sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Ano de derrotas prenuncia longa noite de pesadelos para o Brasil

Luis Felipe Miguel

Estamos chegando ao final de um ano duro. Um ano de derrotas, em que muito do que foi construído ao longo de décadas foi desmontado ou está sob ameaça e a nossa esperança de avançar mais, na direção de um país mais justo e mais livre, parece ter se dissipado - ou, melhor, está "congelada", como tanta coisa mais.

A noite que desce sobre o Brasil se anuncia longa. No momento, ainda não é possível sequer vislumbrar qual saída conseguiremos construir. É possível que o golpe nunca acabe, que simplesmente deslize para uma “normalização” cujos limites só conheceremos quando forem testados, ou então que cheguemos a uma transição ainda mais ambígua e limitada do que aquela que nos tirou da ditadura militar. Ou, quem sabe, podemos reunir forças para de fato impulsionar uma alternativa popular e progressista, construindo uma nova institucionalidade, focada no valor da igualdade política e voltada não para conter, mas para expressar os movimentos que nascem do mundo social.

O fato de que a gente hoje precise lutar para reconquistar o básico, o que era considerado garantido, como a democracia eleitoral, o direito ao dissenso ou o papel social do Estado, não significa que outras pautas possam ser secundarizadas. Pelo contrário, se há uma lição a ser tirada dos infaustos acontecimentos do ano que se encerra é o alto preço que se paga quando determinadas questões não são enfrentadas. Então, da desmilitarização da polícia à democratização da mídia, da legalização do aborto à garantia dos direitos trabalhistas, da liberdade para ensinar e aprender à demarcação das terras indígenas, da reforma agrária ao combate à homofobia, da tributação progressiva à proteção do meio ambiente, da promoção da igualdade racial ao direito à cidade, da ampliação da participação política popular à defesa da laicidade do Estado, há um universo de frentes de combate. A linha divisória, no entanto, é razoavelmente clara, sobretudo agora que nossos adversários parecem mais propensos a assumir, sem disfarce, seu projeto. De um lado, estão todos os que queremos uma sociedade mais igualitária, mais solidária e mais plural. Do outro, estão eles.

É necessário disputar os valores da sociedade que queremos construir e afirmar aqueles que, historicamente, compõem o campo em que estamos. Essa disputa é crucial e precisa ser travada sem esmorecimento.

Que 2017 seja um ano de de muita disposição para a luta.

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