quinta-feira, 27 de abril de 2017

PT e PSDB são iguais em tudo


As duas caras do Santo da Odebrecht


O nobre esporte bretão à luz do imperativo categórico kantiano: o caso Rodrigo Caio


Wagner Iglecias

Resumo: num país ágrafo como este, produtos midiáticos como séries, novelas, reality shows e jogos de futebol têm grande poder na formação dos valores e da visão de mundo de milhões de pessoas. No que se refere (Rousseff, D., 2010) aos fatos cotidianos do ludopédio há uma enorme influência também sobre crianças e adolescentes. Neste sentido este artigo busca discutir o "fiz o que tinha de ser feito" do atleta são-paulino Rodrigo Caio tendo como referencial o "faça aquilo que você gostaria que outra pessoa na mesma situação que você fizesse, de modo que isso se tornasse uma prática universal" do filósofo oitocentista Immanuel Kant.

Numa nação em grande parte guiada pela máxima de que "malandro é malandro e mané é mané" (Silva, B., 1985) não são incomuns os exemplos de que dentro das quatro linhas vale gol com a mão, tapa na cara, simulação de falta, cusparada e jogadas até mais baixas. Não serão citados exemplos para não abrir uma guerra entre torcidas, mas de fato não é preciso ir longe para encontrar casos neste sentido, enaltecidos inclusive por torcedores que veem neles exemplos de macheza, ousadia, esperteza, coragem e amor à camisa, entre outros absurdos.

Nota: parabéns Rodrigo Caio, Mestre Telê Santana de onde estiver deve ter ficado com orgulho de você, mlk.

Projeto Brasil Nação

Eleonora de Lucena 

O que há em comum entre o massacre de Colniza (MT), o fim da CLT, o esquartejamento da Petrobras e a reforma da Previdência? Existe ligação entre o desemprego alarmante, o sufocamento da indústria e a estratosférica taxa de juros?

E qual a conexão entre as centenas de jovens negros e pobres mortos pela PM paulista, o fim de programas científicos e culturais e o aniquilamento da Constituição de 1988?

Os dados fragmentados do noticiário remetem para o contexto maior de uma realidade aflitiva: a destruição do país e a violência contra os mais fracos e pobres. É a sanha para desmantelar o Estado, atacar direitos, beneficiar rentistas e enxovalhar a soberania que está no pano de fundo da torrente de retrocessos civilizatórios, assaltos a direitos e sequestros da democracia e da autonomia nacional.

Passado um ano do início do processo de impeachment, o país está bem pior. Sob o governo golpista, retrocedeu anos. A meta dos mandantes parece ser voltar à República Velha, destroçando conquistas sociais e submetendo abertamente o país a interesses externos. É possível que, no futuro, crimes de lesa-pátria possam ser julgados, jogando no lixo os atos da súcia.

Aturdida, a população assistiu à avalanche de prepotência, arrogância e desrespeito. Agora, começa a reagir com mais força. Sindicatos e movimentos sociais atuam de forma mais ativa e suas mobilizações repercutem na sociedade.

A greve geral, marcada para esta sexta (28/4), promete ser um repúdio vigoroso ao amontoado de sandices em maquinação pelo governo antinacional e antipopular. Há mais.

A igreja católica saiu do silêncio e passou a se manifestar contra os ataques a direitos. Padres fazem convocações para as mobilizações de protesto. Ecoam, finalmente, os repetidos alertas do papa Francisco.

O empresariado está desapontado com as ações do governo ilegítimo. De um lado, há desilusão com as promessas róseas de recuperação. De outro, há frustração pelos sucessivos golpes para as empresas nacionais, que só vislumbram encolhimento de mercados, aqui e no exterior. Simplesmente o golpe não surtiu o efeito esperado por certa elite.

No Congresso, as manobras são cada vez mais custosas, e a chamada base aliada se esfarela. Do exterior, vozes expressam crítica ao golpe que feriu a democracia brasileira e ameaça o processo eleitoral do ano que vem. O capitalismo financeiro, entrando no seu décimo ano de crise profunda, desgosta da vontade popular e esfrangalha as sociedades.

Nesse quadro, intelectuais, artistas, empresários, profissionais liberais, cientistas, sindicalistas e lideranças de movimentos sociais decidiram falar. Lançam nesta quinta (27) o manifesto do Projeto Brasil Nação.

O texto, criação coletiva de dezenas de pessoas de diferentes matizes, afirma que o atual desmonte do país "só levará à dependência colonial e ao empobrecimento dos cidadãos, minando qualquer projeto de desenvolvimento".

O grupo, apartidário, aponta que o ataque em curso foi desfechado num momento em que o Brasil se projetava como nação, se unindo a países fora da órbita exclusiva de Washington. Com isso, contrariou interesses poderosos do Norte.

O documento recupera os objetivos gerais que cimentam a sociedade brasileira: democracia, soberania, diminuição da desigualdade, desenvolvimento, proteção ao ambiente. Esboça propostas econômicas e conclama ao debate para a formulação de um projeto de nação com autonomia e inclusão.

É hora de reflexão e ação. Hoje, às 18h, no largo do São Francisco, o Projeto Brasil Nação está sendo colocado na rua. Saiba mais pelo site www.bresserpereira.org.br.


ELEONORA DE LUCENA, jornalista, foi editora-executiva da Folha de 2000 a 2010. 

Entenda o que significa "negociado prevalecer sobre o legislado" com exemplo

Humberto Capellari

Podiam fazer a mesma coisa desse papo de "negociado prevalecer sobre o legislado" no código penal.
Imagina que poderia diminuir a violência se assaltantes e assaltados pudessem negociar os termos, sem sequer o envolvimento estatal.

O cara vem, quer te levar até os dentes de ouro (no caso aqui ele seria o equivalente ao patrão), mas você, a vítima (no caso, o equivalente ao empregado) tentaria diminuir as perdas, negociando item a item na conversa:

- Celular, agora!
- Deixa ao menos eu ficar com o chip e o carregador?
- A grana toda, anda mano!
- Poderia então ficar com cinquentinha pra eu comprar a pizza pra janta?
- Se for portuguesa, eu quero três fatia.
- Feito.
- Então manda entregar, que eu vou esperar.
- Então me empresta meu celular.
- Agora ele é meu, conforme negociado.
- Mas o chip é meu.
- Você quer ou não a pizza?
- Quero. 
- Então anda logo.
- Tá.

Depois da refeição, patrão e empregado, digo, assaltante e assaltado se despedem, cada um feliz e satisfeito pelo bom termo das negociações, sem extremismos ou violência.

Golpe desenhado para imbecis

Gustavo Castañon

GOLPE PARA DUMMIES:

1) A corrupção brasileira tem 500 anos (a mídia apoiou);
2) De repente quiseram limpá-la, mas só botaram o PT na cadeia (a mídia apoiou);
3) Então os maiores ladrões do país assumiram o poder (a mídia apoiou);
4) Em vez de acabarem com a corrupção, aumentaram seus salários, dos juízes e dos militares, e congelaram o do resto dos servidores por vinte anos (a mídia apoiou);
5) Em uma única operação de venda de campo do pré sal, lesaram mais a Petrobrás que os 9 anos de "petrolão", assim como em um perdão de dívida das teles, um perdão de dívida do Itaú, um perdão de dívida dos planos de saúde (a mídia apoiou);
6) Finalmente acabaram com sua aposentadoria e seus direitos trabalhistas (a mídia apoiou);
7) Tudo isso em nome de melhorar a economia que eles afundaram (a mídia diz que está melhorando).

Aí me vem um canalha e reclama que eu chamo de canalha quem apoia tudo isso. Deixo vivo, falando, todo pimpão, e ainda reclama.

Temer jamais


Aberração Temer


ABERRAÇÕES

"Governo Temer" é só uma expressão da preguiça mental aliada a defeitos muito piores. Trata-se, na verdade, da aberração Temer. Jamais –portanto nem na venenosa fase de Roberto Campos como ideólogo e artífice da ditadura– este país de desatinos viveu, em tão pouco tempo, um assalto tão violento e extenso a direitos de mais de quatro quintos da sua população e às potencialidades do próprio país.

Mesmo na Síria atual, nem toda em guerra, algumas coisas melhoram. Os países são composições tão complexas e contraditórias que, neles, nunca tudo segue na mesma direção. Foi o caso inegável da ditadura militar. É o caso deste transe que permite a Henrique Meirelles, Michel Temer e aos economistas do lucro fácil a comemoração, como no mês passado, de uns quantos números aparentemente consagratórios, mas já de volta à realidade torpe.

Nem poderia ser diferente. O que Meirelles tem a oferecer e a subserviência Temer subscreve, ambos a título de combate à crise, é um país manietado, com a vitalidade reprimida, aprisionado na desinteligência de um teto obrigatório de gastos que, no entanto, para baixo vai até à imoralidade de cortar gastos da educação e da saúde.

As greves e os demais protestos previstos para amanhã, não importa a dimensão alcançada, justificam-se já pelo valor simbólico: há quem se insurja, neste país de castas, contra a espoliação de pequenas e penosas conquistas que fará mais injusta e mais árdua a vida de milhões de famílias, crianças, mulheres, velhos, trabalhadores da pedra, da graxa, da carga, do lixo, do ferro –os que mantêm o Brasil de pé. E, com isso, à revelia permitem que as Bolsas, a corrupção e outras bandalheiras vicejem.

Reforma Trabalhista foi a que criou a CLT, Consolidação das Leis Trabalhistas, impondo ao patronato certo respeito ao trabalho e ao seu factor, até então apenas sucedâneos dos séculos escravocratas. O projeto de Temer, Meirelles e dos seus adquiridos na Câmara devasta 117 artigos da CLT. Devasta, pois, a CLT.

