pastores metodistas, anglicanos ou presbiterianos, assim como padres católicos ou ortodoxos, rabinos judeus ou sheiks muçulmanos estudam anos e anos de filosofia e teologia antes de se ordenarem. Já os "bispos" neoevangélicos picaretas só precisam de uma garagem, cadeiras de plástico, uma bíblia velha, lábia vociferante, um bando de idiotas que acreditam em qualquer coisa e uma conta bancária para o depósito do dízimo.

Presidente Trump reconhece soberania de Portugal sobre o Rio de Janeiro

Ora pois, pois!
Fernando Horta

A Assessoria do Presidente Trump acaba de informar que ele reconheceu o Rio de Janeiro como cidade portuguesa, pertencente ao Estado de Portugal e não do Brasil.

"É um grande e necessário passo para a pacificação da região.", disse Trump. "A violência não pode continuar e desde que o Rio de Janeiro foi fundado por portugueses, nos parece claro que a soberania portuguesa deve ser reconhecida".

Trump disse ainda que seu gabinete estava em dúvida se reconhecia a soberania portuguesa ou francesa sobre a cidade já que no século XVI, pouco depois de ser fundada, o Rio de Janeiro foi dominado por franceses que, nas palavras do presidente, "foram determinantes para o contorno que a cidade tem hoje".

Trump já está em tratativas para construir a nova embaixada dos EUA em Portugal na cidade do RJ, mas isto só deverá acontecer no segundo mandato - caso reeleito.

No final da entrevista, o presidente foi perguntado se vai reconhecer Recife como cidade holandesa e todas as cidades norte-americanas da costa leste como inglesa, afinal foram todas fundadas por ingleses e viveram mais de anos nesta condição. Outras perguntas surgiram sobre o reconhecimento de Roma, Londres, Istambul, a Cidade do México e Quito que, quando de suas supostas fundações, não estavam sob a bandeira dos países que estão hoje. Trump informou que sua assessoria está estudando caso a caso, mas que as cidades norte-americanas foram fundadas por norte americanos e que não se atrevam a dizer o contrário.
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