Com malandrices como, de uma parte, arruinar os sindicatos, tirando-lhes a verba de contribuição sindical (deveria acabar, mas por modo decente); de outra, estabelecer que as condições do trabalho serão acertadas entre esses sindicatos fragilizados, se ainda existentes, e o patronato. Por coerência dos autores, com esta aberração: se os "acordos" estiverem fora da lei lei, valem mais do que a lei.

Último ministro da Previdência na ditadura, Jarbas Passarinho declarou, em cadeia (quem dera) nacional, que a Previdência estava falida. Finda a ditadura, Waldir Pires assumiu a Previdência com uma equipe capaz e provou o contrário. Meirelles, dublê de ministro da Fazenda e da Previdência, o que erra na primeira não acerta na segunda. Aumentou o desemprego em 30%. Logo, reduziu a arrecadação previdenciária.

Só em março, a cada dia foram cerca de 3.000 demitidos a deixarem de contribuir. A correção Meirelles/Temer: cassar direitos de quem trabalha de fato, na fase da vida em que mais precisam deles. Com essa usurpação, diminuir o buraco que, em seguida, faz maior.

Mais direitos se vão e menos remuneração haverá por obra do desregramento aplicado à terceirização do trabalho. Se as empresas não ganhassem, em comparação a seu gasto com o empregado formal, não quereriam terceirizados.

Já se sabe, portanto, de quem a aberração Temer tira para dar a quem. É a lógica da aberração Temer: já que do povo não obtém popularidade, dele tomar o que possa.

Não só por ser uma eminência nacional, ou pelos motivos que o fazem sê-lo, Gilmar Mendes não seria esquecido aqui. Ainda mais em seguida à mais recente façanha de sua sábia independência como jurista e juiz: a concessão a Aécio Neves de só depor, no inquérito sobre improbidades em Furnas, depois de conhecer os demais depoimentos.

Assim Gilmar Mendes inventou a maneira mais simples de impedir inquéritos: como os direitos de depoentes são iguais, se todos requererem o mesmo direito dado a Aécio, não poderá haver inquérito, por falta depoimento a ser ouvido. Os acusados da Lava Jato podem usar a invenção nos respectivos inquéritos.

Antes país dos desatinos, agora é o país das aberrações. Afinal, sob protestos, que têm à disposição um futuro convidativo.

O pós-jornalismo de pós-esgoto da Folha de S. Paulo


A imagem é da capa do jornal Folha de S. Paulo de hoje. Fala "alunos", genericamente, mas são 14 (catorze) estudantes de um colégio privado frequentado pelos filhos dos ricos paulistanos, um dos dez mais caros da cidade, que divulgaram uma carta aberta contra a decisão de seus professores - que se uniram a muitos outros assalariados brasileiros e decidiram parar amanhã, na #GreveGeral contra o fim dos direitos trabalhistas e previdenciários.

Catorze estudantes ganham chamada de capa daquele que afirma ser o maior jornal brasileiro. Nem vou discutir o texto que eles divulgaram, onde se lê que "defender políticas públicas pautadas em ideais de 'justiça' e 'defesa dos mais pobres' é meio caminho andado para a irresponsabilidade fiscal". (Não acredito que um adolescente, por mais imbecilizado que esteja, possa produzir um texto assim.)


Também não vou discutir a reportagem da Folha, que logo passa dos estudantes para seus pais enraivecidos e tem o nítido objetivo de passar um recado às escolas privadas: reprimam seus empregados ou perderão seus clientes. Nem vou me estender sobre a declaração do pai de dois dos catorze neoliberais mirins, que reclama que os professores tomaram decisão unilateral, que devia ter sido "mais discutido antes". Ele sabe o que é uma greve? E, sobretudo: que discussão houve antes do governo golpista decidir abolir a aposentadoria?


Vou deixar tudo isso de lado. Mas resta a questão: qual a relevância de um manifesto assinado por catorze estudantes, a ponto de receber uma chamada de capa da Folha? Quantos manifestos de coletivos populares, representando grupos muito mais significativos, com reflexões e reivindicações muito mais sérias, são simplesmente ignorados pela imprensa? Quantas manifestações, greves, enfrentamentos, boicotes ocorreram nas últimas semanas, que reuniram centenas ou mesmo milhares de pessoas, que não foram sequer noticiados, muito menos na primeira página? Quantas lideranças camponesas e indígenas são assassinadas sem que seu nome apareça no jornal?


O jornalismo profissional tem dedicado muito espaço para discutir a "pós-verdade". Podia começar consigo mesmo.

13 pontos da reforma trabalhista que mexerão na sua vida pra sempre e pra pior


A Câmara aprovou o maior retrocesso nos direitos das últimas décadas. O governo ilegítimo, sem votos, deixou que uma reforma nos direitos dos trabalhadores fosse comandada por grandes empresários e lobistas de bancos, da Confederação Nacional da Indústria – CNI e de outras confederações empresariais, como mostrou o The Intercept Brasil (https://goo.gl/nPv3qX). O resultado é a supressão dos direitos trabalhistas.

Não podemos deixar que esse projeto seja aprovado também no Senado. Temos que nos unir e somar forças numa grande mobilização nacional. E ainda assim, se aprovado, precisaremos de um referendo revogatório.

Leia aqui 13 pontos desta reforma que podem piorar a sua vida para sempre.

1. Demissões coletivas. Agora os empregadores podem demitir todo mundo da sua empresa e contratar outras pessoas por menores salários e menores benefícios sem nenhuma multa.

2. Trabalho temporário, pra sempre. O patrão vai poder te contratar por hora durante toda a sua vida. Sem garantias. Por exemplo: bares, restaurantes, indústrias poderão te chamar para trabalhar temporariamente quando quiser e você não terá seu emprego e salário fixos garantidos.

3. Fim da hora-extra. A CLT prevê jornada de trabalho de no máximo 8 horas por dia. Agora, ao invés de pagar horas extras para o trabalhador que ficar mais tempo trabalhando, o empregador vai contratar uma jornada de trabalho maior. Diminui o salário do empregado no final do mês.

4. Meia-hora de almoço. Antes era obrigatório almoço de uma hora. Mas para este governo apenas meia-hora é suficiente.

5. Suas roupas também entraram na reforma. A partir de hoje o patrão vai poder dizer até como você tem que se vestir. Mesmo aqueles uniformes que te exponham ao ridículo estão liberados. E não importa que faça frio ou calor, a roupa é a que os patrões escolherem.

6. Fim do transporte de empregados. As empresas não precisarão mais pagar pelas suas horas de deslocamento. Quem mora mais longe é o mais prejudicado. Vai perder tempo e dinheiro.

7. Mexeram nas suas férias. Agora os patrões podem parcelar livremente suas férias em até 3 vezes, como for melhor pra eles.

8. Se você é terceirizado, preste atenção: a empresa que contratou a terceirização (às vezes é o governo ou outra empresa bem maior) não vai mais ter responsabilidade nenhuma sobre sua indenização se você for demitido. Se você não receber os seus direitos, já era.

9. E se você tem carteira assinada e está há muitos anos na empresa? Saiba que agora a empresa vai poder te demitir e demitir todos os teus colegas para contratar terceirizados, mais baratos pros patrões, sem direitos, sem carteira assinada.

10. A crueldade chega até às grávidas: quem decide aonde as grávidas (e as lactantes) trabalham é o médico da empresa. Ou seja, mesmo que ela esteja em um local insalubre para ela e o bebê, quem decide agora o lugar de trabalho é teu patrão.
E a quem você vai poder reclamar?


11. Não tem mais Comissão de Conciliação Prévia. O que o patrão negociar com você vai valer mais do que a Lei. Vale o que o patrão mandou e a regra que você assinou quando conseguiu o emprego.

12. Rescisão. Não vai ser mais obrigatório o sindicato assinar a tua rescisão. Eles podem agora fazer a rescisão do jeito que eles quiserem. Você ficou não mão dos patrões.

13. Golpe na Justiça do Trabalho. A justiça do trabalho não é mais gratuita. Você vai ter que pagar honorário até do perito. E se não tiver dinheiro, fica sem poder reclamar.




Não existe saída pacífica desta ditadura

Claudio Daniel

Vocês acreditam realmente que a direita deu um golpe de estado, liquidou com a legislação trabalhista e os direitos sociais para entregar a presidência da república a Lula em 2018? 

Mesmo na hipótese improvável de haver eleições livres em 2018, que Lula possa se candidatar (se não for preso ou morto antes) e consiga se eleger, vocês ainda acreditam que ele poderá governar com um Congresso, um Judiciário, uma Imprensa e uma Polícia Federal dominadas pela direita? 

NÃO EXISTE SOLUÇÃO INSTITUCIONAL. CHEGA DE "REPUBLICANISMO"!

Bem-vindos ao século XIX

Carlos D'Incao

SEJAMOS BEM-VINDOS AO SÉCULO XIX

Pronto. A reforma trabalhista foi aprovada. Voltamos ao século XIX... Trabalhadores sem nenhum direito com a exceção da liberdade de vender (no livre mercado) sua força de trabalho nos leilões da escravidão assalariada.

Os políticos brasileiros conseguiram reeditar com extraordinária atualidade cada linha do "Manifesto Comunista" de Karl Marx e Friederich Engels.

Podermos dar especial destaque para o seu trecho final:
"Os trabalhadores não tem nada a perder, a não ser suas correntes. Têm, por outro lado, um mundo a ganhar. Trabalhadores de todos os países, uni-vos".
Mas é interessante citarmos também uma outra frase de Marx, do livro "O 18 de Brumário de Luís Bonaparte":
“Em alguma passagem de suas obras, Hegel comenta que todos os grandes fatos e todos os grandes personagens da história mundial são encenados, por assim dizer, duas vezes. Ele se esqueceu de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.”
Temer conseguiu ser as duas coisas: uma tragédia e uma farsa.

Troque seu amigo coxinha por um cachorro abandonado


Gustavo Castañon

Só duas coisas importam na reforma trabalhista:

1) Acordos agora podem se sobrepor à lei;
2) Terceirizados não tem direitos trabalhistas.

O coxa seu amigo prefere acreditar na Globo, mas a verdade simples é que ele lutou para tornar o filho dele escravo, e quando tiver cinquenta anos, será demitido e trocado por um terceirizado.

A reforma da previdência queria fazer a gente trabalhar até morrer.

A trabalhista nos fará morrer desempregados  e sem aposentadoria.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Veja íntegra da entrevista de Lula ao SBT

Ex-presidente responde a acusações de Emílio e Marcelo Odebrecht

KENNEDY ALENCAR

Ex-presidente Lula diz que mercado financeiro deve temer sua volta ao poder, porque BNDES e BB voltarão a ser “bancos públicos”. E responde a acusações feitas em delações de Emílio e Marcelo Odebrecht. Também fala sobre possíveis colaborações de Palocci e Leo Pinheiro. Daqui a pouco, o blog publicará a íntegra em texto. Por ora, veja em vídeo:






*Kennedy Alencar – Olá, o SBT entrevista hoje o ex-Presidente Lula. Presidente, obrigado por nos dar esta entrevista.’

Luiz Inácio Lula da Silva – Obrigado a você, Kennedy, por esta oportunidade.

KA – Presidente, vou começar falando da Lava-Jato. Estava previsto um depoimento do senhor na próxima semana, quarta-feira. Há notícias de que esse depoimento foi adiado em face de pedidos da Polícia Federal e do Governo do Paraná, com medo de manifestações, em que estariam presentes tanto apoiadores do senhor quanto críticos. O adiamento desse depoimento, o senhor o considera prejudicial? Qual é a importância de estar frente a frente com o juiz Sérgio Moro?

Lula – Primeiro, eu não tenho nenhum problema com a data. A data quem marca é o juiz Moro. Marcando, eu estarei presente, seja dia 3, dia 4, dia 2, dia 20. Eu não tenho nenhum problema com a data. Aliás, eu estou com vontade de prestar este depoimento porque vai ser a primeira vez que eu vou ter uma oportunidade de, na frente do Moro e na sala das pessoas que me acusam também, poder dizer aquilo que eu penso, aquilo que eu sei, aquilo que eu fiz, e poder contraditar aquilo que eles disseram que eu fiz, porque é um depoimento em que eu não tenho que provar a minha inocência; eles é que têm que provar a minha culpabilidade. Então, eu estou esperando. Não tenho nenhum problema com manifestação contra ou a favor. Ou seja, eu quero ir lá e prestar meu depoimento, como todo mundo faz, e prestar contas à sociedade brasileira, porque faz três anos que eu sou massacrado 24 horas por dia. O depoimento é a primeira grande oportunidade que eu tenho de poder falar frente a frente com o Juiz Moro.

KA – Sim, exercer o seu direito de defesa plenamente. Em relação a direito de defesa, o Juiz Sérgio Moro disse que ele pode rever aquele pedido de exigir a sua presença no depoimento de oitenta e sete testemunhas de defesa. No despacho, ele disse, Presidente, que ele vê aparente abuso do direito de defesa e que, se a sua defesa diminuir o número de testemunhas, ele poderia dispensar o senhor de estar presente. O senhor pretende, a sua defesa pretende reduzir o número de testemunhas? Como é que vê essa decisão do Moro?

Lula – Primeiro, Kennedy, nós temos que ter em conta que o juiz Moro não pode julgar a quantidade de testemunhas. Ele tem que julgar é a qualidade do depoimento que as pessoas vão fazer. Se os meus advogados chamaram as testemunhas que chamaram, é porque eles acham que a testemunha tem alguma coisa nova a acrescentar no direito de defesa que eu tenho. E ele não pode cercear e limitar o direito de defesa, tentando cercear a quantidade de testemunhas. O Ministério Público não pede para mim, não pede para os meus advogados a quantidade de pessoas que vão investigar, que vão acompanhar. A Polícia Federal não pede. Portanto, eu acho que o juiz Moro teria que, democraticamente, respeitando o Estado de Direito, garantir que os advogados convoquem a testemunha que quiserem convocar para participar desse processo.

KA – E quanto à exigência da sua presença?

Lula – Eu acho que não tem barganha. Se o juiz Moro fez essa proposta de barganha para diminuir, que assim ele não exigirá a minha presença, pra mim não tem problema.

KA – O senhor estará presente?

Lula – Se for necessário, eu mudo para Curitiba, fico lá o tempo necessário para esperar o julgamento. Mas a gente não vai abrir mão de uma testemunha que nós consideramos importante para esclarecer à opinião pública o que está acontecendo no Brasil.

KA – Presidente, há rumores inclusive alguns jornalistas escreveram a respeito disso_ de que o adiamento poderia estar ligado a alguma estratégia para se tentar obter alguma prova que fundamentasse um eventual pedido de prisão do senhor. E citaram até o que o Léo Pinheiro falou no depoimento da semana passada, dizendo que numa conversa o senhor teria dito a ele para destruir provas. Eu queria que o senhor se manifestasse a respeito disso que o Léo disse a respeito dessa eventual possibilidade de uma prisão com esse adiamento. O senhor acredita nisso? Teme isso?
Lula – Kennedy, eu acho que alguém, para ser preso, tem que ter cometido um crime, tem que ter cometido uma falta grave, um delito gravíssimo, que justifique a prisão. Veja, primeiro nós temos que levar em conta a situação em que o Léo deu a sua delação, o seu depoimento. O Léo deu um depoimento sem o compromisso da verdade. Todo mundo já escreveu neste País — e você já leu em vários jornais, em vários blogs — que desde dois anos atrás o Léo vem sendo pressionado a, em algum momento, citar meu nome. Aliás, de todo mundo que é preso, de todo mundo que é detido, a condição sine qua non para que os procuradores aceitem a delação é citar o meu nome. E o Léo, então, era o que todo dia a gente lia nos blogs: “O Léo foi chamado para prestar depoimento, mas estão exigindo que ele fale o nome do Lula”; “o Ministério Público não aceitou o depoimento porque ele não falou o nome do Lula”. Além disso, o Léo está condenando a vinte e seis anos de cadeia. E ele viu esses dias na televisão uma grande matéria sobre as pessoas que fizeram delação premiada, vivendo uma vida de nababo. O cara está condenando a vinte e seis anos de cadeia e fala: “Bem, se tudo que eu fizer para sair daqui é fazer alguma futrica contra o Lula, eu vou delatar até a mãe, se for o caso”.

KA – A lei da Delação prevê que ele não pode mentir.

Lula – Então, deixe-me falar uma coisa: o Léo prestou um depoimento, e no depoimento…

KA – Ainda não fez uma delação.

Lula – Sim. Então, veja, eu não sei o que vai ser na delação. Na delação…

O SR. ENTREVISTADOR – Está negociando…

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Na delação, tanto pode mentir…  Já teve muita gente que já mentiu, que já voltou, que fez outra delação. A pessoa pode mentir à vontade. O Ministério Público aceita ou não. Estou consciente, Kennedy, de que já faz três anos que eu estou sendo investigado. Já investigaram, já arrombaram a casa dos meus filhos, já invadiram a minha casa, já levantaram o meu colchão, já levantaram a minha conta bancária, já futricaram a vida minha, a da coitada da Marisa, quando era viva. E até agora eles não encontraram um real na minha vida! Não encontraram um indício de corrupção. Querem continuar investigando? Podem continuar investigando, podem fazer o que bem entender. A única coisa que eu desejo nesse processo todo é que, ao terminar todas as investigações… Podem prender mais quantos empresários quiserem, podem exigir que falem o meu nome quanto quiserem, porque eu duvido — e vou falar olhando na sua cara e para a câmera: eu duvido que tenha um empresário que diga neste País que um dia o Lula pediu dez reais pra eles. Duvido! E não pedi por uma única razão: porque eu não queria perder o respeito na minha relação com os empresários, e não quero que eles percam o respeito comigo. Porque, quando um candidato a Presidente ou um Presidente pede dinheiro a um empresário, ele perdeu a moral com aquele empresário. Então, eu mantive essa relação porque eu gosto de receber respeito e gosto de dar respeito às pessoas. Querem continuar investigando? Podem continuar, não tem problema nenhum. Agora, se não encontrar, a única coisa que eu peço é o seguinte: pelo amor de Deus, tenham a grandeza de utilizar a palavra “desculpe” ao povo brasileiro. E digam o seguinte: “Nós futucamos, cutucamos, voltamos a futucar e a cutucar, e não encontramos um real de corrupção no Lula; então nós queremos dizer que pedimos perdão pra ele”. Se não fizerem isso, lamentavelmente não está se fazendo justiça neste País.

KA – Presidente, a sua defesa sempre alega para que Moro e os investigadores são parciais. O senhor mesmo falou: “Ah, as condicionantes para os delatores são sempre envolver o nome do Lula”. O senhor se sente claramente então perseguido pelo Ministério Público? E por que o Ministério Público faria isso em relação ao senhor, por quê?

Lula – Porque nós estamos vivendo um momento de excepcionalidade. Se você pegar as denúncias feitas contra mim, você percebe que elas fazem parte de um processo. Se você pegar agora esses últimos trinta dias, que vai chegando perto do meu depoimento, eles criaram um roteiro. Por que sabe qual é o grande problema da Lava-Jato? O grande problema da Lava-Jato é que eles se subordinaram aos meios de comunicação para poder obter sucesso no que eles estão fazendo. Então, eles estão reféns dos meios de comunicação. E esse negócio não pode acabar! Não pode acabar com as manchetes absolvendo o Lula! Eles me condenaram três anos! Então, eles resolveram fazer esse show de pirotecnia, levando a Odebrecht… E é engraçado porque, no meu caso, quando o Emílio Odebrecht foi prestar depoimento — eu vim escutando hoje —, ele diz textualmente: “Eu e outras empresas, junto com a Globo, criamos uma empresa para pressionar o processo de privatização no governo Fernando Henrique Cardoso, sobretudo na área de telefonia e na área de petróleo”. Eu imaginei que aquilo seria manchete no Jornal Nacional. Nem deram nada! E o Ministério Público, nem o Janot nem ninguém da operação Lava-Jato, resolveu fazer um processo de investigação para saber se era verdade. Então…

KA – O senhor vê seletividade nas investigações?

Lula – Tem seletividade e tem um desejo. E eu acho que o desejo com relação a mim só tem um: eles sabem já, eles sabem que não vão encontrar corrupção na minha vida. Eles sabem. Agora, o que está por detrás disso é que, depois de tudo que eles fizeram comigo, em qualquer pesquisa de opinião pública que fazem que eu apareço em primeiro lugar, na frente de todos e, em algumas situações, até ganhando as eleições do primeiro turno. Eles estão fazendo o que eles puderem fazer para tentar tirar um processo de evitar que o Lula saia candidato em 2018.

KA – Então, é importante. Todo homem público tem o dever de dar explicações. O senhor mesmo mencionou que é uma oportunidade para se defender. Nessa questão do depoimento, nesse processo especificamente, presidente, a acusação é a seguinte: teria havido um desvio de 3,7 milhões de reais de contratos da OAS com a Petrobras para custear uma reforma no apartamento do Guarujá e manter o acervo presidencial guardado numa empresa durante um tempo. Na semana passada, o Léo Pinheiro disse que esse apartamento pertencia ao senhor.  O senhor nega a propriedade, a sua defesa apresentou documentos nesse sentido. Mas o Ministério Público sustenta que essa documentação, na verdade, faz uma ocultação de patrimônio. O que o senhor tem a dizer sobre essa acusação?

Lula – O que eu posso dizer é que o Ministério Público começou mentindo e continua mentindo a esse respeito. Veja, para você provar que eu sou proprietário de um patrimônio qualquer, você tem que ter um recibo, você tem que ter um registro em cartório, você tem que ter uma escritura, porque isso não é uma coisa privada. Quando você vai registrar o imóvel, você tem que mostrar claramente que tem um documento assinado. Ora, se eu não paguei, se eu não tenho um recibo, se ele não recebeu, se a OAS dá o tal do apartamento como garantia de vários empréstimos que ele fez, o apartamento não pode ser meu, o apartamento não pode ser meu. A mesma coisa é a chácara. Ou seja, ele sabe que tem dono, sabe que foi pago com cheque, sabe que foi pago com… Eles sabem, eles já investigaram tudo. Agora, se eles mentiram e não têm como sair da mentira, é problema deles, não é meu.

KA – Presidente, os investigadores, eles dizem que há evidências que reforçam a tese de acusação deles, porque houve reformas feitas no apartamento do Guarujá; e, no sítio, o senhor frequentou o sítio durante bastante tempo. E que provaria, no entender dos investigadores, que esses bens estavam sendo preparados para o seu uso pessoal e que empreiteiras, com fortes interesses em contratos da Petrobras, bancaram reformas de cozinha em apartamento, no sítio. Eu pergunto: um político tão importante como o senhor — aceitando-se a tese da sua defesa, como o senhor está dizendo: “Olha, os bens não são meus” —, no entanto, essas reformas que podem ser tidas como agrados a um político importante, não são vantagens indevidas, como dizem os investigadores, Presidente?
Lula – Então, vamos mudar o processo, vamos fazer outro processo. Vamos dizer o seguinte: primeiro, queremos reconhecer que o apartamento não é do Lula e queremos reconhecer que a chácara não é do Lula. E queremos reconhecer que na chácara as empresas fizeram reformas a pedido de quem é o dono da chácara. Vamos supor que seja isso. Então, é o que tem no processo. Anule o processo de corrupção e vamos criar a tipificação de um outro processo, que ele pode chamar de processo moral, de processo ético. Mas não pode continuar dizendo que teve corrupção.

KA – Mas o senhor não vê nada eticamente errado?

Lula – Mas deixe-me perguntar-lhe uma coisa: você já foi à loja com sua mulher comprar sapato?

KA – Já.

Lula – Já? Você viu que às vezes ela pede para o cara da loja descer quarenta caixas e ela bota os quarenta nos pés, e depois ele fala: “Não quero nenhum”. Levanta e vai embora. Como é que você acha que fica o dono da loja? Puto da vida com a sua mulher, porque desceu tudo e não comprou nenhum. Ora, se ela não comprou, o sapato não é dela.

KA – Isso é o caso do apartamento que o senhor…?

Lula – É o caso do apartamento e é o caso da chácara. Se eu não comprei, não é meu! Se eu não paguei, não é meu! Se não tem registro, não é meu! Se não tem documento, não é meu. Se não tem um cheque, não é meu! É isso que eu quero que eles digam. Depois podem dizer o que quiser. Meu filho, eu passei oito anos da Presidência da República, oito anos! Não foram oito dias, não. Eu não fui a um jantar, eu não fui a um casamento, eu não fui a um aniversário, eu não fui a um almoço na casa de ninguém, exatamente porque eu sabia que no meu papel de Presidente da República eu tinha que manter uma isenção total da relação com o empresário. Depois que eu deixei a presidência, eu tinha o direito de fazer o que bem entendesse, meu filho. Eu tinha o direito de ir à praia, de ir à fazenda, de ir a um sítio, que eu não era mais homem público. Eu era um cidadão, ex-Presidente da República. E “ex” é que nem jarro chinês: não vale nada.

KA – Ah, mas o senhor pode ser candidato agora, Presidente. Um político importante que pode voltar a ser Presidente da República, ele não tinha que recusar esse tipo de agrado das empreiteiras?
Lula – Se eu for candidato… Primeiro, não foi um agrado porque eu não tive agrado.  Primeiro, não houve. Segundo, se eu for candidato, eu vou ser julgado pelo povo. O julgamento do povo para mim é sagrado.

KA – Beleza, eu quero falar com o senhor…

Lula – Até porque durante a campanha eu vou ter chance de debater com os meus adversários.
KA – Tem um outro ponto importante, e eu preciso ouvir o senhor. Numa delação, Emílio Odebrecht disse que conversou com o senhor sobre pedido de contribuição para o PT e que o senhor e ele designavam pessoas para tratar dos valores, que era uma conversa geral. E ele faz um relato, na delação, de que ele afirmou que ele precisava puxar a orelha do pessoal dele para não economizar, não tentar diminuir os pedidos, e o senhor precisaria puxar a orelha do seu pessoal para não pedir tanto. Esse diálogo aconteceu? E o senhor fez algum pedido de doação para o PT ao Emílio Odebrecht?

Lula – Deixe-me dizer para você — e vou até olhar, não sei se o Emílio está vendo ou os procuradores que fizeram a pergunta estão vendo: eu tenho muita relação de amizade com o Emílio, como tenho com o Léo, e como tenho com outros empresários. Eu duvido que algum deles, duvido que algum deles… Eu não sei quais foram as condições que eles disseram, não sei quais foram as regras que impuseram a ele, mas eu duvido que o Emílio tenha em algum momento conversado comigo sobre dinheiro de campanha. Eu não permitia que se conversasse comigo e não conversava com ele sobre isso, por aquilo que eu lhe disse anteriormente: eu queria manter uma relação de respeito, e, se você estabelecer uma relação de pedir recursos, você cria uma relação de promiscuidade; e um presidente não pode ter uma relação promíscua. Eu vou te dizer mais: se um presidente da República, qualquer que seja ele, for a um jantar ou for a um almoço e pedir dinheiro para empresário, ele não vai conseguir governar corretamente, porque ele estabeleceu uma relação promíscua. E isso eu não aprendi na universidade, não; isso eu aprendi na minha sobrevivência política. Portanto, eu duvido que exista um momento em que o Emílio tenha me oferecido cinco centavos e que eu tenha pedido quatro centavos a ele.

KA – Um outro ponto importante da delação, agora do Marcelo Odebrecht, é a respeito de um provisionamento de recursos feitos pela Odebrecht, que nas palavras do Marcelo Odebrecht variam ali de trinta e cinco a quarenta milhões, que seria uma conta com o codinome “amigo”, que seria um codinome se referindo ao senhor. E que essa conta seria administrada pelo Palocci, ex-Ministro da Fazenda. O Marcelo Odebrecht disse que nunca tratou com o senhor disso, mas que ele entendia, presumia, pelas conversas dele com o Palocci — isso no relato feito pelo Marcelo Odebrecht na delação —, que os recursos retirados dessa conta, desse provisionamento, seriam utilizados pelo senhor. Inclusive teria dito lá que o Branislav Kontic, um auxiliar do Palocci, teria levado treze milhões em dinheiro vivo ao senhor. A sua defesa diz que essa acusação é a mais absurda de todas as ilações. Seus advogados já se manifestaram, mas eu queria que o senhor se manifestasse e dissesse para mim por que o senhor considera a mais absurda?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Você sabe que um bom cliente não se manifestaria depois da manifestação dos advogados. Mas essa não é absurda: essa é surreal! Primeiro, você sabe que já pegaram o dinheiro do Serra não sei aonde, já pegaram o dinheiro do Aécio não sei aonde, já pegaram o dinheiro… Ou seja, já pegaram dinheiro de muita gente em paraísos fiscais pelo mundo afora.

O SR. ENTREVISTADOR – É, há acusações nesse sentido.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Há acusações, várias acusações! No meu caso, pense bem, no meu caso, supostamente tem uma conta que não está nem no nome do Palocci nem no meu e nem de ninguém do PT, está no nome do próprio doador. Segundo, que ele retirou treze milhões para dar para mim. Você viu a conta que fizeram do que significam treze milhões de reais. Será que dez centavos desses treze milhões não tinham que ser depositados em uma conta? Como é que eu iria carregar treze milhões? Não é naquela mochilinha com que você anda, que o jornalista usa para carregar computador. Então, querido Kennedy, eu fico às vezes preocupado, porque essas pessoas estão presas há muito tempo.  Você sabe que, no tempo da tortura, teve gente que morreu para não delatar e teve gente que não aguentou a tortura, teve gente que fraquejou, teve gente que contou. E eu tinha muito debate, quando eu fundei o PT, entre aqueles que eram traidores e não.  Eu não considerava traidor o cara que delatou. Olha, o Marcelo está preso há mais de dois anos. O Marcelo… no Brasil não temos nem habeas corpus mais, coisa que no regime…

O SR. ENTREVISTADOR – Essa colaboração premiada não é um instrumento importante para obter uma colaboração…?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Veja, é um instrumento importante que deveria ser feito se a pessoa fosse espontaneamente.

O SR. ENTREVISTADOR – Então, o senhor acha que está sendo mal usado?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Está sendo mal usado, não, é que as pessoas estão sendo torturadas psicologicamente! O Marcelo não se apresentou lá para fazer uma delação premiada. Ele está sendo coagido todo santo dia. É o que a gente lê na imprensa. É o que a gente lê do Léo, é o que a gente lê do Marcelo e de outros. Agora é do Palocci, todo dia: “O Palocci vai fazer delação”, “O Palocci vai fazer delação”, “o Vaccari vai fazer delação”, “Não sei quem vai fazer delação”, ou seja, todo dia é uma coação. Olha, eu converso com muitos advogados, eu leio jornais, eu fico sabendo de notícias. Todo dia tem alguém que foi convidado a fazer delação e citar o nome do Lula. Todo dia, se alguém for preso, a primeira pergunta que se faz é sobre o Lula. Houve uma prisão lá em São Bernardo por causa do Museu do Trabalho; a quase todos os investigados a primeira pergunta era se o museu era do Lula. Então, eu diria que há quase uma caça às bruxas. Eu sinceramente não sei por quê. Eu fui o melhor Presidente da República para o Ministério Público, eu fui o melhor Presidente da República para a Polícia Federal, eu fui o Presidente da República… E nos 12 anos de PT, foi o momento em que nós mais fortalecemos as instituições de fiscalização. A Controladoria da República foi fortalecida, a Polícia Federal foi fortalecida. O Ministério Público ganhou o status de autonomia, em que a gente indicava sempre o primeiro da lista, para não permitir que ele fosse chamado de engavetador. Criamos a Lei da Transparência, para permitir que o jornalista tivesse acesso a tudo. Então, se tem alguém, se tem alguém que criou o conceito de que a lei é para todos, somos nós do PT. E queremos ser julgados, nós não queremos evitar de sermos julgados. Agora, o que nós queremos é que o julgamento se dê na base da prova. Eu quero que alguém prove. Não é possível que eu tenha o tanto de dinheiro que eles falam que eu tenho, e eles não acharam um centavo meu. E já acharam de muitas outras pessoas de que eles nem falavam. Então, Kennedy, eu queria dizer para você mais uma vez — e uma vez eu disse no programa do Jô Soares, quando era no SBT — uma coisa, e até o Sílvio Santos ligou para mim, às duas horas da manhã: eu tenho um valor na minha vida de que eu não abro mão, que é o valor do orgulho de ser honesto. Eu aprendi com uma mulher analfabeta. Eu aprendi com uma mãe analfabeta, que nasceu e morreu analfabeta, que, quando a gente aprende a andar de cabeça erguida, a gente não baixa mais a cabeça. Então, meu caro, meu patrimônio é a minha moral. Então, por favor, querem continuar me acusando? Me acusem. Querem continuar me acusando? Agora eu quero que vocês provem, porque tem milhões e milhões de brasileiros que querem saber se é verdade o que estão falando. Não venham dizer para mim… Ou seja, eu vou prestar um depoimento, e eu não quero que a pessoa pergunte para mim se eu fui ao Guarujá, se paguei um pedágio. Eu quero que a pessoa me mostre algum documento que diga que eu comprei apartamento. É isso que eles têm que fazer. “Ah, o Lula foi no pedágio não sei aonde, o Lula foi no pedágio…” Ora, meu Deus do céu! É passar em um pedágio sem saber até para onde vai, porque, para pagar um pedágio para ir para o Guarujá, você pode pagar o pedágio e ir para Rio-Santos, ir para Bertioga, e não ir para o Guaruja. Ou ir para Santos pela balsa. Então, eu estou cansado de brincadeira! A verdade é esta. Eu estou cansado, estou cansado de brincadeira com o meu nome. Estou cansado de achincalhamento. E acho que isso tem que parar em algum lugar.

O SR. ENTREVISTADOR – Presidente, na sua atuação internacional, durante o seu Governo, o senhor definiu uma política externa, com essa posição geopolítica que o Brasil tem naturalmente na América Latina e na África, até por questões históricas. Nas delações da Odebrecht, os investigadores dizem que o senhor fez lobby no BNDES, no Governo Dilma, conversou com presidentes de outros países para defender obras das empreiteiras brasileiras. E o Alexandrino Alencar chega a dizer, Presidente, que a remuneração das palestras — palavras dele — era uma forma de remunerar o ex-Presidente face ao que ele fez durante muitos anos para o grupo. E que fosse feito de maneira licita e transparente a tal remuneração via palestras. Estão usando a tese de que as palestras serviam para alavancar as empreiteiras. Como o senhor responde a essas acusações, Presidente?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Eu não deveria nem responder, porque… Você faz palestra?

O SR. ENTREVISTADOR – Sim.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – E você faz palestra porque você ganhou credibilidade para fazer palestra. A maioria dos jornalistas que são pessoas de nome na televisão fazem palestra. E fazem palestra porque é um jeito de aumentar sua independência financeira e cuidar melhor das suas famílias. Quando eu deixei a Presidência, eu tinha muitas coisas. Eu fui chamado para ser consultor de muitas empresas. Nunca quis ser consultor, nunca quis ser conferencista profissional. Eu era um contador de caso de um governo bem-sucedido. Quando eu deixei a Presidência, o PT me registrou. Eu iria ganhar um salário 23 mil reais na época, e eu recusei. “Eu não quero receber do PT porque eu vou fazer palestra”. E, quando eu comecei a fazer palestras, recebi propostas dos empresários que cuidavam do Gordon Brown, que cuidavam do Tony Blair, que cuidavam do Fox, que cuidavam do Felipe González, que cuidavam do Kofi Annan, que cuidavam do Sarkozy, das pessoas que cuidavam do Clinton. E nós decidimos o seguinte: “Vamos criar um padrão,…”

O SR. ENTREVISTADOR – Para cobrar um valor.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – “… o valor será o do Clinton”. Mas com uma vantagem: os americanos davam um avião para ele viajar, que era o avião oficial; E eu cobrava, do empresário que pagava, o avião.

O SR. ENTREVISTADOR – O transporte.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – E contratasse quem quisesse. Foram setenta e duas palestras — para banco, para empresas de automóvel, para empresas de autopeças. Eles têm tudo, têm álbuns, têm fotografias. Tem até meus discursos! Pegaram meus setenta e dois discursos e guardaram, certamente para aprender a fazer discurso. E por que eu era um conferencista, um contador de caso caro? Porque as pessoas têm que ter orgulho! Isso não é ufanismo, não! Eu deixei a Presidência da República em 2010 sendo o presidente da república mais bem-sucedido do começo do século XXI. Quando as pessoas contratavam uma palestra e nós perguntávamos: “O que é que vocês querem que eu fale?” Eles falavam: “Lula, o que queremos é que você diga é qual foi o milagre que você fez para tirar 42 milhões da miséria e levar para a classe média, e para 33 milhões de pessoas saírem da miséria absoluta, fazer o Brasil ser respeitado como você fez?” Era isso que as pessoas queriam saber, e era isso que eu fazia. Fazia, e fazia muito bem. Está tudo gravado, eles têm. Está gravado. Eu não fazia lobby para empresa, não. Eu ia defender o Brasil, como todos os presidentes defendem. Agora, como o pessoal do Ministério Público e da Polícia Federal, parece, não tem nenhuma formação política, na verdade eles não estão julgando um erro pessoal: estão julgando um jeito de governar. Eu estou convencido de que o Brasil é um país de tamanha envergadura, na América Latina, que tem que tem uma política de influenciar que empresas brasileiras se implantem no exterior. Eu dizia na África, na primeira viagem que fiz a Angola: “Uma empresa brasileira em um país africano é uma bandeira do Brasil naquele país”. Foi assim que a Inglaterra fez com o Brasil, foi assim que os Estados Unidos fizeram com o Brasil. Agora, parece que os procuradores não. Você veja um negócio: na campanha de 2006 — você deve estar lembrado —, o Alckmin fez uma acusação de que eu estava financiando o metrô de Caracas e não estava financiando o metrô de São Paulo. Mal ele sabia que quem começou o metrô de Caracas, a financiar, foi o Fernando Henrique Cardoso, e justamente…

O SR. ENTREVISTADOR – Há uma exportação de serviços brasileiros.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Exportação de serviços. Só para você ter uma ideia, no porto de Mariel eles compraram de produtos nossos 850 milhões de dólares. Agora, se a pessoa é analfabeta política e tem um outro jeito de governar — “Não é assim!” —, então a pessoa vai ter que saber o seguinte: “Eu vou ter que parar de trabalhar no Ministério Público e na Polícia Federal, vou ser candidato de alguma coisa e vou governar de outro jeito”. Sabe por quê? Porque quem aprova financiamento não é o Presidente da República; você sabe que é o COFIG que aprova. E o COFIG é uma instituição…

O SR. ENTREVISTADOR – Colegiada.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – … em que participa o Ministério das Relações Exteriores, o Ministro da Fazenda, o Ministério do Planejamento, o Ministério da Indústria e Comércio… O único que não participa é o Presidente da República. Se eles soubessem disso, não falavam tanta baboseira quanto falam.

O SR. ENTREVISTADOR – Presidente, eu quero encerrar um pouco esse capítulo da Lava-Jato, até para falar um pouco de política, porque o senhor é um potencial candidato para a Presidência da República no ano que vem e há todo um contexto envolvido nisso. Mas, na semana passada o Palocci sinalizou claramente a sugestão de fazer uma delação. Ele falou lá que podia dar informações que renderiam um ano de trabalho para a Lava-Jato, mas há bastidores de que o Ministério Público só aceita a delação se ele envolver o senhor.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Isso não é mais novidade.

O SR. ENTREVISTADOR – Pois é, o senhor…

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Se você for preso, a primeira pergunta será: “Você conhece o Lula? Você tem relação com o Lula?” É isso que vão perguntar para você, por falta de outro assunto.

O SR. ENTREVISTADOR – O senhor tem algum temor em relação à delação do Palocci.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Eu não tenho nenhum temor. Gente, o Palocci é meu amigo, fundador do PT. O Palocci é uma das inteligências políticas mais privilegiadas deste País. O Palocci está preso e não foi julgado ainda. Não teve sequer o direito de habeas corpus ainda, ou seja, ele está preso, está lá trancafiado. “Enquanto não falar, não sai! Enquanto não falar, não sai! Se você quer sair, fala do Lula. Se você quer sair, fala do Lula!” É assim com todo mundo, Kennedy. Então, meu querido, eu não tenho nenhuma preocupação com a delação do Palocci, como eu não tenho… Se você for preso, não terei medo da sua delação, e não tenho da de nenhum empresário. Pode prender mais gente, pode prender mais gente! A não ser que a pessoa seja cretina e vá lá para mentir. Mas, depois da delação, tem que ter prova.

O SR. ENTREVISTADOR – Presidente, o PT diz que a Lava-Jato instaurou um processo de destruição de riqueza no País. Nós vimos uma exposição da corrupção, e é até uma corrupção sistêmica. Partidos que usavam o argumento da corrupção contra o PT e contra o PSDB… Você vê figuras importantíssimas do PSDB sendo acusadas. Há também gente do PMDB. Os defensores da Lava-Jato argumentam…

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Há gente de todos os partidos.

O SR. ENTREVISTADOR – De todos os partidos. Mas os defensores da Lava-Jato argumentam que a exposição dessa corrupção sistêmica — e o ex-Presidente Fernando Henrique até falou que a classe política brasileira está devastada, está destruída — vai legar uma modernização do País e um país menos corrupto no futuro. O senhor não vê nada de positivo na Lava-Jato?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Não foi assim na Itália. Na Itália, o resultado da Operação Mãos Limpas resultou no Berlusconi.

O SR. ENTREVISTADOR – O senhor teme que o mesmo aconteça no Brasil?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – É lógico, porque, primeiro, todos nós — eu, você e 204 milhões de brasileiros — somos favoráveis a qualquer processo de apuração de corrupção. É por isso que nós fortalecemos as instituições que verificam corrupção neste País. E você sabe, como jornalista e competente que é, que ninguém fez mais neste País para facilitar a apuração de corrupção do que nós. E não fizemos para ficar fora, não. Fizemos porque o PT tem que estar junto. Ou seja, o que acontece, a diferença, é que, quando denunciam o PT, dizem que o PT pegou o partido, dizem que o PT pegou a eleição…

O SR. ENTREVISTADOR – É o pai da corrupção brasileira!

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – O que você está vendo nos outros partidos é conta pessoal. As denúncias são de contas pessoais. Isso é muito mais grave. Então, o que eu acho? O PT, por exemplo, está defendendo que não haja mais financiamento privado em campanha. Que o financiamento seja público, que a justiça eleitoral fiscalize e que os partidos sejam responsáveis pela distribuição interna do dinheiro. A briga tem que ser internamente. Segundo, eu acho que precisamos de uma reforma política para acabar com o fisiologismo no Brasil. A operação Lava-Jato tem méritos na medida que está apurando a corrupção. Qual é a crítica que eu faço à operação Lava-Jato? É que o juiz Moro subordinou o sucesso da apuração à criminalização das pessoas, na opinião pública, pela imprensa. Ou seja, quem sabe das coisas não são os advogados de defesa, quem sabe das coisas é a imprensa. Primeiro, a imprensa sabe; ela execra as pessoas na opinião pública; e depois facilita o trabalho de condenação das pessoas. É isso que eu condeno. Eu condeno porque todo mundo tem direito de defesa, todo mundo tem que viver democraticamente neste País, e há um processo seletivo na denúncia. Eu acabei de lhe dizer da denúncia de Emílio Odebrecht sobre a empresa que ele criou com a Globo para interferir nas privatizações no governo do Fernando Henrique Cardoso. Eu não vi ninguém investigar isso. Aliás, não deu notícia em jornal nenhum. Imagina se fosse o Lula! Era manchete. Então, eu acho que, se um juiz precisa da imprensa condenar as pessoas publicamente para ele ter razão, nós precisamos repensar o papel do Poder Judiciário.

O SR. ENTREVISTADOR – Presidente, quero falar com o senhor sobre a sua eventual candidatura à Presidência da República. O senhor sempre diz assim: “Ah, se o PT quiser, eu posso ser candidato. Ah, eu estou ficando com vontade de ser candidato”. Eu queria que o senhor fosse mais claro a respeito disso. Porque há duas condicionantes. Uma, política, é um desejo do senhor de ser candidato. Se o senhor quiser ser candidato, o PT lançará o senhor. E há a questão jurídica, porque há uma expectativa de que o Moro provavelmente condene o senhor.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Isso é você que está dizendo.

O SR. ENTREVISTADOR – É o que todo mundo diz. Mas, enfim, há essa expectativa. E, se houver uma condenação em segunda instância, o senhor teria que recorrer ao STJ, ao STF, para manter as suas condições de elegibilidade. Se o senhor, Presidente, tiver condições jurídicas de ser candidato, o senhor já tomou a decisão política de ser candidato? O senhor será candidato?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Primeiro, eu vou ter condições jurídicas de ser candidato, porque não há nenhuma razão jurídica para evitar que eu seja candidato. Aí seria melhor eles terem a coragem de dizer: “Vamos dar o segundo golpe neste País, e não vai ter eleições em 2018”. Acontece…

O SR. ENTREVISTADOR – E o senhor será candidato?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – … que todas as pesquisas de opinião pública feitas por eles até agora, indicam que, se eu for candidato, eu tenho a possibilidade de ganhar as eleições no primeiro turno. Então, obviamente, não podemos ficar analisando pesquisas com tanto tempo de antecedência, porque tem gente que está em primeiro e pode chegar em último, e tem gente que está em último e pode chegar em primeiro.

O SR. ENTREVISTADOR – O senhor será candidato?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Obviamente, na situação em que se está, eu serei candidato. E lhe direi mais: eu agora quero ser candidato. É importante. Eu agora quero ser candidato à Presidente da República! Porque, na situação em que o País está, sem nenhuma falta de modéstia, as pessoas sabem que eu sei, as pessoas sabem que eu já fiz, e as pessoas sabem que eu posso consertar este País. E, para começar a consertar este País, nós primeiro temos que fazer com que o povo volte a ter confiança nele próprio. Segundo, o governo precisa ter credibilidade, e para que haja credibilidade é preciso ter alguém que seja eleito democraticamente pelo povo. Então, eu digo para todo mundo: “Quer resolver o problema do País? Vamos incluir os pobres outra vez no orçamento”. Aí você tem que ter política de geração de emprego, de distribuição de renda, e não fazer o que estão fazendo: jogar a culpa da desgraça em cima do pobre outra vez. E todas as medidas que estão fazendo é para favorecer os ricos.

O SR. ENTREVISTADOR – Presidente, eu quero falar também de questões políticas importantes, como a reforma trabalhista e a reforma da Previdência, mas, antes, sobre essa política empresarial. Há um setor empresariado bastante seduzido pela hipótese de o João Dória, Prefeito de São Paulo, ser candidato à Presidência. E o abalo que a Lava-Jato provocou em figuras como Aécio, Serra e Alckmin estão reforçando, quase que naturalmente, dentro do PSDB, essa eventual candidatura do Dória. O Dória tem criticado muito o senhor. Diz que o senhor e o PT são os responsáveis pelo maior esquema de corrupção da história — palavras dele — e que são responsáveis também pela crise econômica, pelos 13 milhões de desempregados; que esse desarranjo econômico começou lá atrás, no governo do senhor. Como é que o senhor responde a essa acusação do Dória? O senhor teme uma eventual candidatura do Dória?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Deixe-me lhe falar uma coisa: quando eu era presidente do sindicato, o Sauer, presidente da Volkswagen, o presidente da Mercedez e o da Ford sempre se queixavam que eu fazia muita crítica a eles. Eu dizia: “Eu faço muito crítica a vocês porque vocês são os maiores, então preciso criticar”. Obviamente, o Prefeito de São Paulo quer cinco minutos de glória. Quer que eu responda a ele. Eu não vou responder, porque ele tem obstáculos muito grandes, antes de chegar para me enfrentar. Ele primeiro tem que governar a cidade. Ele não pense que, fazendo pirotecnia, andando em ônibus às três horas da tarde… Eu quero ver é ele pegar ônibus às seis horas da tarde! Eu quero ver é ele pegar metrôs às seis e meia da tarde! Eu quero ver se ele foi às enchentes, andar nas enchentes, ou se vai quando está seco. Não, pirotecnia nós já vimos neste País. Nós já tivemos prefeito que ganhou a eleição varrendo São Paulo. Nós tivemos prefeito que dançava no carnaval vestido de trabalhador da faxina. Nós já tivemos presidente que foi eleito pela mídia, que vestia camiseta contra drogas todo santo dia, e era primeira página todo santo dia. Pirotecnia não governa nem uma cidade pequena nem uma cidade grande. Eu acho que esse prefeito de que você falou, que disse que era um grande gestor, até agora não fez absolutamente nada de gestão. Ele está fazendo pirotecnia, e ninguém sobrevive com pirotecnia. Portanto, é o seguinte: “Você, meu caro, vai ser analisado pelo seu mandato de quatro anos. Governe! Se você governar e ganhar credibilidade, você pode dar o salto que você quiser, mas não ache apenas que o agrado da imprensa, o agrado de banqueiro…” Sinceramente, se alguém for candidato do banqueiro, é esse que eu quero enfrentar. É esse que eu quero enfrentar. Eu quero enfrentar um candidato do banqueiro que, ao mesmo tempo, seja candidato da Globo. Quero enfrentar. Quero enfrentar, assim, com a chave “Lulinha Paz e Amor”, porque, eu vou lhe contar uma coisa…

O SR. ENTREVISTADOR – Esse discurso está um discurso de guerra.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Eu não sei… Não é de guerra, não. De guerra, eles fazem contra mim. Eu estou sempre em paz. Eu estou sempre como os coitados dos vietnamitas: fica o baixinho ali, escondido; e os americanos grandões jogando bomba. Depois, os baixinhos ganharam. Eu estou muito tranquilo, Kennedy, porque eu duvido que algum setor da economia tenha ganhado mais dinheiro do que ganhou no meu tempo de governo, duvido! Dos trabalhadores aposentados aos mais humildes trabalhadores deste País, aos maiores empresários deste País! Duvido. Porque eu, na verdade, quando eu disse que fiz um governo de conciliação, eu fiz um governo de conciliação com o povo brasileiro. Foi o período que teve menos greve. Foi o período que teve menos ocupação no campo. Foi o período que teve menos ocupação de terra na cidade, menos mortalidade infantil, menos evasão escolar.

O SR. ENTREVISTADOR – O senhor se arrepende de ter feito um governo de conciliação com as elites?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Não, eu fiz um governo de conciliação com o povo, é muito mais importante. Veja, poucas vezes este País teve um presidente que transitava em todos os setores da sociedade. Quando eu criei o conselhão, na primeira reunião eu coloquei o Gerdau sentado junto com o dirigente sindical e com o índio, que era para mostrar que era possível governar para todos, sempre tendo um olhar mais carinhoso para as pessoas mais necessitadas. E as pessoas reconhecem isso. As pessoas reconhecem, e é por isso que eu apareço com grandes possibilidades de ser candidato e de ser vitorioso. Vamos esperar a história seguir a sua trajetória e vamos ver o que vai acontecer em 2018.

O SR. ENTREVISTADOR – Acabei de ser informado pela produção do SBT que o Moro confirmou a audiência no dia 10, em Curitiba.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Para mim, não tem problema. Como eu lhe falei, tanto faz: no dia 3, dia 2, dia 10, dia 15… Talvez se queira fazer mais espetáculo, pirotecnia, para quando eu for prestar depoimento. Eu estou muito à vontade. E vejo: a coisa mais importante que eu quero fazer é prestar o meu depoimento. Eu quero ficar frente a frente com os meus acusadores, para que a gente possa ter uma conversar. E, aliás, você poderia fazer um favor pra mim.

O SR. ENTREVISTADOR – Diga.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – O SBT poderia fazer um favor pra mim: mandar uma carta para o Moro pedindo que o meu depoimento fosse aberto para a imprensa, para não ficar subordinado a um vazamento. Porque fica aquela câmera dele, filmando, e parece que ele é uma voz do além, perguntando para o coitadinho que está exposto lá. Não sabe onde está a câmera, não sabe… Então, era muito melhor…

O SR. ENTREVISTADOR – … que fosse um depoimento aberto.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Já que é para vazar, vamos fazer um depoimento aberto. A Globo vai lá, vai cobrir. O SBT vai lá, vai a Bandeirante, vai todo mundo cobrir, e ninguém esconde nada de ninguém. Fica todo mundo… Aparece a cara do Moro, aparece a minha cara, aparece a cara dos procuradores. É isso que eu acho que seria importante.

O SR. ENTREVISTADOR – Presidente, vou acelerar a entrevista, porque há muitos pontos que eu queria falar com o senhor. Há alguma tratativa em curso entre o senhor, o Fernando Henrique Cardoso e o Temer, para se tentar uma sobrevivência política à Lava-Jato.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Primeiro, veja, eu não vou fazer nenhum acordo de sobrevivência política à Lava-Jato. O que eu acho é que, se tiver que haver uma reunião entre os políticos — e têm que ser os presidentes dos partidos que a devem puxar — é para discutir uma reforma política, para que o País não tenha mais partidos fisiológicos e para que possamos ter partidos mais sérios, porque, se a gente continuar com essa lógica de desmoralização dos partidos, o que vem no lugar disso é o fascismo ou o nazismo.

O SR. ENTREVISTADOR – Sobre isso o senhor topa conversar com o Temer e com o Fernando Henrique.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Veja, eu sinceramente não tenho muito interesse de conversar com o Temer, porque a forma com que ele chegou ao governo não condiz inclusive com as conversas que eu tive com ele. Com o Fernando Henrique Cardoso, eu fique muito agradecido quando ele foi me visitar no hospital, foi visitar a Dona Marisa. Eu acho que há um espaço para a gente conversar sobre reforma política. E também discutir sobre economia. Não tem nenhum problema.

O SR. ENTREVISTADOR – Rapidamente, Presidente, o mercado financeiro tem muita descrença num eventual novo mandato do senhor. Falam: “Ah, o Lula agora está com um discurso de que ele vai fazer mais intervenção estatal, então ele não vai ter aquela responsabilidade fiscal do primeiro mandato”. Um eventual governo do senhor vai fazer mais intervenção na economia?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Primeiro, deixe-me lhe falar, responsabilidade fiscal não é motivo de orgulho, ou seja, é obrigação. Eu vou dizer para você o que eu dizia quando era Presidente. Minha mãe, ela recebia o holerite de pagamento num envelope, naquele tempo, fechado, com o dinheiro de todos os meus irmãos. Ela contava o que era para pagar a padaria, o que era para pagar a luz e tal. Se sobrava, ela distribuía um pouquinho para cada um. “Não gastem mais do que vocês ganham.” Essa é a minha lógica.

O SR. ENTREVISTADOR – O mercado não deve temer o senhor?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – O mercado pode temer sim, sabe por quê? Porque o Banco do Brasil vai voltar a ser banco público, porque a Caixa Econômica vai voltar a ser banco público, porque o BNDES vai voltar a ser banco público. Ele tem que saber disso, tem que saber disso. Esses bancos salvaram a economia em 2009.

O SR. ENTREVISTADOR – Haverá responsabilidade fiscal? E a política fiscal?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Meu caro, responsabilidade é comigo. Eu provei o quanto eu diminuí a dívida pública, eu provei o quanto a economia brasileira cresceu. E no pior momento da economia brasileira, na crise de 2008, eu fui para a televisão e assumi um discurso de oito minutos para dizer para o povo: “Olhe, compre com responsabilidade, porque, se você não comprar, a economia vai piorar e você vai perder o seu emprego. E isso foi o maior sucesso, porque os pobres compraram mais do que os ricos. Eu não aceito lição de moral de banqueiro sobre responsabilidade fiscal! Quem não tem responsabilidade são eles, que cobram a taxa de spread do cartão de crédito que eles cobram!

O SR. ENTREVISTADOR – Altíssima! Presidente, o senhor fez uma reforma da Previdência, quando esteve no poder. O senhor discutia e defendia, lá no sindicato de São Bernardo, essa coisa de o acordado valer sobre o legislado. Por que o senhor se opõe hoje às reformas da Previdência e trabalhista?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Deixe-me dizer-lhe uma coisa: quando a gente fala em reforma, a parte mais pobre da população, que vai ser vítima da reforma, ela pensa que vai melhorar. Ora, é assim que você fala de fazer reforma da sua casa, é assim que você fala de fazer reforma da sua roupa, é assim que você fala…

O SR. ENTREVISTADOR – É o argumento do Governo: se não fizer a reforma da Previdência, não tem dinheiro no futuro para pagar a Previdência.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Agora, veja, o que vai acontecer? Veja, eu provei — os números provam — que, de 2004 a 20014, no meu Governo e no da Dilma, a receita da Seguridade Social cresceu 54,1% e foi superavitária. Sabe por quê? Porque se criaram 22 milhões de empregos, porque o crescimento real do salário era de 3,5%, porque o salário mínimo aumentou, porque houve formalização de 6 milhões de pequenas empresas e de milhões de trabalhadores. Então, a economia cresceu muito e cresceu o dinheiro da Previdência. Você não faz reforma em crise jogando a culpa na crise. Você faz reforma juntando as partes e negociando o que é possível. E para que você quer a reforma? Olha, a reforma trabalhista que eles estão fazendo é, na verdade, rasgar a CLT, é acabar com a Justiça do Trabalho, para que o trabalhador fique refém do empresário. E todo mundo sabe que, no Brasil, nós temos apenas meia dúzia de sindicatos capazes de sentar com os empresários e negociar com igualdade de condições. Um deles é o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Outro é o Sindicato dos Bancários. Muitos outros não têm capacidade de negociar, não têm estrutura para negociar. Então, se você rasga a CLT, se você acaba com a Justiça do Trabalho para fazer a reforma trabalhista, você estará voltando ao começo do século XX e (ininteligível).

O SR. ENTREVISTADOR – O que o senhor acha da reforma da Previdência?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Deixe-me apenas repetir uma coisa: o legislado vale menos do que o negociado quando o sindicato é forte para negociar.  Quanto à Previdência, é um absurdo o que eles estão fazendo, porque todos os indícios da reforma da Previdência são para jogarem a desgraça, o custo da Previdência nas costas do povo pobre!

O SR. ENTREVISTADOR – Mas onde? Está no tempo longo de contribuição, ao passar de 15 anos para 25 anos?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Olha, só tem um remédio — e se o Temer estivesse ouvindo a gente, seria tão bom…

O SR. ENTREVISTADOR – Certamente ouvirá.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – E o Meirelles!  Sabe para quê? Querem resolver o problema de dinheiro da Previdência. A economia tem que voltar a crescer, pelo amor de Deus! Para a economia voltar a crescer, a União tem que voltar a ter capacidade de investimento, os Estados têm que ter capacidade de investimento, as Prefeituras têm que ter capacidade de investimento, os empresários privados têm que querer colocar dinheiro no mercado. É preciso que a gente tenha em conta isso.

O SR. ENTREVISTADOR – Mas a política econômica da Dilma não tirou essa capacidade de investimento do Governo, dos Estados e dos Municípios?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Deixe-me lhe falar: a Dilma começou equivocadamente o segundo mandato de 2015 fazendo a proposta de reforma que ela fez. Agora, por que ela fez? Você é um jornalista político e vai saber o seguinte: se você analisar bem, em 1999, no começo do segundo mandato do Fernando Henrique Cardoso, com uma política cambial desastrosa, você chegou à mesma situação da Dilma, correto? E o Fernando Henrique Cardoso, inclusive, chegou a 8% de intenção de voto. Qual foi a diferença da Dilma e do Fernando Henrique Cardoso? É que a Dilma tinha o Eduardo Cunha querendo prejudicá-la, não votando nada; e o Fernando Henrique teve o Temer Presidente da Câmara, votando tudo, para facilitar. Se Eduardo Cunha tivesse votado a reforma da Dilma com a pressa que ela queria, a gente não teria chegado aonde nós chegamos. É importante lembrar que a Dilma mandou uma medida provisória revogando as desonerações, porque, entre 2011 e 2014 ou 2015, foram feitos 540 bilhões de dinheiro de isenção fiscal e desoneração.

O SR. ENTREVISTADOR – E acabou com a política fiscal.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Aí estava entrando menos dinheiro do que saindo! Quando ela tentou parar isso, o Renan devolveu a medida provisória e não a colocou em votação.

O SR. ENTREVISTADOR – Nosso tempo está acabou, mas eu gostaria que o senhor respondesse rapidamente: é a favor de antecipar as eleições presidenciais e de uma Assembleia Constituinte nova?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Veja, eu sou a favor — o PT não tem uma definição, mas eu sou a favor — de antecipar as eleições, porque o País não comporta ficar até 2018 no clima em que está. É preciso recuperar a autoestima desse povo.

O SR. ENTREVISTADOR – E uma Constituinte nova?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – É preciso que a gente pense o momento político. Em uma Constituinte nova, pode dar uma parte dos mesmos Deputados que estão aí. Eu acho que não seria interessante…

O SR. ENTREVISTADOR – Podem ser jogadas fora as conquistas de 1988.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – É preciso que a gente crie um outro momento político. O que é importante é que a gente chame a sociedade brasileira à responsabilidade. Não adiante ficar xingando o político se você votou nele na eleição passada. É importante que você que acha que todo mundo está errado crie juízo, entre na política, seja candidato, vote em gente que tenha compromisso, para não fazerem a desgraceira que estão fazendo com o País.

O SR. ENTREVISTADOR – O Governo cogita aumentar impostos em maio. Será uma medida correta? Até para diminuir o déficit, já que há previsão de rombo neste ano e no ano que vem, está havendo a possibilidade de se aumentar imposto, Presidente.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Deixe-me dizer: você sabe que eu mandei duas medidas provisórias. A de 2007, acordada com Governadores, com sindicatos, com lideranças; e não foi pra frente. Eu acho que o Governo, se tiver que aumentar impostos, tem que dizer que tem que aumentar impostos, sim. Mas eu não sei se o problema hoje é só aumentar imposto. Eu acho que o problema hoje é o Governo assumir a responsabilidade de servir como se fosse um motor de arranque para tocar a economia brasileira. Quando estávamos no Villares, em que fazíamos motor de navio, um motor de 12 metros de altura era tocado por um motorzinho pequeno, no qual fazíamos ajustes. Era chamado de motor de arranque.  Neste momento, é disto que se está precisando: que o Governo tenha credibilidade para dizer ao povo o que quer fazer. E não é falar mais na palavra corte, é falar em investimento. Pelo amor de Deus, vamos fazer investimento!

O SR. ENTREVISTADOR – Não pode explodir a dívida pública, que já está numa patamar alto?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Essa é uma coisa que discuti com você em 2015, quando aqui vim. A dívida pública foi feita por todos os países do G8. E ela aumentou de 2007 para cá. Por quê? Porque cabe ao Estado colocar dinheiro na economia, para tentar fazer a economia crescer. Se você coloca dinheiro na economia para a economia crescer e você faz investimento em infraestrutura e gera emprego, o que acontece? Os empregos vão gerar mais salários, que vão gerar mais arrecadação, que vai fazer crescer o PIB. Aí a dívida pública vai diminuir com relação ao PIB. Nós temos que ser responsáveis. Agora, para tudo isso acontecer, tem que haver uma pessoa que, quando fala, as pessoas nela acreditam.

O SR. ENTREVISTADOR – Presidente, o senhor falou há pouco do Eduardo Cunha. Segundo  Temer, em entrevista que deu à Bandeirantes, o Eduardo Cunha teria dito a ele que não ia tocar o processo de impeachment adiante porque teria três votos do PT a favor do Deputado no Conselho de Ética. Depois, quando Rui Falcão tuitou que o PT ia votar contra ele, ele resolveu dar seguimento àquele pedido de impeachment. O próprio Temer falou: “Olha, talvez a Dilma estivesse no poder”. A Dilma deveria ter negociado com o Eduardo Cunha para preservar o resto do mandato? Ou o impeachment aconteceria de qualquer maneira, porque ela perdeu o apoio no Congresso e a política econômica estava ruim?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Primeiro, eu não quero julgar a atitude de Eduardo Cunha, eu quero julgar a atitude do Temer. O Temer era Vice-Presidente da República. Ele deveria ter dito para o Cunha: “Não, você não pode fazer isso, porque é inconstitucional. Nós não podemos inventar uma mentira”. E sobretudo o Temer, um senhor de 76 anos de idade, um jurista famoso aqui em São Paulo, poderia ter dito ao povo: “Eu não quero o poder pela via do golpe”. Poderia ter recusado.

O SR. ENTREVISTADOR – Mas a Dilma não poderia ter negociado com o Cunha?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Eu não sei se ela deveria ter negociado com o Cunha.

O SR. ENTREVISTADOR – Porque o Cunha tinha mais seis meses de mandato, a Dilma tinha mais dois anos e tanto…

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Mas esse é um problema dela. O que eu quero julgar é que, se o Vice-Presidente da República, que era o partido mais importante na Câmara e mais importante no Senado, e era teoricamente o chefe do Cunha, tivesse dito: “Não vou aceitar esse tipo de coisa”, não teria aceitado.

O SR. ENTREVISTADOR – Faltou lealdade do Temer à Dilma?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Eu acho que faltou. Faltou compromisso com a Dilma e faltou compromisso com a democracia. Ele sabe que isso tem um preço, ele vai pagar o preço por isso. Obviamente, tem a glória de chegar à Presidência da República. Teve gente que ficou feliz por ter ficado um dia, imagine ficar três anos! Agora, é pobre para o Brasil isso. O Brasil não merecia mais isso.

O SR. ENTREVISTADOR – Mas a Dilma não errou na relação com o Temer?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Eu não sei, a Dilma pode ter errado em muitas coisas, mas nada justifica um golpe.

O SR. ENTREVISTADOR – Presidente, esta é a última pergunta: como o senhor tem enfrentado, com tem lidado com a perda da Marisa?

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Kennedy, eu pensei que já tinha experiência de viuvez, porque fiquei viúvo em 1971, com dois anos de casado. Mas, com os 43 anos de convivência que tive com a Marisa, é muito pior do que eu imaginava! Eu não tinha noção de quanto é difícil, de quanto é complicado chegar em casa à noite e não ter mulher. (Pausa.) O tempo vai se encarregar de fazer com que a gente supere isso. Mas é uma sensação muito ruim, que não desejo a ninguém. É muito desagradável.

O SR. ENTREVISTADOR – Presidente, desejo força para o senhor, para superar isso. Obrigado pela entrevista! Gostei muito da entrevista. Acho que o senhor tocou em todos os pontos. Falou de Lava-Jato, de Brasil, de tudo o mais.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – É uma pena que tenha sido rápida!

O SR. ENTREVISTADOR – Foram cinquenta minutos.

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Poderia ter sido mais.

O SR. ENTREVISTADOR – Marcaremos outra entrevista. Obrigado. Um abraço!

O SR. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Obrigado.

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